181 – Seis Mulheres para o Assassino (1964)

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Sei donne per l’assassino / Blood and Black Lace


1964 / Itália, França, Mônaco / 88 min / Direção: Mario Bava / Roteiro: Marcello Fondato / Produção: Alfredo Mirabile, Massimo Patrizi / Elenco: Cameron Mitchell, Eva Bartok, Thomas Reiner, Ariana Gorini, Dante DiPaolo, Mary Arden


Seis Mulheres para o Assassino, do mestre Mario Bava, é um dos pioneiros do giallo, estilo que seria popularíssimo na Itália durante os anos de 60 e 70, e foi imprescindível para subverter a ordem dos filmes de mistério e assassinato e abrir as porteiras para a extensa contagem de cadáveres dos filmes slasher nos anos 80.

O termo giallo, que significa amarelo, foi emprestado da literatura pulp italiana para caracterizar esse tipo de filme, geralmente com assassinos usando máscaras e luvas de couro pretas, que matam mulheres devido a algum tipo de trauma, muitas vezes durante a infância, sempre regado de muita violência, sangue e nudez, dotados de roteiros com furos estrambólicos, atuações caricatas e trilha sonora contundente e pouco usual, usando desde rock progressivo, até jazz e ópera.

Cansado dos clichês dos filmes de detetives, os famosos whodunit (que vem de Who has done it?), aqueles em que acompanhamos o investigador na caça ao assassino, procurando pistas, e vamos descobrindo as evidência ao mesmo tempo que o personagem, na melhor tradição do escritor Edgar Wallace, Bava resolveu dar muito mais importância aos assassinatos em si e em colocar um espectador como um cúmplice, testemunha ocular das horrendas mortes, do que a investigação em si. E isso jogou uma nova luz no modo de se fazer filme com assassinos, que viria a influenciar uma penca de gente, incluindo aí o especialista no gênero, Dario Argento.

Com total controle sobre os aspectos do filme após os sucessos internacionais de A Máscara de Satã de 1960 e As Três Máscaras do Terror de 1963, Bava driblou o baixo orçamento de parcos 150 mil e nos entrega uma obra visualmente caprichada, típica dos trabalhos do ex-diretor de fotografia, com o excelente uso de cores berrantes, principalmente o vermelho, design de produção impecável, elegância no enquadramento e uso de impressionantes técnicas de filmagem, como desconfortantes close-ups, que nos aproxima de personagens, mas ao mesmo tempo, nos mantém afastados de sua verdadeira essência, planos sequência e travellings assustadores (alguns utilizando até carrinhos de mão infantis) que passeia por entre jardins, corredores escuros e halls amplos com seus manequins super coloridos que saltam aos olhos.

O homem sem face!

O homem sem face!

A trama de Seis Mulheres para o Assassino circunda um importante ateliê de moda em Roma, onde relacionamentos díspares, uso de drogas, ciúme, traição, ganância e obsessão interagem entre um disfuncional grupo de pessoas que tem o local como centro de suas vidas, de forma direta por trabalharem por lá, ou por conta de relações escusas ou sexuais com os funcionários dali. O primeiro assassinato é de Nicole, uma das modelos, com problemas de drogas e amante do dono de um antiquário, que é atacada na calada da noite, enquanto era procurada por outro personagem para obter cocaína, por um misterioso assassino que usa um capote preto, chapéu, luvas e uma máscara amorfa em seu rosto, impedindo de que sua identidade seja descoberta.

Como todo bom giallo, outras quatro mulheres ainda serão assassinadas de forma violenta: asfixiadas, afogadas e torturadas, uma inclusive cruelmente tendo seu rosto forçado contra um fogareiro quente, com doses generosas de sangue feito de guache, mas sem nada ultraviolento como as produções vindouras de Dario Argento, até que naquelas reviravoltas típicas de um dramalhão mexicano, algo rotineiro no giallo, nos é apresentado o assassino(s) e sua terrível(eis) motivação(ões).

E com essa salada toda, Bava apresenta personagens os quais não conseguimos nos identificar com nenhum, por isso pode executar sua selvageria assassina em paz e sem remorso, cercado de homens e mulheres que são nada mais que aparências e nada é o que parece ser, desde marqueses, condessas, homens de negócios, até o ineficaz e petulante detetive que conduz as investigações. Qualquer um pode ser o assassino, e todos podem ser vítimas, sem que torçamos por ninguém. E Bava é mestre neste tipo de distanciamento provocado pela falta de escrúpulo de seus protagonistas, moralmente e socialmente falidos, com seus relacionamentos triviais e jogo de interesses e aparências.

Bava é um mestre do gênero. Inegável. Seis Mulheres para o Assassino, seu primeiro giallo é um filme cruel, que escancara a perversão neste universo de sangue e renda preta (interessantíssimo título que o filme ganhou no mercado internacional: Blood and Black Lace). Sua macabra filmografia deve ser vista de cabo a rabo, para entender melhor todos os recursos e a superioridade deste, que para mim, foi o maior cineasta italiano do horror.

