180 – As Quatro Faces do Medo (1964)

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Kaidan / Kwaidan / Ghost Stories


1964 / Japão / 183 min / Direção: Masaki Kobayashi / Roteiro: Yôko Mizuki (baseado na obra de Lafcadio Hearn) / Produção: Shigeru Wakatsuki / Elenco: Michiyo Aratama, Misako Watanabe, Rentarô Mikuni, Tatsuya Nakadai, Keiko Kishi, Katsuo Nakamura, Takashi Shimura, Osamu Takizawa, Haruko Sugimura


Não é novidade para ninguém que é fã do horror, a capacidade dos asiáticos, e principalmente dos japoneses, em fazer histórias verdadeiramente assustadoras e repletas de poesia e lirismo. Esse é o caso de As Quatro Faces do Medo, ou simplesmente Kaidan, uma das sublimes obras primas do cinema de terror japonês.

Mas já vou avisando de antemão: se você é fã do J-Horror moderno, graças a fitas como Ring – O Chamado e Ju-On – O Grito, e principalmente suas refilmagens americanas e estiver esperando um filme repleto de jump scares e espíritos demoníacos com seus longos cabelos negros, esqueça, bem capaz de você se decepcionar com As Quatro Faces do Medo. Quer dizer, você até verá espíritos e personagens femininos com longos cabelos negros, mas nada perto do impacto de Sadako, Kaiako e companhia limitada.

O filme de Masaki Kobayashi, indicado ao Oscar® de melhor filme estrangeiro e à Palma de Ouro em Cannes e ganhador do prêmio especial do Júri no mesmo festival, é baseado no livro do escritor irlandês Lafcadio Hearn, um apaixonado pela cultura nipônica, Kwaidan: Stories and Studies of Strange Things. Kwaidan é uma tradução da palavra arcaica Kaidan, que significa “história de fantasmas”. Estes contos foram traduzidos de antigos manuscritos japoneses, baseado em experiências dos camponeses e pessoas simples do Japão feudal, registradas por historiadores e folcloristas.

Kobayashi então escolheu quatro contos do livro, e criou uma obra que enche os olhos, que agiu como responsável pela introdução da mitologia japonesa para o mundo ocidental, fortemente influenciado pelas religiões budistas e xintoístas, trazendo alguns elementos que são comuns nestas chamadas histórias de horror japonesas, como espíritos vingativos, almas torturadas, remorso, culpa, simbolismos morais e românticos, e também como influência estética e narrativa para muito do que se foi visto no cinema de terror oriental futuramente.

Em toda sua extensa metragem (o filme tem 183 minutos), o cineasta constrói fábulas sobrenaturais, com todos os elementos fantasmagóricos que tem direito, sem a mínima violência explícita, calcada no suspense arrastado, vezes silencioso e vezes pontuado pela contundente trilha sonora de Tôru Takemitsu e os perturbadores efeitos sonoros de Hideo Nishizaki. Também formado em Belas Artes, Kobayashi abusa de uma notável beleza plástica, domínio completo sobre os planos, luz e sombra, tonalidades quentes e frias, paisagens exuberantes que mesclam tomadas externas, de estúdio e o uso de cenários artificiais, tudo isso captado pela belíssima fotografia de Yoshio Miyajima a tiracolo.

O primeiro segmento é “O Cabelo Negro”. Para traçar um paralelo, esse conto em particular é uma espécie da gênese do J-Horror moderno. Um samurai de província de Kyoto é submetido a pobreza ao final das batalhas, e cansado da vida que leva naquelas parcas condições, resolve abandonar a esposa para tentar ascender na vida, mesmo a pobre implorando para que ficasse com ela, que ela teceria noite e dia sem parar e trabalharia como escrava se fosse preciso. O samurai então casa-se com uma mulher de família e consegue a tão sonhada fortuna e status, porém, como diz o ditado, “dinheiro não traz felicidade”, a nova esposa não consegue fazer o homem feliz. Ao término de seu contrato oficial, ele resolve voltar à cidade e aos braços de sua antiga esposa, a qual nunca deixou de pensar sequer um minuto. Os dois passam uma noite juntos, quando as coisas mostram-se não ser bem o que aparentam na manhã seguinte. Daí pelo final do segmento, onde os longos cabelos negros vingativos partem para o ataque, que eu concluo que a personagem é no mínimo avó de Sadako e da Kaiako. Para mim, é a melhor história das quatro, realmente aterradora em seu final, com uma excelente fotografia, cenário desolador, maquiagem e efeitos especiais.

Ai que medo!

Ai que medo!

