146 – Carnaval de Almas (1962)

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Carnival of Souls


 1962 / EUA / P&B / 84 min / Direção: Herk Hervey / Roteiro: John Clifford, Herk Hervey (história  – não creditado) / Produção: Herk Hervey / Elenco: Candance Hilligloss, Frances Feist, Sidney Berger, Art Ellison, Stan Levitt


Um daqueles achados do cinema de terror. Filme pouco conhecido, de domínio público, cultuado, horror em estado de arte, dirigido, produzido, atuado e imaginado por Herk Hervey, em seu único longa metragem, mas com um tremendo potencial inquestionável de apavorar. Isto é Carnaval de Almas.

Carnaval de Almas é responsável por inspirar uma penca de filmes com viés sobrenatural que vieram depois dele nestes mais de cinquenta anos, ainda mais para quem já viu este tesouro. Para quem não viu e está lendo sobre o tal pela primeira vez, acredite em mim, ele realmente influenciou uma penca de filmes vindouros. Coloque nesta conta os zumbis de George Romero, tanto em seu visual, no seminal A Noite dos Mortos-Vivos, quanto em sua derradeira quarta parte de quadrilogia, Terra dos Mortos, quando os mesmos saem de dentro da água, além de diretores como David Lynch, Francis Ford Copolla e M. Night Shyamalan (obviamente) e até Rod Serling, criador da série Além da Imaginação.

O longa é um pesadelo onírico de sua protagonista, Mary, vivida pela bela de olhos sempre arregalados, e amadora, Candance Hilligloss. Saído da mente de um cineasta de curtas metragens educativos e de um roteirista obscuro, John Clifford, ambos do Kansas, Carnaval de Almas nasceu inspirado na visita a um parque aquático abandonado em Salt Lake City. Com uma mixórdia de 30 mil dólares, muito amadorismo nas atuações (o próprio diretor interpreta um fantasma), corrida contra o tempo para entregar a fita e escassez de recursos, em apenas três semanas o longa estava pronto, e daí saiu uma verdadeira obra prima.

Corrida fantasma

Corrida fantasma

Isso graças a excelente fotografia preto e branca de Maurice Prather, uma mistura de surrealismo com expressionismo alemão, além de claras inspirações em Psicose de Hitchcock, e a excelentes recursos de câmera e ângulos inventivos do diretor, que driblaram todo e qualquer problema técnico. O roteiro muito bem elaborado com seu twist final, podendo parecer batido e clichê nos dias de hoje, a presença das aparições e o uso de alguns efeitos óticos, transformaram Carnaval de Almas em um filme vanguardista e o alçou a este status merecidíssimo no gênero.

A história já começa dando todas as pistas possíveis do que irá acontecer em seu final, a não ser que você tenha uma tremenda preguiça de pensar, ou que não seja tão escolado no universo fantástico como deveria. Mary e suas amigas entram um racha com um grupo de rapazes, ao melhor estilo Velozes e Furiosos made in 60’s. Na corrida, eles entram em uma estreita ponte e o carro das garotas é jogado para fora, em direção ao rio. A polícia começa uma incessante busca pelo veículo e pelos corpos, impedidos pelos bancos de areia e forte correnteza do local, até que Mary, a única sobrevivente, sai do rio em um estado semi-catatônico.

Tentando reconstruir sua vida e se livrar do trauma do acidente, Mary muda-se para outra cidadezinha, para trabalhar como organista em uma igreja. Lá ela hospeda-se em uma pensão e tem como vizinho de corredor o xavequeiro John Linden, exagerado e caricato personagem conquistador barato, que faz de tudo para levar a garota para cama, incluindo aí sua falta de tato e suas cantadas baratíssimas. Mas as coisas não caminham muito bem para Mary, que começa a sofrer de alucinações poderosíssimas, perda de sentido, beirando a esquizofrenia e claro, como bom filme de terror que se preze, começa a ver espíritos a torto e a direito, que vão perseguindo-a, levando a questionar sua própria sanidade.

Só que o que mais chama a atenção de Mary nesta nova cidade, e nesta bizarra fase de sua vida, é um parque de diversões abandonados, próximo à costa, que exerce um tremendo poder sobre ela. O local é movido por forças sobrenaturais, e a cena em que ela desbrava o parque pela primeira ver é mesmo de meter medo, com seus brinquedos funcionando sozinhos, espíritos que insistem em assustar e uma poética e macabra valsa dos mortos.

