172 – A Górgona (1964)

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The Gorgon


1964 / Reino Unido / 83 min / Direção: Terence Fisher / Roteiro: John Gilling (baseado na história de J. Llewellyn Devine) / Produção: Anthony Nelson Keys / Elenco: Christopher Lee, Peter Cushing, Richard Pasco, Barbara Shelley, Michael Goodlife


A Górgona é um dos clássicos da Hammer em sua gloriosa filmografia. Depois de ter acertando com outros monstros como Drácula, Frankenstein e a Múmia, agora a ideia era a transposição da criatura da mitologia grega para a Alemanha do começo do século XX.

Tendo a famosa dupla dinâmica Christopher Lee e Peter Cushing contracenando juntos, agora com papeis invertidos, já que Lee era o mocinho e Cushing o bandido, mais uma vez a direção ficou a cargo do competente Terence Fisher, a trilha sonora com James Bernard e a produção de Anthony Nelson Keys. Ou seja, pacotão Hammer completo. A única derrapada foi da maquiagem da górgona feita por Roy Ashton, que sempre vinha acertando nas produções anteriores do estúdio britânico, e desta vez ficou lastimável.

O próprio Christopher Lee disse: “A única coisa errada em A Górgona, é a própria górgona”. E é a mais pura verdade, porque o filme funciona muito bem: os efeitos especiais das pessoas se transformando em pedra ao encararem a besta mitológica; a química Lee/ Cushing; o suspense do roteiro. Tudo certinho. Mas no terceiro ato quando a monstra aparece, com suas cobrinhas falsas controladas por arames e quando sua cabeça é cortada fora e rola escada abaixo, é simplesmente sofrível.

Na verdade a atriz Barbara Shelley, que fez o papel de Carla Hoffman, garota “possuída” pelo espírito da górgona do filme propôs a Keys que ela mesmo fizesse a criatura, até pelo bem da continuidade do filme, e ainda sugeriu usar uma peruca especial com cobras vivas para um efeito mais realista. Sua ideia foi rejeitada por problemas de tempo e orçamento. A atriz Prudence Hyman acabou interpretando o monstro (e quase foi decapitada de verdade por Lee, salva no ato pelo diretor assistente que a empurrou, pois a tonta havia esquecido de se abaixar no momento certo, substituída depois por uma boneca) e quando Keys viu o resultado final com os efeitos pavorosos e a cabeça do manequim feia de doer, se arrependeu amargamente e disse à Shelley que deveria ter seguido sua sugestão.

Dupla dinâmica

Dupla dinâmica

Momento enciclopédia: a górgona é uma criatura da mitologia grega, que possuía cobras na cabeça e o poder de transformar em pedra quem olhasse para ela diretamente. Existiam três górgonas, as irmãs Medusa, Esteno e Euriale. Só que no filme da Hammer, a liberdade poética falou mais alto (até demais) e o monstro do filme é chamado de Megera, que na mitologia, é na verdade uma das três Erínias (ou Fúrias na mitologia romana), que personifica o rancor, a inveja, a cobiça e o ciúme, e não uma das górgonas. Vai entender o que se passa na cabeça dos roteiristas.

Enfim, acontece que esse monstro milenar, supostamente desaparecido há dois mil anos, está aterrorizando o povoado de Vardoff nos últimos cinco, assassinando pessoas misteriosamente em cada segundo ciclo da lua cheia. As vítimas obviamente são encontradas petrificadas. Quando a filha de um estalajadeiro é encontrada neste estado e seu noivo enforcado, o pai do noivo, o professor Jules Heitz vai até a cidade para tentar inocentar o nome do filho e tentar descobrir o que realmente aconteceu, já que todo o vilarejo, liderado pelo Dr. Namaroff (Cushing), parece participar de um complô para esconder a verdade.

Heitz fatidicamente encontra com a Megera e antes de ser totalmente transformado em pedra, envia uma carta para seu outro filho, Paul (Richard Pasco) pupilo do Prof. Karl Meister (Lee) na universidade de Leipzig. Paul e Meister vão até Vardoff para prosseguir a investigação e são mal tratados pelos locais, exceto por Carla, enfermeira assistente de Namaroff, que se apaixona por Paul e a recíproca é verdadeira. Mas Carla guarda um terrível segredo, e Namaroff, que ama platonicamente a bela moça, fará de tudo para mantê-lo escondido, gerando um confronto inevitável com os dois forasteiros.

A Górgona é um filme da Hammer. Ponto. Dizer isso instintivamente fará com que você logo visualize a ambientação de época, os costumes, os dois nobres senhores Lee e Cushing desferindo diálogos afiados, trilha sonora contundente e tudo mais. Infelizmente a criatura que dá título ao filme estraga a fita em seu final, pois ele tenta se manter sério e crível na medida do possível em quase todos os seus 83 minutos de duração. Mas não deixe se abater pelas críticas à maquiagem, porque ainda assim é divertido ver a podreira do resultado final, porque sabe como é, lá no fundo, a gente gosta disso. E muito.

Não olhe diretamente para esta foto!

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Assista ao episódio do videocast do 101 Horror Movies comentando A Górgona:



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] o texto parafraseando a opinião de Christopher Lee sobre A Górgona, porém aplicado a este filme: O único problema de A Serpente, é a própria serpente. Isso porque […]

  2. Otavio Gomes Filho disse:

    Eu acho que o filme tem pelo menos duas falhas no roteiro:

    PRIMEIIRA: Já no início do filme a filha do estalajadeiro conta ao namorado que está grávida. O rapaz sai de casa na hora dizendo que vai até o pai da moça conversar sobre isso com ele. Nem a moça nem o rapaz chegam em lugar nenhum. O rapaz aparece enforcado e a moça topa com a górgona. Em seguida temos todo mundo prestando depoimento à um juiz ou espécie de delegado. TODOS SABEM QUE A MOÇA ESTAVA GRÁVIDA..Como ?
    Poderia até se dizer: pela autópsia.Mas dai pergunto: COMO SE FAZ AUTÓPSIA EM UMA ESTÁTUA ?

    SEGUNDA: Não se explica o enforcamento do rapaz. Se matou ? Ou a Górgona enforcou o moço ?

  3. […] literal do original) segue a mesma máxima que o grande Christopher Lee usou para descrever o filme A Górgona, da Hammer: O maior problema de A Hora do Lobisomem é o […]

  4. […] Leia a minha resenha sobre A Górgona aqui. […]

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