Segue-se a próxima história, “A Mulher das Neves”, outro conto assustador, um verdadeiro espetáculo visual em sua primeira metade, quando dois lenhadores, um velho e seu jovem aprendiz, são apanhados por uma terrível nevasca ao voltarem para a casa, e à beira da morte tentando se proteger em uma cabana abandonada, recebem a visita da Yuki-Onna, figura folclórica japonesa que dá o título a este segmento. O espírito suga todo o sangue do velho, matando-o congelado no mesmo instante. Ao ver o desespero de Minokichi, o ajudante mais novo, ela fica tocada em tirar a vida de alguém tão jovem, e resolve poupá-lo, fazendo-o prometer que ele nunca contará aquela história para ninguém, nem para senhora sua mãe. O tempo passa e após uma longa recuperação, Monokichi volta a trabalhar e um dia nos campos encontra a bela e triste Yuki, que buscava trabalho no vilarejo após ter perdido sua família. Monokichi a acolhe em sua casa e logo os dois se apaixonam e tem três filhos. Mas detalhe que a garota nunca envelhecia e sempre mantinha-se bela, despertando a inveja das lavadeiras fofoqueiras da aldeia. Até que certa noite, o homem lembra-se da história que se passou na floresta congelada e conta para sua esposa. Daí já viu. Só colocar os pingos nos is, ver que o nome da garota é Yuki e pronto, você já vai sacar o que pode acontecer. Um parêntese é que o sujeito ficou casado por anos com a mulher, teve três filhos, mas nunca reparou que ela era a mesma figura fantasmagórica que poupou sua vida. Isso que é não reparar na esposa mesmo. Enfim.

Sadako do gelo

O terceiro conto, para mim é o pior de todos. Os mais longo, o mais chato e o que mais testa a paciência do espectador, isso após já ter se passado mais de 1h de filme. Eu sei, a história é de uma beleza plástica ímpar, narrando uma batalha entre dois clãs de samurais sobre o controle do Japão. A história medieval japonesa é bela e lírica. Mas ficar aguentando um sujeito cantando essa história com uma voz desafinadíssima, é duro de aguentar. No final desta épica batalha o clã Taira é derrotado e uma tragédia acomete todos que resolvem se suicidar, inclusive o pequeno imperador, pois essa alternativa é preferível a cair nas mãos do inimigo. Pois bem, o personagem principal do conto é Hoichi (sendo que o segmento leva o seu nome, “Hoichi – O Sem Orelha”), um biwa hoshi, termo que designa jovens músicos viajantes, geralmente cegos e com a cabeça raspada, que se veste como um monge e cantam os folclores japoneses. Inofensivo, tímido e frágil, certa noite o rapazinho recebe a visita de um samurai que conhecia seu grande talento para cantar as histórias sobre aquela antiga batalha e o convida para se apresentar aos seus mestres. E isso se repete por todas as noites dali por diante. Hoichi não dorme mais, está fraco e estafado. Até que certa noite, preocupado com sua saúde, dois monges o seguem e descobrem que ele está sendo levado por espíritos para o cemitério onde o imperador dos Taira fora enterrado, e obrigam-no a cantar repetidas vezes, todas as noites, as histórias do passado deles. A lenda de Hoichi é famosa pelo Japão, e o momento de maior violência de todo o filme, é quando ele irá perder suas orelhas, explicando assim o título do conto, quando um dos samurais o faz pagar pela sua ofensa de parar de responder e visitar os espíritos. É uma história comovente, detalhada e com uma ambientação riquíssima, mas sua mais de uma hora de duração e ritmo extremamente lento, além da conclusão que deixa a desejar, torna esse segmento o mais estafante de ser visto.

Só nas tattoos!

Rabiscado!

A última história é “Em uma Xícara de Chá”, com apenas 25 minutos, rápida e objetiva, e traz uma surreal trama de um oficial de um destacamento militar que ao ver seu reflexo na água, é surpreendido por outra pessoa, sorrindo, de forma cínica, que ficava o encarando. Sem hesitação, ele bebe a água e passa a ser assombrado pela presença do homem na xícara, que o desafia para um duelo. Após vencer esse misterioso homem, mais outros três aparecem para atormentá-lo, o que acaba criando um novo embate entre eles. No dia seguinte, um velho senhor vai até sua casa para lhe desejar feliz ano novo e ele e a madame não o encontram, até que então teremos o impactante e aterrador desfecho, que lembra muito também os J-Horrors modernos, sem oferecer nenhuma explicação lógica e plausível, e acentuado o horror e o medo nas pessoas que descobrem o destino do guarda.

Aceita um chá?

Aceita um chá?



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Luig disse:

    Com certeza a grande fonte de inspiração pra Ringu e Ju-On, totalmente influenciador.

    • gokubh disse:

      grande filme. nem tanto por ser assutador mas a alegoria em torno do folclore japones muito bem feita, fotografia belissima por sinal.deve ter inspitado absurdamente filmes do terror moderno do terro japones e coreano

  2. achei o filme bem interessante. vale pelo simbolismo folclorico que tem no japao

  3. […] A última história é um conto de amor que termina em tragédia. “Lover’s Vow” nos apresenta Preston (James Remar), um artista plástico fracassado e falido que tem uma segunda chance na vida quando se depara com um demônio alado (bonecão feio de dar dó) em um beco escuro, que em troca de sua vida, pede para que ele nunca contasse o acontecido para ninguém. Na mesma noite, logo após o incidente ele conhece a misteriosa Carola (Rae Dawn Chong), com quem se casa, tem dois filhos e reconstrói sua vida artística. Eis que dez anos depois, ele dá com a língua nos dentes e resolve contar a verdade para a esposa. Claramente a trama também escrita por McDowell deve ter sido inspirada no conto folclórico japonês “A Mulher das Neves”, inclusive adaptado na antologia asiática As Quatro Faces do Medo. […]

  4. […] 5) As Quatro Faces do Medo (1964) […]

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