Riacho Doce

Direto de Riacho Doce

Outro ponto positivo do filme, que foge à regra de todo seu amadorismo, é a trilha sonora fúnebre, composta por Gene Moore e seu assustador órgão dissonante (preste atenção na cena em que ela está tocando uma música na igreja, aparentemente controlada por uma força inexplicável, e só é interrompida com o pastor gritando para que ela parasse com aquele sacrilégio e dando um baita esporro em Mary depois), intercalados com os momentos de silêncio, onde a protagonista parece viver em um sonho etéreo, alheia do resto das pessoas que nem distinguem sua presença, enquanto cada vez mais, as aparições fantasmagóricas com suas vestimentas pretas e maquiagem branca carregada, vão surgindo para apavorá-la e persegui-la.

Acho que nem vale aquele mega spoiler do filme, porque como disse lá no alto, o final é bastante óbvio para quem tem o mínimo de bagagem cinematográfica de terror e àqueles que pertencem à geração O Sexto Sentido. Ainda mais por conta das “viagens” dimensionais de Mary, entre dois mundos, aquele em que apesar de sua alienação e isolamento de contato humano e sua misantropia, ela pode ver, ouvir, ser vista e ouvida, e o outro, onde ela está vivendo num mundo espectral de vazio e pavor, repleto de delírios sucessivos em um pesadelo tétrico de solidão.

Levou três décadas para que finalmente Carnaval de Almas tivesse seu devido reconhecimento, pois ele foi um verdadeiro fracasso comercial, quando exibido originalmente em double features no cinema, e foi relegado à sessões da meia-noite futuras. Tanto que ao ser lançado em DVD pela Criterion, o filme teve cinco minutos a mais, tendo ganhando sua versão director’s cut. E mais tarde, ainda rendeu uma interessantíssima versão colorizada, que vale a pena assistir se você encontrá-la na Internet, mostrando o horror em cores vívidas, um contraponto com a fotografia lúgubre da versão P&B.

Recomendadíssimo para os que são fãs de verdade do cinema de horror.

Rocky Horror Picture Show

Rocky Horror Picture Show


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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

8 Comentários

  1. André Coletti disse:

    Esse filme é maravilhoso! Mas as legendas [não só a do opensutitles, mas de outros sites também] não estão de acordo com o filme. não significa que apenas estão sem sincronia, mas elas estão com tempos bem abstratos.

  2. Bea disse:

    as legendas são fora de sincronia, de vários sites realmente. Poderiam arrumar ?

  3. Walter Ferrari disse:

    Apenas para informar que este filme foi recém lançado em DVD pela Versátil Home Vídeo…

    E fica como sugestão para esse site maravilhoso… Dêem uma olhada nos últimos lançamentos em terror dessa distribuidora e aproveitem para atualizar as informações. Eles lançaram três volumes de coleção de terror, cinema giallo, lovecraft entre outros.

    • Edla disse:

      Gente, eu não entendo…se ela está morta, como o pastor, o vizinho, a dona da pensão, etc., falam com ela e mantém contato físico? Até no final eles examinam pegadas dela!
      Não entendi mesmo…

  4. Renan Maia disse:

    Assisti hoje em DVD. Sensacional, fantástico, obra-prima! Fazia tempo que um filme não me provocava tamanha admiração. E pensar que foi feito com um orçamento minúsculo lá em 1962… Dá um banho em muitos filmes posteriores.

  5. Zé Neto disse:

    (Comentário com spoilers)
    Na verdade, ela escapou do mundo dos mortos ( embora ela esteja inconsciente disso). Quando ela chegou em uma cidade onde havia um parque mal assombrado, seus fantasmas a reconheceram e passam a tentar leva-la de volta ao mundo dos mortos. Por isso, as pegadas desaparecem subitamente da areia do parque. Aquele é o momento que ela foi levada de volta. E o final é a prova que fisicamente ela ainda estava no carro.

  6. Igua disse:

    Esse filme é lindo! Muito bem feito, bem escrito, bem executado… altamente recomendável mesmo!

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