122 – O Monstro Gigante de Gila (1959)

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The Giant Gila Monster


1959 / EUA / P&B / 74 min / Direção: Ray Kellog / Roteiro: Jay Simms, Ray Kellog (história original) / Produção: Ken Curtis, B.R. McLendon; Gordon McLendon (Produtor Executivo) / Elenco: Don Sullivan, Fred Graham, Lisa Simone, Shug Fisher, Bob Thompson


 

O Monstro Gigante de Gila é dos filmes mais safados que eu já assisti. Sério. É um nível de truque tão grande, uma picaretagem tão descarada, e um podreira tão imensurável, que não dá para não se divertir com essa pérola do final dos anos 50.

Para começo de conversa, os realizadores dessa façanha cinematográfica são os mesmo de O Ataque dos Roedores. O diretor Ray Kellog, o roteirista Jay Simms, os produtores Ken Curtis e Gordon McLendon. Então só por isso já dá para ter uma ideia do que esperar de O Monstro Gigante de Gila. No caso de Kellog, se nota certa evolução na direção, o que é pior, com relação ao seu longa anterior. Não que isso queira dizer muita coisa. E pelo menos, eles usaram um monstro de gila de verdade nas filmagens, e não uma solução alternativa, como vestir cachorros de musaranhos geneticamente alterados.

Para também situar o leitor zoologicamente, o monstro de gila é um lagarto venenoso, de cor preta e rosa, que vive no sudoeste dos EUA e norte do México. Segundo a narração introdutória do filme, o tamanho que o monstro gila pode chegar nenhum homem pode prever. Mentira, pode sim. Até 60 cm de comprimento, o que já faz dele o maior lagarto norte-americano. Aqui, ele vira uma ameaça descomunal, pesando toneladas e sendo maior do que um caminhão.

Réptil gigante mortal!

Réptil gigante mortal!

A trama é como se Loucuras de Verão encontrasse Godzilla. Embalados pelo rock ‘n’ roll dos anos 50, a história foi filmada nas áridas paisagens do Texas, e voltado para o público adolescente, juventude transvidada da época, que só queria saber de festas, badernas, namoros e andar por aí com seus carros envenenados e tirar rachas. Logo no começo, um casal de jovens está dando um amasso na estrada, quando só vemos a patinha do monstro se aproximando em close e fazendo-os rolar ribanceira abaixo. Depois, outro casal de namorados também desaparece misteriosamente, vítima da criatura que come humanos como se fossem moscas (como diz no excelente trailer do filme).

Coloque na conta do monstro de gila também o dono da mecânica onde o jovem aspirante a astro de rock, Chase Winstead, trabalha. Ele está dirigindo um caminhão de combustível pela estrada à noite, quando surge o lagartão, e… bem vou descrever exatamente como é a cena: o caminhão está na estrada, corta para a face do animal, colocando sua língua para fora, corta para o motorista gritando em pânico, corta para um caminhão de brinquedo saindo da estrada, empurrado por um barbante, e explodindo. Eu juro que não estou brincando.

Cabe ao heroico Chase, que tem tempo de compor baladas para a irmãzinha deficiente, namorar uma francesinha, gravar um compacto com o DJ Steamroller Smith, o mais famoso disc-jóquei das redondezas, trabalhar guinchando os carros acidentados pelo monstro de gila e ainda organizar uma festa de arromba em um celeiro, salvar o dia da ameaça réptil, junto com o xerife Jeff, clone do Mazaroppi. E é nesta festa que o gilão (tá, foi infame) vai dar às caras para toda a população, já que antes ficava tudo só em um ineficiente clima de mistério, com uma contundente e repetitiva trilha sonora de tambores.

Heroi rockabilly!

