163 – Drácula, o Vampiro do Sexo (1963)

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La frusta e il corpo / The Whip and the Body


1963 / Itália, França / 91 min / Direção: Mario Bava / Roteiro: Ernesto Gastaldi, Ugo Guerra, Luciano Martino / Produção: Frederico Magnaghi, Ferdinando Baldi (Produtor Associado), Elio Scardamaglia (Supervisor de Produção) / Elenco: Daliah Lavi, Christopher Lee, Tony Kendall, Ida Galli, Harriet Medin


Duas constatações permanentes e inegáveis vem à tona ao publicar este post: Primeiro, Mario Bava era um GÊNIO. Segundo, como os títulos de filmes no Brasil são uma piada. Drácula, O Vampiro do Sexo????? Mas que diabos é isso? Obviamente foi uma ridícula solução mercadológica para aproveitar Christopher Lee no elenco. Mas o que tem a ver? A fita não tem absolutamente ligação nenhuma com Drácula e com vampiros. Certo, há um enorme teor sexual por conta da uma personagem safada SM que gosta de levar chicotada. Mas até aí…

Na verdade, o lance da chicotada vem sim do título original do filme, La frusta e il corpo, onde a tradução literal seria O Chicote e o Corpo (que também é o título internacional do filme, The Whip and the Body – e como foi relançado em DVD na Coleção Obras-Primas do Terror da Versátil). Para pirorar, há também um título alternativo aqui no Brasil de O Vampiro e o Sexo. Quase a mesma palhaçada. Importante é que isso não desmereça essa obra prima e muito menos, afaste-o dela, caro leitor.

A opulência visual, o esmero de Mario Bava no uso das cores e da iluminação para criar uma atmosfera gótica de terror é inigualável. Toda sua preocupação com a obtenção do clima perfeito, auxiliada pela fotografia (aqui crédito para Ubaldo Tezano com um dedo de Bava), a ambientação de época, a trilha sonora de Carlo Rustichelli (com seu piano chorando desde os créditos de abertura), e os ângulos e movimentos de câmera utilizados pelo maestro do macabro, fazem de Drácula, O Vampiro do Sexo (argh!!! Odeio escrever este título) um dos melhores filmes do diretor italiano.

A trama sobrenatural, com requintes de luxúria e paixão gótica, traz um Christopher Lee simplesmente incrível. Amoral, sinistro, arrogante, sua simples presença na tela e suas poucas falas (mesmo que dubladas) são o suficientes para colocar o personagem Kurt Menliff no hall da fama dos melhores vilões que Lee representou em sua gigantesca carreira. Maligno, ele é um filho pródigo que retorna à residência dos Menliff com o intuito falso de parabenizar seu irmão, Christian (Tony Kendall) pelo casamento com a bela Nevenka (interpretada pela palestina Daliah Lavi) e pedir perdão ao seu pai.

Você sempre amou a violência

Você sempre adorou a violência

Na verdade, Kurt havia sido escorraçado da família, e o motivo que todos nutrem esse ódio por ele, é por conta de ter tido um caso com uma das criadas do castelo, que a levou ao suicídio. Por conta da infâmia, Kurt se afastou, foi deserdado pelo seu pai, o Conde Menliff e deixou na mãe da moça, Gioriga, aquele gostinho amargo de vingança na boca (a mulher guarda até hoje o punhal que a filha usou para se matar, guardado dentro de uma redoma de vidro), assim como sua outra filha, Katia.

Só que como todo bom filme de Bava, o que importa mesmo está nas entrelinhas, e a trama vai mais uma vez escancarar algo corriqueiro na obra do diretor: a decadência da instituição familiar. Relações bizarras entre todos os membros da família Menliff e a criadagem saltam aos olhos. Casamentos de interesses, paixões arrebatadoras não consumadas, adultério, mesquinharia, e claro, relacionamentos sadomasoquistas bizarros (ainda vou chegar lá). Novamente, os títulos de Conde e o dinheiro, que talvez fosse abundante outrora, levam os Menliff a um espiral de desgraça e baixeza, o que se completa na figura escrota de Kurt, que pode tanto ser produto do meio quanto vice-versa, representando toda a degeneração daquela casa.

Pois bem, o filme deixa o espectador boquiaberto quando em um idílico passeio de cavalo pela encosta, Nevenka é abordada por Kurt, e aí descobrimos então o caso dos dois e a paixão não consumada. Vale lembrar aqui que Nevenka está preste a se casar com o irmão de Kurt, Michael, casório imposto pelo enfermo Conde Menliff, sendo que na real, Michael gosta mesmo é da empregada Katia (os Menliff tinham uma queda pelas serviçais do seu castelo, pelo jeito). Pronto, estabelecido o dramalhão mexicano, é hora da violência e do medo entrarem em cena. Kurt começa a relembrar dos bons e velhos tempos, e diz em uma das frases mais emblemáticas do longa (quiça da carreira do ator): “Você não mudou. Você sempre adorou violência”, e tome chicotada na garota, que ao mesmo tempo que se contorce de dor, se contorce de prazer com seu êxtase fetichista.

