103 – Os Zumbis de Mora Tau (1957)

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Zombies of Mora Tau


1957 / EUA / P&B / 70 min / Direção: Edward L. Cahn / Roteiro: Raymond T. Marcus, George Plympton (história) / Produção: Sam Katzman / Elenco: Gregg Palmer, Allison Hayes, Autumm Russell, Joel Ashley, Morris Ankrum


 

Antes de George Romero reinventar o gênero em 1968, os filmes de zumbi tiveram seu auge durante os anos 30 e 40, sempre baseando-se na origem haitiana da criatura, em filmes como Zumbi Branco e A Morta-Viva, além de outras desgraças do Poverty Row. Após esse período, os mortos-vivos caíram no ostracismo e assim como outros monstros do cinema, foram substituídos pelo terror sci-fi da década de 50. Os Zumbis de Mora Tau é um desses poucos exemplares do gênero produzidos no período antes de A Noite dos Mortos-Vivos.

E é de se tirar o chapeu para Os Zumbis de Mora Tau, que apesar de não ser aquela maravilha da sétima arte, tentou investir em uma trama criativa, que atualizava a relação da figura do zumbi com a maldição vodu, e tentou escapar de qualquer enredo que envolvesse foguetes, alienígenas ou poderio nuclear. E um detalhe curioso é que os zumbis já haviam se tornado vítimas da radiação em um filme anterior do mesmo produtor, Sam Katzman, em O Cadáver Atômico.

Bom, nessa altura do campeonato se você já está acompanhando a lista do blog, conhece o nome Sam Katzman, icônico produtor responsável pela Clover Productions, responsável por alguns filmes trashes da década de 50 dignos de nota (entenda isso como quiser), como O Monstro do Mar Revolto, O Lobisomem (que foi lançado em sessão dupla com Os Zumbis de Mora Tau) e O Ataque vem do Polo. Agora se você veio parar nesse post porque é fã neófito dos zumbis e adora o seriado The Walking Dead, então com certeza vai acabar se decepcionando com Os Zumbis de Mora Tau, e sinceramente, com todos os filmes do gênero pré-Romero (apesar de que esse foi uma das inspirações confessas de Romero para criar seu clássico seminal).

Ainda falando sobre a Clover Productions, o diretor de O Lobisomem e O Ataque vem do Polo, Fred F. Sears, pupilo de Katzman, seria o responsável por dirigir também Os Zumbis de Mora Tau tendo montado alguns takes do filme e preparado todos os storyboards. Mas infelizmente Sears morreu prematuramente antes de dar andamento na produção, por conta das reações negativas que recebeu durante a primeira exibição de O Ataque vem do Polo (para mim, o pior filme de monstro já feito na história), fazendo com que Sears virasse um recluso em seu sítio e fosse encontrado morto três meses depois. No post de O Ataque eu conto um pouco mais sobre essa história trágica. Então quem finalizou o longa foi o diretor Edward L. Cahn.

Cemitério maldito

Cemitério maldito

Aqui a aventura se passa na África Ocidental, e não no Caribe, devolvendo a maldição vodu para suas raízes africanas. E neste balaio de gato, vamos ser apresentados a zumbis marujos que têm medo de fogo e vivem embaixo d’água, submergindo vez ou outra molhados e com algas marinhas penduradas no corpo. Pronto, isso já é o suficiente para imaginar a pérola que vem por aí. Soma-se isso a atuações enfadonhas, um roteiro pragmático engessado (por mais que tente ser criativo) e uma locação na África em um lugar desconhecido, que nem parece a África na verdade, e sequer tem africanos como personagens.

A jovem e bela Jan Peters (Autumm Russell) retorna à casa de sua reclusa bisavó na costa africana para descobrir que o local é tomado por uma maldição. E ela não é a única a desembarcar poe lá, já que um grupo de aventureiros está em busca de encontrar uma fortuna em diamantes submersos, nos resquícios do navio Susan B., naufragado em 1984. Reza a lenda que o navio afundou depois da tripulação europeia roubar os diamantes da tribo nativa local, que por sua vez, mandou ver uma maldição contra o homem branco, transformando-os em zumbis por toda a eternidade, obrigando-os a matar qualquer um que vier atrás dos diamantes, como já acontecera com outras quatro expedições anteriores, até que os diamantes sejam destruídos ou jogados fora, o que você preferir, e suas almas possam descansar para sempre.

