175 – À Meia Noite Levarei Sua Alma (1964)


1964 / Brasil / P&B / 84 min / Direção: José Mojica Marins / Roteiro: José Mojica Marins / Produção: Arildo Iruam, Geraldo Martins, Ilídio Martins / Elenco: José Mojica Marins, Magda Mei, Nivaldo de Lima, Valeria Vasquez


Por uma coincidência do destino, eis que o post de uma véspera de feriado religioso (Corpus Christi) é do maior nome do cinema de terror no Brasil: José Mojica Marins. O pioneiro e desbravador diretor do gênero fantástico no país, nos apresentou pela primeira vez em À Meia Noite Levarei Sua Alma, seu mais famoso personagem: Zé do Caixão.

O cruel e sádico coveiro nasceu de um pesadelo que Mojica teve certa noite, quando sonhou que uma figura de capa preta e cartola o perseguia, até ser arrastado em direção ao seu próprio túmulo, onde estava gravado seu nome e a data de sua morte. Mojica acordou apavorado e com a ideia do personagem que se tornaria sua marca registrada.

O cineasta já tinha 27 anos e vários filmes em seu currículo, todos devidamente ignorados por público, crítica e distribuidores, quando em 1963, resolveu juntar os alunos de sua escola de atuação, pegou emprestado móveis, objetos cenográficos, construiu túmulos de papelão, roubou arbustos do Largo do Arouche em São Paulo para fazer uma floresta cenográfica e em um estúdio de 20 metros quadrados, rodou a maioria das cenas do maior clássico do cinema de horror nacional.

Primeiro capítulo da trilogia que incluiria Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967) e A Encarnação do Demônio (2008), narra a busca insana do coveiro Zé do Caixão em gerar um filho e perpetuar o seu sangue. Sua esposa é estéril e ele acredita que a namorada de seu melhor amigo seja a mulher ideal para lhe gerar a prole, e não mede esforços para atender suas necessidades, matando a própria esposa, o amigo e estuprando a jovem, que acaba por se suicidar. Mas antes, de se matar, ela roga uma praga que à meia-noite, mesmo horário que o noivo foi enterrado, ela voltará para puxar o pé do coveiro.

A maldição de hoje, praticamente….

Algumas passagens do filme são simplesmente sensacionais, já que Zé adora aloprar com crendices populares esdrúxulas tipicamente brasileiras. Por exemplo logo no começo do filme, ele quer a todo custo comer carne na Sexta-Feira Santa e troca o seguinte diálogo com a esposa:

–       Hoje eu como carne de qualquer jeito, nem que seja humana.

–       Cuidado Zé, o diabo tenta.

–       Se eu o encontrar, vou chamá-lo para jantar em casa

Sensacional, não é? E logo mostra na cena seguinte Zé se lambuzando com uma coxa de cordeiro enquanto a procissão passa ao seu lado. O Dia de Finados também não passa batido da zombaria do coveiro, desdenhando do dito popular de que quem sair à noite no dia 2 de novembro pode correr o risco de ver a procissão dos mortos. Fora isso, ele comete todo tipo de blasfêmia possível, como pegar o dinheiro e a cachaça deixada em uma macumba na encruzilhada, profanar o sono dos mortos no cemitério e negar-se a acreditar na religião, que segundo ele, é uma força criada pela ignorância.

Agora imagine esse filme sendo lançado em novembro de 1964, no começo do governo militar, em um país carola e quadrado como o Brasil? Claro que foi exibido em pouquíssimas salas e gerou um enorme bate-boca com os católicos que queriam de qualquer jeito boicotar o lançamento do filme. Na verdade, o próprio brasileiro sempre renegou o cinema transgressor de Mojica, que só foi ser reconhecido fora do país, quando fez um baita sucesso nos EUA, ao ter suas fitas lançadas por lá nos anos 90, sob o codinome de Coffin’ Joe. Hoje sua importância para o cinema nacional é inegável. Fora que ele foi o apresentador do Cine Trash, que estreou no ano de 1996 na Band e foi a mais importante iniciativa para o cinema de terror já feita por uma emissora de TV no Brasil. Lembra da abertura?