Quero ver, outras vez, seus olhinhos de noite serena

Agora por que eu disse que é o filme mais salafrário já feito? Porque o monstro de gila NUNCA aparece junto com os atores na mesma cena. Não há nenhum efeito de trucagem, sobreposição de imagem, nada. As cenas são: atores/ corte/ close do monstro de gila/ atores/ corte/ close do monstro de gila. É hilário. E quando o animal “contracena” com outros objetos, é uma explosão de risos. Ele se rasteja sobre um cenário em maquete, e quando ele quebra um galho pisando sobre ele, sobe o efeito sonoro de um tronco sendo destruído. Arbustos fazem papel de árvores e morrinhos, papel de colinas. Mas é MUITO mal feito. Em uma fatídica cena do descarrilamento do trem, vemos o pobre do bicho se rastejando todo sobre uma ponte de mentira, de um Ferrorama qualquer, e passa por ela destruindo-a, fazendo com que o trem (de brinquedo, lógico), caia e pegue fogo. Ouvimos o grito desesperado de DOIS passageiros diferentes.

No ataque do gila ao celeiro onde está rolando a balada, colocaram o réptil para arrebentar uma casa da Barbie, com carrinhos Hot Weels estacionados ao lado, para dar a impressão de profundidade do tamanho colossal do lagarto. Se você ainda assistir a versão colorizada (competentemente colorizada, por sinal), as tosquices ficam ainda mais evidentes que a versão em preto e branco. Um filme desses é uma afronta. Aula de tudo que não fazer no cinema. Mas por isso ele é tão singular para os fãs das bagaceiras.

Não posso esquecer-me de mencionar os cenários. O orçamento foi de 140 mil dólares (o dobro de algumas produções de Roger Corman, por exemplo), mas só há uma locação, que se reveza como bar, oficina, delegacia, casa do Chase. Só mudar as mobílias de lugar. E como se não bastasse isso tudo, há algumas cenas musicais com Chase destilando seu rock ‘n’ roll. A mesma em que ele está cantando para a irmãzinha, só no fast forward mesmo para aguentar.

A sensação de enganação de assistir O Monstro Gigante de Gila, ou O Gigante Monstro Gila como foi lançado aqui em DVD (incluindo aí a versão colorizada) é imensa. Algo parecido com assistir Tubarão Cruel do falsário Bruno Mattei, onde não se vê também o tubarão atacando os atores, por ter sido roubadas cenas de outros filmes de tubarão (incluindo aí do Spielberg e a maioria de O Último Tubarão de Enzo G. Castellari). É um dos piores filmes já feitos. Mas o problema é que uma tranqueira como essa, acaba se tornando adorável.

Estacionamento de monstros de gila

Monstro de gila penetra

Assista ao episódio do videocast do 101 Horror Movies comentando O Monstro Gigante de Gila:


O filme é de domínio público. Dá para assistir e baixar aqui.



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] termos a “nítida impressão” do tamanho avantajado do animal, dignos dos mesmos utilizados em O Monstro Gigante de Gila, expoente do eco-horror trash dos anos 50, e fora o bom e velho suitmation, com atores vestidos […]

  2. […] Bill Rebane apresenta o pior filme Big Bug já feito, que para mim, rivaliza em ruindade com O Monstro Gigante de Gila no campo “fauna […]

  3. Ahahahhaha! Racho de rir lendo a sua descrição dos adoráveis defeitos especiais dos filmes, e como mesmo assim, eles nos são tão queridos

  4. era o tipo de filme que passava em drive in ,o pessoal ia para namorar acho que nem assistia,o filme já era considerado mal feito na época 1959, imagine hoje.

    • Hey, Aloisio. Desculpe pela demora pela resposta. Voltando de férias do blog agora.

      Está na mira de um Horrorcast agora na terceira temporada que começa esse ano.

      Abs

      Marcos

  5. Mauro disse:

    Por preguiça, a produtora que lançou este DVD no Brasil não pesquisou o título nacional que este recebeu quando de sua exibição entre nós: “Réptil Indômito” (conseguiram piorar ainda mais as coisas).

  6. […] Leia a minha resenha sobre O Monstro Gigante de Gila aqui. […]

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