A equipe liderada pelo inescrupuloso George Harrison (não, não é aquele dos Beatles), interpretado por Joel Ashley, quer a todo custo colocar as mãos nas preciosidades, e para isso conta com a ajuda do mergulhador Jeff Clark (Gregg Palmer) e do escritor Dr. Jonathan Eggert (Morris Ankrum). Claro que nenhum deles acredita na Vovó Peters e na ladainha sobre os zumbis. Nesse ínterim, ainda conhecemos a vulgar esposa de Harrison, Mona (vivida por Allison Hayes, a gigante de O Ataque da Mulher de 15 Metros) e também rola um interlúdio romântico entre Jan e Jeff. Ah, e também descobrimos que o marido da Vovó Peters faz parte da tripulação dos zumbis, pois foi o capitão do Susan B.

Descarrego

Satanás? É você, Satanás?

O resto é confete. Mona é atacada pelos zumbis e acaba tornando-se uma deles, e nem isso consegue frear a ganância do capitão Harrison e nem de Jeff, que arriscam a própria vida em cenas subaquáticas com direito a trajes completos de mergulho e escafandros (e com os zumbis andando debaixo d’água, muito antes da antológica briga entre um tubarão e um zumbi aquático em Zumbi 2 – A Volta dos Mortos de Lucio Fulci). E no final, Jeff com dó da pobre velhinha ao ver seu antigo marido ali zumbificado, joga os diamantes no rio e fica tudo por isso mesmo, sendo o grande altruísta do dia.

Mas o que simplesmente não me desce em Os Zumbis de Mora Tau é que sem sombra de dúvida, os zumbis aqui são os mais patéticos de todo o gênero. Eles são lerdos, burros, e quase estáticos. Não conseguem representar ameaça nenhuma. Nem sei como eles conseguiram matar todo um grupo de exploradores das outras vezes. E eles têm esse medo de fogo, certo? Então porque diabos eles simplesmente não atearam fogo em todos eles, até viraram cinza e depois fugiram com os diamantes, tornando-se milionários???????

Mas incrivelmente apesar dos apesares, a produção de Katzman serviu com um novo ponto de partida para o gênero e influenciaria os demais filmes de zumbi que viriam por aí, até chegarmos no conceito cinematográfico dos mortos-vivos que estamos acostumados (e já até saturados) a ver nos dias de hoje. Em Os Zumbis de Mora Tau, é a primeira vez que vemos um ataque em massa dos mesmos, arrastando-se para perseguir os heróis e estrangulando quem quer que esteja na sua frente, dando já um preview da fórmula dos filmes de apocalipse zumbi tão comuns atualmente. Além disso são os primeiros que são capazes de transformar suas vítimas em zumbis. E simplesmente é impossível destruí-los (exceto se a maldição for quebrada), ou seja, não se pode conter a terrível ameaça.

Ou seja, apesar do filme ser dos mais meia boca, Os Zumbis de Mora Tau acabou incidentalmente transformando-se em um marco do gênero e uma evolução da criatura nas telonas.

Zumbis em fila indiana

Fila de zumbis


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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] vem do Polo (sem dúvida o pior filme de monstro gigante de todos os tempos), O Cadáver Atômico e Os Zumbis de Mora Tau. Além destas precisosidades, Katzman também é conhecido pela minissérie do Superman de 1948 e […]

  2. […] nazistas submersos (porque só zumbis aquáticos nós já havíamos visto na década de 50 em Os Zumbis de Mora Tau da Clover Productions), e a presença de dois grandes nomes do cinema de horror no elenco: Cushing […]

  3. lorena disse:

    Oi eu amei seu blog, eu gosto muito de filme de zumbis..

  4. Mauro disse:

    O título nacional que este filme recebeu foi “O Fantasma de Mora Tau”. Foi exibido dublado na TV nos anos 1970 no Cine Mistério da TV Bandeirantes, e mais recentemente redublado na TV a cabo.

  5. […] o vodu da mitologia zumbi (apesar de alguns filmes futuros ainda usarem desse expediente, como Os Zumbis de Mora Tau, do mesmo diretor, Edward L. Cahn, e Epidemia de Zumbis, da Hammer), e inserir a radioatividade na […]

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