128 – A Carne e o Diabo (1960)

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The Flesh and the Fiends / Mania


1960 / Reino Unido / P&B / 97 min / Direção: John Gilling / Roteiro: John Gilling, Leon Griffiths / Produção: Robert S. Baker, Monty Berman / Elenco: Peter Cushing, June Laverick, Donald Pleasence, George Rose, Renee Houston


A Carne e o Diabo é mais uma das adaptações de um dos episódios mais mórbidos e macabros da história da medicina, conhecido como os Assassinatos de Burke e Hare, dupla responsável por matarem 16 pessoas na Edimburgo do Século XIX, para vender seus corpos ao Dr. Robert Knox, que os utilizava em dissecações nas aulas de anatomia que ministrava na Universidade de Medicina.

Diversos outros filmes já se basearam neste fato chocante,  que na verdade é um tema bastante recorrente no cinema de horror: práticas médicas nefastas e roubo de cadáveres. Além de A Carne e o Diabo, o mais famoso (e primeiro) longa que nos traz esta trama é O Túmulo Vazio, clássico estrelado por Boris Karloff e dirigido por Robert Wise, com produção de Val Lewton para a RKO Pictures, lançado em 1945. O filme não é uma adaptação literal, como é o caso deste aqui, mas sim, baseado no conto homômino de Robert Louis Stevenson, que traz desdobramentos de bastidores da história. Além destes dois, também inspirados pelo caso, temos O Maquiavélico William Hart, de 1948 e Corredores de Sangue, também com Boris Karloff no elenco, ao lado de Christopher Lee, de 1958. Em 2010, John Landis ainda dirigiu uma comédia de humor negro sobre o caso, chamada Burke & Hare, com Simon Pegg (o Shaun de Todo Mundo Quase Morto) e Andy Serkins (famoso por dar vida aos traços digitais do Gollum em O Senhor dos Aneis e O Hobbit) no elenco.

A figura do proeminente e respeitado médico, Dr. Robert Knox, é interpretada pelo onipresente Peter Cushing, segundo o próprio ator, seu papel preferido em toda sua carreira cinematográfica, que de forma impecável (como de costume) dá vida ao médico, brilhante, mas ao mesmo tempo arrogante e dissimulado. Sua importância na história da medicina é inegável, mesmo sendo condescendente dos crimes cometidos pela famigerada dupla de imigrantes irlandeses, nunca se importando com a verdadeira origem dos cadáveres.

William Burke é vivido por George Rose e William Hart, por Donald Pleasence (famoso pelo papel do Dr. Loomis, de Halloween – A Noite do Terror). Ambos igualmente ótimos, diga-se de passagem. Para conseguir uma grana fácil, ambos começaram a desenterrar cadáveres para vendê-los ao médico pela fortuna de sete libras o corpo. Para depois em seguida, querendo evitar a fadiga, começar a assassinar pessoas. Sabe, nada como o trabalho honesto, não é?

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É pelo bem da medicina, garota!

No final das contas, ambos acabaram sendo presos, mas apenas Burke foi condenado pelo júri e executado, enforcado pouco tempo depois, assistido por uma multidão de pessoas. Interessante que no devido momento do filme, vemos um pintor local criando “ao vivo” um famoso retrato do seu enforcamento, que pode ser visto aqui. Hare foi inocentado, mas foi perseguido e depois e teve seus olhos queimados por uma tocha. O clamor popular também queria a condenação do Dr. Robert Knox, algo que não aconteceu. Na vida real, o caso foi o suficiente para arruinar sua carreira, fazendo inimigos em Edimburgo, principalmente na junta médica, e obrigando-o a se mudar para Londres, onde começou a escrever artigos em jornais médicos e outras publicações, pois não conseguia encontrar um trabalho como cirurgião.

Falando um pouco de aspectos técnicos do filme, A Carne e o Diabo é dirigido por John Gilling, que também escreveu o roteiro, de forma hábil e precisa. Ao assistir a fita, que deriva dos anos 60, parece que estamos assistindo aos clássicos do gênero da década de 40. A ambientação precisa de uma decadente Edimburgo de 1827, com suas ruas infestadas de marginais, bêbados e prostitutas e a fotografia austera em preto e branco, consegue traduzir toda a atmosfera lúgubre e sinistra que permeia o longa, de forma competente e aterrorizante. Gilling também foi responsável pela direção de alguns famosos filmes da Hammer, como A Serpente, Epidemia de Zumbis e A Mortalha da Múmia.

Além disso, há um certo grau de violência e crueldade maior do que estávamos acostumados a ver na época, pensando que aqui estamos apenas no primeiro ano da década de 60, recém saídos de toda uma fase inteira de filmes de ficção científica que exploravam a paranoia comunista e o medo nuclear. Na versão sem cortes, vemos assassinatos brutais, por estrangulamento ou pessoas sendo esfaqueadas, sem o menor pudor e arrependimento dos dois malignos vilões, e até diversas cenas de nudez feminina, com direito a vários peitinhos de fora nas cenas dentro dos cabarés.

A Carne e o Diabo (que no Brasil também ficou conhecido como O Monstro da Morgue Sinistra) é um excelente filme. Envolvente, macabro e atmosférico. Retrata um momento funesto da história escocesa e da própria história da medicina, que apesar de todo o horror e blasfêmia, teve sua importância para as descobertas e avanços do estudo da anatomia humana.

Quer pagar quanto?


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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] comum naquela época e foi retratado em diversos filmes, tendo O Túmulo Vazio com Boris Karloff e A Carne e o Diabo, com Peter Cushing, como os mais famosos. Acontece que o ladrão de sepulturas rouba exatamente o […]

  2. matheus chaves jardim disse:

    O Monstro da Morgue Sinistra passou em BH no ano de 1964.

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