E isso meu amigo, estamos falando do ano de 1963. Claro que Bava seria tachado de um velhinho pervertido e o filme, criado especialmente para tentar faturar alguma grana no mercado internacional (vide todos os realizadores com seus nomes americanizados. Até Bava dirigiu a fita sob o pseudônimo de John M. Old), seria brutalmente mutilado pela censura, com todas as cenas de violência sadomasoquista (que aconteceriam de novo mais algumas vezes até seu término), chegando a ficar inteligível. A versão uncut do diretor só foi lançada, de forma restaurada, muitos anos mais tarde, graças aos esforços de Tim Lucas e Joe Dante.

Bate que eu gamo!

Bate que eu gamo!

OK, Nevenka some e não volta para casa naquela noite após levar a surra de chicote. A moça é encontrada horas mais tarde na praia e enquanto isso, Kurt é misteriosamente assassinado em seu quarto, com um punhal atravessado em sua garganta. Após o mesmo ser sepultado e ficar aquele clima de suspense sem resolução, ao melhor estilo Agatha Christie, de quem teria sido o responsável pela morte do salafrário (afinal todos teriam um bom motivo para isso), é que então Bava dá outro giro de 360º na trama e coloca elementos sobrenaturais assustadores em ação. Kurt está realmente morto? Ou seu espírito zombeteiro volta do além túmulo para continuar matando e desprezando a família, e obviamente, abusando da dissimulada Nevenka, que apesar de gritar a todo pulmão que odeia Kurt, está adorando levar mais chicotadas do “fantasma” do falecido.

Como no segmento Wurdulak de As Três Máscaras do Terror ou posteriormente no clássico Mata, Bebê, Mata!, Bava mais uma vez faz juz ao apelido de maestro, e dá início a uma experiência realmente assustadora, uma pintura macabra e terrível em movimento, com closes do rosto diabólico de Kurt surgindo da penumbra, filmado com uma saturação de cores vermelhas e azuis jogadas sobre ele, ou apenas a sua mão destacando-se em primeiro plano vinda da escuridão, junto de todo o misé-en-scene habitual do gênero, com seus gemidos fantasmagóricos, trilha sonora pesada e fúnebre, passos no corredor, marcas de pegadas misteriosas, cortinas esvoaçantes sob o uivo do vento, susussuros na escuridão e o interessantíssimo uso dos efeitos sonoros do chicote apavorando a atormentada e libidinosa Nevenka, que vai sendo aos poucos, conduzidas às raias da loucura.

Sem SPOILERS por aqui, mas a reviravolta do final do filme, com sua conclusão recheada de contornos psicológicos devassos, é imensamente satisfatória ao resto dessa obra acima da média do terror gótico dos anos 60. É de ficar grudado na cadeira, querendo ser assustado e surpreendido, deixando-se levar pela incrível mão de Bava para contar uma história, deslumbrado com a capacidade do diretor em entorpecer nossos olhos e sentidos.

É uma punhetação a Bava eu sei, mas é impossível escrever textos sem paixão ao falar do diretor italiano, que é o meu preferido do gênero em disparada. Drácula, O Vampiro do Sexo é mais uma daquelas experiências cinematográficas regojizantes. E a dica mesmo é procurar a versão uncut por aí na Internet, com o áudio original italiano (mesmo vendo um spaghetti Christoper Lee falando) para não se deparar com a censuradíssima versão original americana ou mesmo a europeia que existem por aí.

Marcas da paixão

Marcas da paixão



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] que vire e mexe aparece escancarado em suas obras, como em Seis Mulheres para o Assassino, Drácula, o Vampiro do Sexo e A Mansão da […]

  2. Mathias disse:

    Cara, muito obrigado!!!
    Seu trabalho com o blog é ótimo.
    Não me lembro da última vez em que procurei por um filme de horror que não o encontrasse aqui. Isso sem contar as inúmeras “dicas”.

  3. Cian disse:

    Caramba, cheguei aqui com o intuito de zoar e expressar minha indignidade perante tal título ridículo quando bem sabemos que “o vampiro do sexo” é o absolutamente sedutor Nosferatu e… e me deparo com uma obra do Mario Bava, é isso mesmo?!
    Não sei se rio ou choro defronte ao fato do qual todos estamos carecas de saber, de que os retardados que escolhem os títulos de TUDO o que vem para o Brasil têm sérias desestruturas mentais!
    Excelente crítica, estou inclusive procurando um torrent para poder assistir ao filme. Obrigado.

  4. Eduardo disse:

    Esse filme é perfeito em todos os quesitos fotografia , som e roteiro … nesse filme Mario Bava ganha disparado do Terence Fisher que trabalhava com a produtora Hammer … são dois diretores muito Fds em questão de Terror Clássico…. e Christopher Lee esta mais perverso possível … o Rasputim 1966 que eu achava um dos vilões mais fd que ele atuou… mas esse é melhor … deixando um pedido/sugestão informações sobre o filme de 1967 The Torture Chamber Of Dr. Sadism … não acho nada deste filme … será que tem em DVD ? … Valeu … Esse Blog aqui é muito bom !!!

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