170 – A Dama Enjaulada (1964)

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Lady in a Cage


1964 / EUA / P&B / 94 min / Direção: Walter Grauman / Roteiro: Luther Davis / Produção: Luther Davis / Elenco: Olivia de Havilland, James Caan, Jennifer Billingsley, Rafael Campos, William Swan, Jeff Corey, Ann Sothern


Se A Dama Enjaulada fosse lançado dez anos depois, com certeza seria um filme exploitation: violento, sádico, recheado de requintes de crueldade e tortura física. Mas como foi lançado em meio a inocência ainda presente nos meados dos anos 60, não deixa de ser violento, sádico e com requintes de crueldade, mas de uma forma bem mais atenuada e mais centrado na tortura psicológica.

Após O Que Terá Acontecido com Baby Jane? ter ressuscitado a carreira de Bette Davis e Joan Crawford no cinema, todas essas velhas senhoras oscarizadas enfrentando a decadência encontraram no terror/ suspense uma forma de tentar recuperar suas carreiras. Então surgiu o subgênero psycho-biddie, estrelado por mulheres maduras, na maioria das vezes mentalmente instáveis, colocadas em situação de perigo. Além de Baby Jane, os três principais exemplares do gênero foram lançados no mesmo ano, 1964: Almas Mortas de William Castle, com Joan Crawford no elenco; Com a Maldade da Alma, de Richard Aldrich, mesmo diretor de Baby Jane, com Bette Davis e Olivia de Havilland e A Dama Enjaulada, que de longe, é o melhor de todos eles.

A duas vezes ganhadora do Oscar®, Olivia de Havilland, também protagoniza esta película, execrada pela crítica devido a sua violência e “mau gosto” e tendo até sido banida na Inglaterra, que depois ganharia o status de uma das mais importantes obras do suspense, que com certeza influenciaria uma penca de produções futuras (ao ver o filme conseguiu me vir na cabeça facilmente Aniversário Macabro de Wes Craven e Violência Gratuita de Michael Haneke, por exemplo). Engraçado essa crítica conservadora, né?. Na Internet, por exemplo, encontrei uma resenha do filme escrita pelo crítico coxinha-mor, o insuportável Rubens Ewald Filho, que dá até asco de ler.

A Dama Enjaulada merece ser respeitado, pois é uma baita filme de suspense, daqueles de incomodar desde sua abertura esquizofrênica, e jogar na nossa cara a maldade e baixeza humana. O fio condutor do longa escrito por Luther Davis é extremamente simples e muito bem executado: a Sra. Cornelia Hilyard (de Havilland) é uma velha viúva, que sofreu um acidente que atingiu seus quadris e a deixou debilitada, e fica presa durante uma queda de energia em um elevador pessoal que usava para se locomover até o andar de cima de sua casa.

"Teje presa˜

“Teje presa˜

Seu filho, nitidamente infeliz rapaz de seus 30 anos, mimado, que vive sob a sombra da mãe chantagista e super protetora, vai viajar no feriado de 4 de julho, quando o incidente acontece deixando a mãe presa no elevador durante todo o quente final de semana até a próxima terça-feira. Desesperadamente tocando a campainha de emergência do elevador, nenhum transeunte dá a menor bola para o barulho, apenas um mendigo alcoólatra, George L. Brady Jr. (Jeff Corey) que vê a oportunidade de conseguir uma grana roubando os pertences da casa sem defesa, e vendê-las em uma loja de penhores para lá de escusa, além das garrafas de vinho para uso pessoal.

O mendigo pede ajuda para uma prostituta velha e decadente, Sade (Ann Sothern, outrora grande estrela da MGM) para fazer a rapa na residência da Sra. Hilyard, mas chama a atenção de uma gangue de três criminosos psicóticos, que resolvem pilhar a casa toda para eles (como é o ditado? Ladrão que rouba ladrão…), e torturar tanto fisicamente o mendigo e a prostituta, quando psicologicamente a velha viúva presa em sua jaula. Detalhe para o líder da gangue, Randall Simpson O’Connel, primeiro papel do cinema de um jovem James Caan, futuramente indicado ao Oscar® e ao Globo de Ouro por O Poderoso Chefão, e que depois iria sentir na pele como é ser inválido e ameaçado em Louca Obsessão.

O que se segue então é o máximo da crueldade para a época, com os três delinquentes tocando o terror com a velha e os outros dois pobres diabos, chegando até seu clímax tenso e insuportável, que irá resultar em morte e na bombástica revelação da carta deixada por Malcom Hilyard para sua mãe pouco antes de viajar, que dará um ar chocante à trama e inflamará a busca por sobrevivência da Sra. Hilyard, na tentativa de se livrar daquela situação e enfrentar os marginais. Os trinta minutos finais do filme são impactantes e incríveis.

Outro personagem para ficar ligado, só por curiosidade é no assistente do dono da loja de penhores, interpretado por Scatman Crothers, nome inesquecível, que logo lembramos de seu papel como Dick Halloran em O Iluminado de Stanley Kubrick. O diretor Walter Grauman, mais conhecido pelo seu trabalho em telefilmes e diversas séries de TV como Assassinato por Escrito, Columbo, Os Intocáveis e V – A Batalha Final, faz um filme coeso, com um bom ritmo, bem dirigido e com alguns enquadramentos e close ups inusitados. O roteiro vez por outra fica enfadonho, principalmente nos solilóquios de Olivia presa sozinha no elevador. Quanto a sua atuação em A Dama Enjaulada, está exagerada, como se deve ser em um filme com um teor destes, porém sempre competente. Já a violência contida e a falta de apreço pelo ser humano, hoje pode ser risível para o público, perto de tanta bizarrice que já vimos dentro e fora das telas, mas para a época, como disse anteriormente, causou bastante choque.

Turma do mal

Turma do mal


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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] filmes deste gênero estão: Almas Mortas, de William Castle, com a própria Joan Crawford, A Dama Enjaulada, com Olivia de Havilland e Com a Maldade na Alma, também dirigido por Robert Aldrich, este com […]

  2. Raphael Travassos disse:

    Não conhecia esse. Vou atrás agora mesmo! E parabéns pelo serviço prestado aos fãs de horror.

    P.S: Rubens Ewald Filho é, na melhor das hipóteses, um imbecil.

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