Claro que há dezenas de defeitos técnicos no filme, afinal estamos falando de Brasil e estamos falando de um orçamento ridículo. Mas isso não deve se tornar um empecilho para ver essa obra, e sim louvá-la, afinal, a interpretação de Mojica é intensa, com seu figurino claramente inspirado em Bela Lugosi, a maquiagem, por mais tosca, até que dá para encarar.

À Meia Noite Levarei Sua Alma ganhou o prêmio L’Ecran Fantastique por sua originalidade, prêmio Tiers Monde da imprensa na Convention du Cinema Fantastique e Prêmio Especial no Festival de Cine Fantástico y de Terror de Sitges. Não poderia ficar de fora dessa lista!

Vocêêêêêêê!!!


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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Vocêêêês… que fazem parte deste blog!!!!

    Muito obrigado pelo filme. Estava procurando há tempos. Aliás, como vocês são craques em encontrar pérolas esquecidas, poderiam inaugurar uma sessão de filmes de horror nacionais. Sei que existem vários (a maioria de péssima qualidade) por aí. Grande abraço. 8)

    • A praga do diaaaaa!!!!

      Valeu mais uma fez pelo elogio, pensador. Até o final da lista, ainda haverá mais algumas pérolas do cinema nacional postadas aqui no blog!

      Continue acompanhando.

      Grande abraço.

      Marcos

  2. sergiolucindo disse:

    Um blog maravilhoso. Entretanto, tenho problemas com baixo as legendas quando não vem no formato srt. Uma pena.

    • Oi Sergio, tudo bem?

      Desculpe, mas não entendi o seu problema. Você pode me explicar melhor, para ver seu eu consigo te ajudar?

      E muitíssimo obrigado pelo elogio e por gostar do blog.

      Abs

      Marcos

  3. […] quiçá mundial, ataca novamente em Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, continuação direta de À Meia-Noite Levarei sua Alma de […]

  4. […] o devido sucesso de seus filmes anteriores, À Meia-Noite Levarei sua Alma e Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver, Mojica escancara de vez toda sua estética marginal, e […]

  5. […] consentimento popular, levando em consideração seu trabalho marginal em sucessos anteriores como À Meia Noite Levarei sua Alma, Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, O Estranho Mundo de Zé do Caixão e O Despertar da Besta […]

  6. Ërick Seixas disse:

    Conserta o link por favor 🙂

  7. […] e considerado anos luz inferior aos seus trabalhos anteriores, ainda mais se comparados com À Meia-Noite Levarei sua Alma e Esta Noite Encarnarei em Teu Cadáver, e recheado de defeitos técnicos e tosquices alarmantes, […]

  8. Marcos, muito legal você dar um destaque aqui no blog aos filmes que o Zé fez (em especial à antologia O Estranho mundo do Zé do Caixao, pq o conto Ideologia é algo sensacional). Uma pena que, a despeito do respeito que ele ganhou nas gringas, aqui ele ainda seja encarado somente como um diretor de tosqueiras e caricatura popular (claro que o fato dele ter caído no gosto popular, a ponto de chegar a lançar essa marchinha de carnaval https://www.youtube.com/watch?v=EOqITgCILA0#t=28 é um feito, em se tratando de filme de terror aqui no Brasil). E eu nunca tinha pensado, de verdade, na importância dele e do cine trash (apesar de ter acompanhado o programa do começo ao fim) em divulgar e popularizar o gênero terror nos anos 90 na TV aberta, realmente um feito (ainda mais hoje, com a escassez total de qualquer filme de horror na TV aberta). Vida longa ao nosso mestre Zé!!

  9. […] no ambiente da exposição, que apresentam itens como o filme em película 16mm original de À Meia Noite Levarei sua Alma (resguardado pelo diretor por mais de 50 anos); o troféu recebido no ano de 1973 durante o […]

  10. […] pelo próprio meio cinematográfico, Mojica faz nascer à fórceps o cinema de terror nacional com À Meia Noite Levarei Sua Alma, lançado em 1963, inspirado pelos monstros clássicos da Era de Ouro da Universal. Surgia ali o […]

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