Todas as cores da escuridão

Todas as cores da escuridão


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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] conseguiria alcançar ao tentar calcar os passos de Mario Bava quando deu vida ao subgênero em Seis Mulheres para o Assassino. Em 1964. Altamente influenciado pelo mestre do suspense Alfred Hitchcock, há uma boa construção […]

  2. […] giallo é o autêntico thriller italiano. Inaugurado com maestria por Mario Bava em Seis Mulheres para o Assassino e credenciado como importante subgênero do horror por Dario Argento em sua Trilogia dos Animais (O […]

  3. […] giallo é o autêntico thriller italiano. Inaugurado com maestria por Mario Bava em Seis Mulheres para o Assassino e credenciado como importante subgênero do horror por Dario Argento em sua Trilogia dos Animais (O […]

  4. […] não traga o mesmo esmero técnico que produções anteriores como As Três Máscaras do Terror, Seis Mulheres para o Assassino e Mata Bebê, Mata!, aqui Bava apresenta uma de suas obras mais violentas e explícitas, com […]

  5. […] de sua obra prima, Prelúdio Para Matar, mas segue à risca os passos ensinados por Mario Bava em Seis Mulheres Para o Assassino e ajuda a expandir essa mitologia e enraizar os paradigmas dessa vertente do cinema de terror […]

  6. […] de sua obra prima, Prelúdio Para Matar, mas segue à risca os passos ensinados por Mario Bava em Seis Mulheres Para o Assassino e ajuda a expandir essa mitologia e enraizar os paradigmas dessa vertente do cinema de terror […]

  7. […] e o jogo de controle, expediente que vire e mexe aparece escancarado em suas obras, como em Seis Mulheres para o Assassino, Drácula, o Vampiro do Sexo e A Mansão da […]

  8. […] uma das marcas registradas do diretor, ou pelas suas incursões no próprio giallo, como em Seis Mulheres para o Assassino, mas sim, pela brutalidade e maldade humana, mais próximo do que fez em A Mansão da Morte, por […]

  9. […] majestade de filmes impecavelmente perfeitos de seu começo e meio de carreira, como o desbunde de Seis Mulheres para um Assassino ou Mata Bebê, Mata ou mesmo de produções mais recentes, como a obra prima Lisa e o Diabo. Mas […]

  10. […] Bava evoluiria ainda mais em sua carreira como diretor, entregando sete filmes nos próximos cinco anos, que iriam pavimentá-lo como o maestro do macabro, passeando por outros filmes góticos com atmosfera sobrenatural com o aterrorizante Mata, Bebê, Mata!, ficção científica com O Planeta dos Vampiros e a gênese do giallo com Seis Mulheres para o Assassino. […]

  11. Aruã Silva Vargas disse:

    Vc poderia fazer um horrorcast sobre esse filme.

  12. Jonas Cunha disse:

    Foda!

  13. Marcelo Rosselli disse:

    Estou seriamente desconfiado de que o nosso amigo Aruã não sabia do que realmente se tratava o Horrorcast, ele devia estar achando que era uma resenha em forma de vídeo e sobre qualquer tipo de filme, independentemente da sua qualidade, e não o que realmente é, quer dizer, uma seção do blog dedicada exclusivamente a escrachar os filmes medíocres ou excessivamente trash, pois não creio que alguém poderia achar este filme tão ruim assim a ponto de considerá-lo “qualificado” para o Horrorcast. Até muito pelo contrário, este filme é mais um grande trabalho do Bava e praticamente o pai (ou avô, né) do subgênero giallo. E fora também que ele possui atributos que vão angariar a simpatia até mesmo daqueles que não curtem muito esse tipo de filme, dentre os quais, como muito bem apontado pelo autor da resenha, o visual (principalmente no que concerne à fotografia), que pode ser considerado um espetáculo à parte, por assim dizer.

    Marcelo

  14. Marcelo Rosselli disse:

    Ao que tudo indica, o nosso amigo Aruã não sabia do que realmente se tratava o Horrorcast, ele devia estar achando que era uma seção do blog contendo resenhas em forma de vídeo e sobre qualquer tipo de filme, independentemente da sua qualidade, e não o que realmente é, quer dizer, uma seção dedicada exclusivamente a escrachar os filmes medíocres ou excessivamente trash, pois não creio que alguém poderia achar este filme tão ruim assim a ponto de considerá-lo “qualificado” para o Horrorcast. Até muito pelo contrário, este filme é mais um grande trabalho do Bava, muito bem elaborado em todos os aspectos, e é praticamente o pai (ou avô, né) do subgênero giallo. E fora também que ele possui atributos que vão angariar a simpatia até mesmo daqueles que não curtem muito esse tipo de filme, dentre os quais, como muito bem apontado pelo autor da resenha, o visual (principalmente no que concerne à fotografia), que pode ser considerado um espetáculo à parte, por assim dizer.

    Marcelo

  15. Marcelo Rosselli disse:

    Nossa, Marcos, eu arrumei uma confusão danada aí com as postagens; não sei se é algum problema aqui com o meu computador ou se foi vacilo meu mesmo. Eu não sabia que tinha de ter uma conta para poder deixar comentários e aí, quando criei a conta, apareceram todas as outras mensagens que eu já tinha tentado postar anteriormente, antes de criar a conta. Então, se possível, exclua as duas primeiras, fazendo favor, e esta daqui também.

    Muito obrigado!

    Marcelo

  16. Marcelo Rosselli disse:

    Apenas uma pequena correção: o nome da primeira vítima é Isabella, não Nicole.

    Muito obrigado!

    Marcelo

  17. Marcelo Rosselli disse:

    Marcos, eu tive de abrir uma nova conta, pois acabei de descobrir que o endereço de e-mail que eu havia fornecido está misteriosamente inacessível para mim. Então, se possível, exclua todas as outras mensagens já postadas através da minha conta anterior e aí eu vou começar do zero, usando esta minha nova conta; eu já copiei a mesma mensagem para poder postá-la novamente. Por precaução, vou te passar o e-mail que está vinculado a esta minha nova conta e o meu nome de usuário, para caso você precise me passar algum tipo de instrução ou informação a respeito do ocorrido.

    E-mail: [email protected]
    Nome de usuário: marcelobarrosrosselli

    P.S.: Mais uma vez, se for possível, exclua esta mensagem aqui também, após já a ter lido durante o processo de moderação, para evitar confusão aqui no post.

    Muito obrigado!

    Marcelo

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