139 – A Tortura do Medo (1960)

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Peeping Tom


1960 / Reino Unido / 101 min / Direção: Michael Powell / Roteiro: Leo Marks / Produção: Michael Powell (não creditado), Albert Fennell (Produtor Associado – não creditado) / Elenco: Karlheinz Böhm, Moira Shearer, Anna Massey, Maxine Audley, Brenda Bruce, Miles Malleson


Invasivo, provocador, mórbido e sádico. E você, que está aí sentando do outro lado da poltrona é testemunha ocular, participativa de alguma forma e impotente a tudo que acontece bem na frente dos seus olhos, graças a câmera voyeur de Mark Lewis, o personagem psicopata de A Tortura do Medo.

Dirigido por Michael Powell, o choque desta obra atingiu de assalto o mundo do cinema, no mesmo ano em que outras produções transgressoras como Psicose de Alfred Hitchcock e Os Olhos sem Rosto de Georges Franju desequilibravam o status quo dos filmes de terror vistos até então, transformando o mal em algo muito mais palatável, podendo ser encontrado em um motel de beira de estrada, em uma clínica médica ou no apartamento do andar de cima.

Além disso, A Tortura do Medo te coloca na perspectiva do assassino, você é cúmplice daquele sujeito desequilibrado com uma câmera na mão, que sofreu abusos psicológicos do pai psiquiatra durante a infância, tendo sua vida constantemente exposta para as câmeras, como um macabro Big Brother pessoal. E sabe o que é o pior? Você acaba sentindo dó do cara, da sua esquisitice, e acaba até achando compreensível sua vontade de matar, mesmo que os fins não justifiquem os meios. Mas incomoda o fato de simpatizar com um assassino de mulheres, exatamente por conta de todo o absurdo invasivo o qual foi exposto quando menino. Esse é um dos maiores trunfos de A Tortura do Medo.

Além disso, o filme de Powell é desfecho brilhante da chamada Sadian Trilogy já citada aqui no blog: trinca de filmes ingleses da produtora Anglo-Amalgamated, sádicos, violentos e de conotações sexuais, que fazia contraponto aos monstros da Hammer e colocava homens “normais” como assassinos impiedosos. Os outros dois filmes anteriores são Os Horrores do Museu Negro e Circo dos Horrores.

Câmera ou instrumento de sopro?

Câmera ou instrumento de sopro?

Mark Lewis (interpretado por Carl Bohem, pseudônimo de Karlheinz Böhm) é um cinegrafista que trabalha em um estúdio de cinema e nas horas vagas, prepara um documentário em que filma a morte de belas mulheres, matando-as com um artefato que é uma afiada lâmina postada no tripé de sua câmera. Em seu documentário funesto, ele quer captar o momento do medo primal antes da pessoa ter sua vida tirada por ele. Perfeccionista, ele vai matando jovens até encontrar o seu take perfeito, o qual vai assistindo inúmeras vezes em uma sala escura de sua casa.

E medo é o carro chefe que guia a vida e os anseios de Mark. Como disse anteriormente, desde criança ele é alvo de experimentos do pai com a psicologia do medo, que seguia o garoto atormentado com uma câmera, acordando-o à noite com flashes de luz em seu rosto, jogando um ameaçador lagarto na sua cama, tudo sendo devidamente documentado e filmado, assim como cruelmente acompanha o garoto durante o funeral da própria mãe, editada na sequência para o casamento do pai com sua segunda esposa, meses depois.

Medo, ódio, repressão e sexo representam a mesma confusão de sentimentos no pobre Mark desde sua infância até sua vida adulta, tornando o garotinho num homem recluso, introvertido, que enxerga melhor o mundo através da lente de sua câmera portátil, e predestinado a aumentar em uma escala exponencial as bizarras experiências do pai, não se permitindo nenhum tipo de relacionamento amoroso, apenas sadismo reprimido contra o sexo feminino. Isso até conhecer a jovem e doce Vivian (Moira Shrear), uma inquilina, pela qual acaba se apaixonando, mesmo lutando contra sua mente perturbada e jurando não filmá-la.

Nada como uma boa iluminação

Luz, câmera…

Obviamente, A Tortura do Medo afugentou o público dos cinemas, não preparado para este tipo de abordagem na época,  e quase arruinou a vida de um diretor tão querido e com trabalhos anteriores tão inocentes quanto Powell. Talvez fosse as motivações ambíguas do personagem, e esse incomodo sentimento de achá-lo simpático e até torcer pelo psicopata em conseguir levar uma vida normal com Vivian e se safar, mesmo após os horrendos crimes que cometeu, ou mesmo o fato que já destaquei do espectador ser conivente passivo dos crimes de Lewis, o verdadeiro peeping tom do título original do filme (um termo inglês para o voyeur ou observador), somado a isso o desconforto da brilhante fotografia de Otto Heller combinado com a Direção de Arte de Arthur Lawson, com seu berrante uso de cores quentes e vibrantes que saltam aos olhos (veja a edição em Blu-ray se você puder), que diferente da maioria dos filmes, ainda preto e branco até então (como o próprio Psicose, filmado em P&B exatamente para diminuir sua violência gráfica), te joga em um mundo vívido e real.

O fato é que apesar de todo e qualquer sentimento pudico e de repulsa com relação aos assassinatos que Mark pratica em todo filme, e em detrimento de todo choque e aproximação que A Tortura do Medo pode proporcionar, nós continuamos indo aos cinemas para sermos testemunhas oculares de atos violentos/ filmes violentos, nutrindo uma certa curiosidade mórbida e desejo de observar, que deixamos devidamente enjauladas no interior de nossa psique. Forçados a olhar através dos olhos/ câmera de um assassino, e não desviar este olhar, estamos ferindo todas as nossas principais noções de moral, religião e bons costumes. E isso com certeza desperta sentimentos díspares em cada um, sendo impossível passar incólume desta obra prima, retirada da obscuridade por Martin Scorcese, que pagou 5 mil dólares do próprio bolso para ter uma cópia do longa para exibi-la no Festival de Cinema de Nova York em 1979.

“Você sabe qual é a coisa mais aterrorizante do mundo? O medo”. A frase de Mark Lewis define muito bem, não só A Tortura do Medo, como o próprio cinema de terror em si.

Diga: "xis".

Diga: “xis”.


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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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  1. […] contestador naquela época, tomava um pau da crítica e público, como Psicose de Alfred Hitchcock, A Tortura do Medo de Michael Powell ou Os Olhos sem Rosto de Georges […]

  2. […] pelos conceitos iniciados com Sadian Trilogy (Os Horrores do Museu Negro, Circo dos Horrores e A Tortura do Medo), abusando de cenas de violência gráfica, sangue, sadismo e […]

  3. […] contemporâneo de Psicose e A Tortura do Medo, todos os três sofreram ataques devastadores da crítica na época de seu lançamento e ganharam […]

  4. […] Grand Guignol, e que depois reverberaria em clássicos como o próprio Psicose de Alfred Hitchcock, A Tortura do Medo de Michael Powell e Os Olhos Sem Rosto de Georges Franju, por […]

  5. […] ingleses de terror lançados entre 1959 e 1960, que também conta com Horrores do Museu Negro e A Tortura do Medo, todos funcionando como contraponto ao horror sobrenatural da Hammer, recheados de sadismo, […]

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