18 – M, O Vampiro de Dusseldorf (1931)


M


1931 / Alemanha / P&B / 117 min / Direção: Fritz Lang / Roteiro: Fritz Lang, Thea Von Harbou / Produção: Seymour Nebenzal (não creditado)/ Elenco: Peter Lorre, Ellen Widmann, Otto Wernickle, Theodore Loss


 

No início da década de 30, o cinema falado era uma novidade entusiasmante e a indústria cinematográfica começava a se transformar graças a essa revolução. Enquanto Hollywood se detinha na ideia da realização de produções musicais ou adaptações teatrais (como foi o caso até de Drácula e Frankenstein, lançados no mesmo ano pela Universal, inspirados pelas peças em cartaz na Broadway e não nos livros originais), Fritz Lang nos apresenta uma história sobre um serial killer assassino de crianças em seu cultuado M, O Vampiro de Dusseldorf.

Reza a lenda que Irving Thalberg, um dos principais produtores da MGM chamou todos os seus roteiristas e diretores para uma exibição de M, O Vampiro de Dusseldorf e ao término saiu enxovalhando todos, questionando porque ninguém fazia filmes tão inovadores, empolgantes e ao mesmo tempo com aspectos comerciais, como aquele. Mas claro, que se alguém apresentasse alguma ideia parecida com aquela aos grandes estúdios, seria vetada na hora.

Após o fracasso retumbante de Metrópolis (que só mais tarde adquiriria o seu devido respeito e status quo), Lang resolveu que era hora de voltar a ser um diretor pop. Por isso, a estrutura narrativa, a fotografia, o jogo de luz e sombra, os planos sequência e os travellings inovadores e ousados de M, foram cuidadosamente pensados e esteticamente preparados, para que fossem realmente certeiros.

Hans Beckert (habilmente interpretado por Peter Lorre) é um gordinho de olhos esbugalhados, com uma vida patética e entediante, que assovia compulsivamente um trecho de “In The Hall of the Mountain King” de Edvarg Grieg, e esconde um terrível monstro dentro de si. É na verdade um psicopata, assassino de meninas (subentende-se que também as molesta), que aterroriza a então pacata Dusseldorf.

“Teje pego”!

Não há nada explícito, nada gráfico em suas mortes, mas Lang deixa lá algumas imagens impactantes nas entrelinhas, que seria usado até hoje como referência nos filmes de serial killers, como um simples balão flutuando contra o poste telefônico, ou uma inocente bola rolando na grama, dando ao espectador a sombria sensação de que algo muito perverso foi feito.

A cidade fica em polvorosa e a polícia começa uma mobilização insana para tentar encontrar o assassino, pressionada pela comoção popular (que chega a adquirir ares de paranoia, destacada em uma cena onde um senhor só vai dizer as horas para uma criança e começa a ser acusado ferozmente), pelo governo e pela imprensa. Com uma vigília incessante e batidas frequentes, eles começam a atrapalhar a saudável vida criminosa de Dusseldorf, que não tem nada a ver com o assassino e repudia as atitudes do psicótico. Isso faz com que o crime organizado, mostre-se mais organizado do que nunca, e reúna todo tipo de escroque, batedor de carteira, cafetão e mendigo, para uma caça alucinada atrás de Beckert, a fim de resolver o problema e fazer justiça com as próprias mãos.

Ao ser capturado pelos criminosos, Beckert deve passar por uma julgamento “justo” que colocará em xeque sua sanidade mental, irá escancarar os sintomas da sua necessidade de matar criancinhas como um problema psicossomático, o qual necessita de ajuda médica e ainda jogará a culpa na sociedade que não vigia direitos seus filhos na última e marcante frase do filme, dita por uma mãe em luto. E é aí que Lang samba na cara da sociedade.

Um dos principais pontos assertivos do filme, é que enquanto seus compatriotas e contemporâneos do expressionismo alemão apostavam na figura do fantástico e sobrenatural para meter medo, como em Nosferatu – Uma Sinfonia de Horror, por exemplo, ou até mesmo no início do ciclo dos monstros da Universal, Fritz Lang dá um passo atrás e mostra que o verdadeiro mal pode se encontrar em nós mesmos. E que devemos tomar cuidado com os monstros que estão à solta aí fora. Tanto que o importante crítico de cinema americano Jonathan Rosenbaum definiu M, O Vampiro de Dusseldorf como “o melhor filme de serial killer de todos os tempos”.

Sou só um gordinho, esquisito, de olhos esbugalhados, vítima da sociedade!



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] do Dr. Gogol, é nada mais nada menos que o eterno Hans Beckert, o assassino pedófilo de M, O Vampiro de Dusseldorf de Fritz […]

  2. […] Sherlock Holmes nos filmes do personagem na déacada de 40, acabou substituindo Peter Lorre, de M, O Vampiro de Dusseldorf e Dr. Gogol – O Médico Louco, que não pode fazer o papel por motivos de saúde. Completa o […]

  3. […] Peter Lorre, que entre outros clássicos, interpretou o assassino de crianças Hans Beckert em M, O Vampiro de Dusseldorf de Fritz Lang e o obsessivo médico psicopata em Dr. Gogol – O Médico Louco. Lorre é Montresor, […]

  4. Douglas disse:

    link quebrado

  5. Eduardo carvalho disse:

    fantástico!

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