174 – Maníacos (1964)

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Two Thousand Maniacs!


1964 / EUA / 87 min / Direção: Herschell Gordon Lewis / Roteiro: Herschell Gordon Lewis / Produção: David F. Friedman / Elenco: Connie Mason, William Kerwin, Jeffrey Allen, Ben Moore, Gary Bakeman


O diretor Herschell Gordon Lewis é um daqueles sujeitos xaropes e transgressores, e graças a ele, o cinema de terror deu um passo a mais na transformação para um gênero sangrento, impiedoso e violento, que viria a moldar o que seria o gore e qual seu impacto em futuras produções. Maníacos é um filme retardado, divisor de águas do gênero, ainda mais por ter sido feito na década de 60.

Só para contextualizar, sabemos que foi a partir dos anos 70 e da Guerra do Vietnã que os filmes de terror adquiriram um tom sádico, pessimista e explícito, graças a produções como Aniversário Macabro e O Massacre da Serra Elétrica, além do ciclo splatter italiano e mesmo o giallo. Na década de 60, o que víamos eram os filmes da Hammer e as produções de Roger Corman baseado nos contos de Edgar Allan Poe. Se alguém quisesse fazer algo mais, digamos, violento ou contestador naquela época, tomava um pau da crítica e público, como Psicose de Alfred Hitchcock, A Tortura do Medo de Michael Powell ou Os Olhos sem Rosto de Georges Franju.

Eis que surge Herschell Gordon Lewis em 1963 e lança o seminal gore Banquete de Sangue, uma podreira sem tamanho, com uma história ridícula e atores de quinta categoria, mas que era de um choque tremendo por suas cenas de mutilação, sangue à rodo, vísceras expostas e ideias de servir pedaços humanos em um bufê para uma deusa egípcia. Dando ênfase à violência gráfica ao invés do conteúdo e da técnica, H.G. Lewis assim criou o gore. No ano seguinte, ele faria sua, hã… obra prima e mais famoso filme, Maníacos.

O absurdo já começa com o teor da história. Seis viajantes são propositalmente obrigados a desviar o caminho de uma estrada e vão parar em uma cidadezinha sulista chamada Pleasant Valley, população duas mil pessoas (maníacas, segundo o título original), que é composta por rednecks tresloucados que querem comemorar o centenário da cidade. Mas não é o centenário de fundação não. É o centenário da destruição, quando os yankees invadiram o local durante a Guerra Civil Americana e mataram todo mundo por lá.

Malditos yankees!

Malditos yankees!

Claro que os seis desafortunados não sabem nada disso, e acreditam serem mesmo os convidados de honra do prefeito Buckman e parte de uma celebração. Exceto o professor Tom White e a jovem Terry Adams (ambos já haviam “atuado” em Banquete de Sangue). O que se segue é uma cidade inteira de confederados sedenta de vingança contra os viajantes do norte, colocando-os em jogos sangrentos dos mais bizarros, como rolar dentro de um barril cheio de pregos, ficar a mercê de uma pedra gigante que pode cair sobre sua cabeça quando o alvo é acertado por uma bola de tênis ou ter os membros amarrados em quatro cavalos diferentes para ser estraçalhado. Isso sem contar a primeira moça que é esquartejada e servida em um churrasco. E para piorar, ou melhorar, Lewis imprime uma ideia sobrenatural de cidade fantasma no final do filme.

O engraçado, ou trágico, ou sei lá, é que Maníacos é muito mais contido em violência do que seu predecessor, Banquete de Sangue. As cenas são fortes, mas não são tão explícitas quanto o filme anterior de Lewis (ou outros posteriores, vide o apelável The Wizard of Gore). Talvez para abrandar a censura. E nota-se, por incrível que pareça, um certo avanço técnico também, se é que podemos chamar de avanço técnico, principalmente no uso maior de figurantes e de recursos narrativos.

O filme é ruim de doer, mas é aquele tipo de diversão sem precedentes, onde o baixo orçamento, as atuações toscas, a edição precária, trilha sonora bisonha, roteiro esdrúxulo sem razão de ser e as técnicas de filmagem são tão infelizes, que o filme torna-se essencial e garante boas risadas, com direito a muito sangue, violência, banalização da vida humana e dos valores da sociedade, e claro, humor. Tanto que suas exibições nos drive-in fizeram bastante sucesso e elevaram-no ao status de cult, ganhando até uma refilmagem em 2005, chamada de 2001 Maníacos, com Robert Englund, o eterno Freddy Krueger, fazendo o papel do prefeito Buckman.

O sul irá se erguer novamente!

O sul irá se erguer novamente!


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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Já havia assistido Banquete de Sangue num festival de cinema ruim no Rio, em 1992. Ele é realmente sofrível de péssimo. mas nunca tinha tido a chance de assistir este. Muito obrigado por compartilharem, já posso sentir meu cérebro escorrendo. 8)

  2. […] E completa sua famosa Trilogia de Sangue, que havia começado com Banquete de Sangue e seguido por Maníacos. Trilogia essa que trouxe definitivamente sangue, tripas, vísceras e humor negro mordaz para o […]

  3. Ueslei Pereira disse:

    Cara, muito bom post, aliás muitos bons posts por aqui, eu pesquiso filmes Gore em Analise do Discurso e este filme é justamente meu objeto de pesquisa no momento.

  4. […] de sangue de Herschell Gordon Lewis, o pai do gore, em sua Trilogia de Sangue (Banquete de Sangue, Maníacos e Color Me Blood Red), a hecatombe zumbi canibal de George Romero em A Noite dos Mortos-Vivos e o […]

  5. […] pelo próprio anteriormente na sua famosa Trilogia de Sangue, que consiste de: Banquete de Sangue, Maníacos e Color Me Blood […]

  6. Guilherme disse:

    Marcos, quando você tiver um tempinho, teria como você fazer o upload de novo? É que já expirou o prazo para fazer download.

    Um abraço!

    Guilherme

  7. Guilherme disse:

    Muito obrigado, Marcos.

    Abraço!

    Guilherme

  8. Cristiano disse:

    Por que Maniacos em vez de 2000 maniacos?

    • Hey, Cristiano. Desculpe pela demora pela resposta. Voltando de férias do blog agora.

      Pergunte para quem traduziu o título no Brasil. Porque aqui ficou só como Maníacos! 😛

      Abs

      Marcos

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