161 – Demência 13 (1963)

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Dementia 13


1963 / EUA / P&B / 75 min / Direção: Francis Ford Copolla / Roteiro: Francis Ford Copolla / Produção: Roger Corman, Marianne Wood (Produtora Associada) / Elenco: William Campbell, Luana Anders, Bart Patton, Mary Mitchel, Patrick Magee


Demência 13 já vale simplesmente pelo fato histórico de ser o primeiro filme dirigido por Francis Ford Copolla. O diretor responsável pela trilogia O Poderoso Chefão, Apocalipse Now e Drácula de Bram Stoker, começou sua carreira dirigindo um filme B, preto e branco, plágio de Psicose, sob a batuta de Roger Corman, quem diria.

E ao bem dizer, Demência 13 é quase um filme slasher. Tem lá seu assassino impiedoso com um machado que persegue suas vítimas em um castelo irlandês que vive rodeado por um bosque sinistro e um lago, local onde se afogou Kathleen, a caçula dos Haloran, família esta que entrou em frangalhos após sua morte acidental, com a mãe vivendo em um estado de luto permanente e desequilíbrio emocional, fazendo com que reúna a família nos últimos sete anos no dia do aniversário da morte da filha, para que seja realizada a mesma celebração fúnebre em memória de Kathlenn, ano após ano.

Francis Copolla, como assina o longa metragem ainda sem o Ford, tenta imprimir um clima de mistério misturado com assassinatos impiedosos, nesta tentativa da American International Pictures em pegar carona no sucesso de Psicose, no intuito de copiar o estilo Hitchcock de fazer suspense. Falha miseravelmente neste quesito. Talvez pela ainda falta de experiência do novato diretor, ou pelo roteiro confuso, abrupto e óbvio (sabemos quem é o assassino antes da metade do filme, apesar do desenvolvimento da história tentar debilmente nos enganar).

Mas se deixar um pouco de lado o exercício de cinema aqui, ainda mais sabendo o que Copolla se tornaria no decorrer de sua carreira, podemos colocar Demência 13 em uma caixinha fechada do gênero terror, por isso tomo a liberdade de classificá-lo como além de um thriller, uma gênese dos slasher movies, até por ele contar com uma certa violência gráfica acentuada, seguindo todos os padrões dos filmes B de época, ainda mais tendo Corman envolvido no projeto. Veremos machadadas, cabeças sendo decepadas, sangue falso, insanidade e claro, demência.

Medo demente

Medo demente

Mas os dois principais problemas de Demência 13 são a sua metragem curtíssima, que faz as coisas se acelerarem no final para uma conclusão frustrante, aliado a um sério problema de montagem com takes desnecessários e por vezes desconexos, auxiliado pela lúgubre fotografia preto e branca e trilha sonora nefasta, e o arrastar do primeiro ato, onde uma história de ganância inescrupulosa passa abruptamente para um enredo de um psicopata que ronda o castelo Haloran, provável vítima de toda a carga psicológica que atinge aquela família disfuncional.

Somos apresentados aos Haloran através da megera Louise, vivida por Luana Anders, casada com John, pau mandando com problemas cardíacos, que ficaria de fora de grande parte da herança da família, algo que Louise simplesmente não consegue engolir. Em um passeio de barco, logo nos primeiros minutos do filme, John teve um infarto e morre de forma súbita. Louise então maquina um plano maligno, jogando o corpo do marido no rio, se livrando de suas roupas e pertences, inventando uma falsa viagem urgente de negócios a Nova York, na tentativa de se infiltrar na família durante a fúnebre cerimônia da morte de Kathleen e tentar manipular a convalescente sogra a lhe dar uma boa participação em seu testamento.

Lá, somos apresentados a Sra. Haloran (Ethne Dunn), e aos seus outros dois filhos, o irritado artista plástico Richard (William Campbell), noivo de Kane e o sensível e culpado Billy, que brincava com a pequena Kathleen no dia em que ela se afogou. Também vamos conhecer o médico da família, Dr. Caleb, que tem um jeito pouco ortodoxo e desconfia de tudo e todos, fazendo as vezes do detetive da história.

Tentando manipular a frágil Sra. Haloran alegando ver o espírito da pequena Kathleen vagando nos corredores, tentando se comunicar com a mãe (o que dá um caráter sobrenatural não consumado no enredo), Louise acaba sendo a primeira vítima do misterioso assassino, enquanto levava alguns brinquedos roubados do quarto da garota para o lago, para que eles emergissem e ajudassem a confundir ainda mais a velha senhora. Ela sofre violentos golpes de machado, e depois no terceiro ato vamos encontrar seu corpo, supostamente desaparecido, pendurado, todo ensanguentado, exatamente como veremos nos filmes slasher no futuro, quando os corpos da vítimas começam a ser encontrados próximos ao seu final.

Cuidados especiais da nora

Melhor nem ver…

Ainda haverá mais uma vítima, enquanto a saúde mental da Sra. Haloran vai piorando, os ataques de raiva de Richard tornam-se cada vez mais comuns e Billy vai desabando emocionalmente, principalmente em uma cena muito bem construída e filmada por Coppola, onde ele revela um terrível sonho recorrente que tem desde a morte da irmã mais nova. O final do filme, apressado e óbvio, revela a identidade do assassino, que como disse lá em cima, já era bastante factível.

Copolla escorrega em fazer a sua versão de Psicose, mesmo tentando manter um mesmo tipo de estrutura narrativa que Hitchcock imprimiu em sua obra prima. O MacGuffin aqui em Demência 13 é o testamento, que faz o mesmo papel da mala de dinheiro roubada por Marion Crane. O filme até sua metade dá a impressão que vai seguir essa trama de suspense, com a inescrupulosa nora ludibriando a sogra e tentando jogar a família entre si para conseguir ficar com a grana, mas Copolla, tal qual Hitchcock, subverte a ordem natural da história e mata a personagem principal, jogando luz sobre um outro argumento, envolvendo um assassino psicopata, aí sim escancarando o porquê do substantivo demência no título. E claro, revelado o vilão, nitidamente podemos encontrar diversas semelhanças psicológicas com o atormentado Norman Bates.

Eu nunca fui muito a favor de remakes, mas eu acredito que Demência 13 é um filme que mereceria uma nova versão. Refilmada em cores, com maior orçamento, qualidade técnica e metragem. Seria lindo se o próprio Copolla fizesse isso, da forma como agora já domina a sétima arte, mas é algo impossível claro. Porque todas as ideias estão ali, o clima sinistro, a tensão, o suspense, o assassino enfurecido empunhando seu machado e a trilha sonora macabra de Ronald Stein. Só que infelizmente não funciona tão bem como deveria. O grande erro foi tentar se Hitchcock, algo extremamente pretensioso para um diretor estreante e para o lendário Roger Corman.

Quase...

Quase…


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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Pensador Louco disse:

    Muito bom! O filme de um Coppola iniciante e plenamente inspirado em Hitchcock! Tem seu amadorismo aqui e ali, mas ainda assim excelente filme de suspense! 8)

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