182 – O Túmulo Sinistro (1964)

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Tomb of Ligeia


1964 / Reino Unido / 81 min / Direção: Roger Corman / Roteiro: Robert Towne (baseado na obra de Edgar Allan Poe) / Produção: Pat Green, Samuel Z. Arkoff (não creditado) / Elenco: Vincent Price, Elizabeth Shepherd, John Westbrook, Derek Francis, Oliver Johnston


O Túmulo Sinistro é o filme que fecha o ciclo das adaptações dos contos de Edgar Allan Poe, dirigidos por Roger Corman. Todos eles, com exceção de Obsessão Macabra, trouxeram o astro Vincent Price no papel principal. E pode-se afirmar com absoluta certeza, que foram os melhores filmes já produzidos que beberam na fonte do escritor americano.

Este longa traz uma mórbida história que aborda sempre temas comuns na obra de Por, aqui representados por um homem atormentado com a perda da esposa, acontecimento que o leva a um espiral de tormento, angústia e que irá desembocar num criativo enredo sobre possessão e hipnose, alucinações, vida e morte.

Livremente inspirado no conto Ligeia, O Túmulo Sinistro traz mais uma interpretação irrepreensível de Price, fechando com chave de ouro essa série de adaptações, como o personagem Verden Fell, atormentado, absorto em sua própria decadência após a morte de sua esposa, Ligeia, jogado em um profundo amargor que expande-se para o ambiente em que vive e reflete até em sua saúde e sanidade, com surtos de amnésia e uma estranha fotosensibilidade à luz do sol, preferindo se entocar em ambientes lúgubres da abadia medieval em que viva com a esposa. Atmosfera inebriante muito bem impressa por Corman, tanto nos corredores escuros quanto nos vastos campos , repletos de luz, dos arredores, onde fica a tumba de Ligeia, vigiado constantemente por um gato preto que também atazana o pobre homem mesmo dentro de sua casa, sempre a vigiá-lo.

Após alguns anos em luto, ele conhece a bela Rowena Trevanion (Elizabeth Shepherd), que interessada na arquitetura do local, adentra os campos da propriedade de Fell com seu cavalo, e sofre um acidente, quando é assustada pelo estranho gato sentinela. Em sua ajuda, além e Fell vem Christopher Gough, um antigo amigo que cavalgava com ela enquanto seu pai caçava uma raposa, esporte muito comum na Inglaterra do século XIX, que acaba apresentando os dois, deixando a garota apaixonada por Fell, com seus óculos escuro, cartola e costumes pretos, fazendo com que a estranheza e dor do homem a atraia.

Vincent 'Willy Wonka' Price

Vincent ‘Willy Wonka’ Price

Lutando contra alguma força maior que si mesmo, misturando momentos de lucidez com outros de confusão mental, quando, por exemplo, chega até a confundir Rowena com Ligeia, mesmo uma sendo ruiva e outra morena, Fell também se apaixona pela garota e eles se casam. Mas após ter de voltar a Abadia tempos depois para resolver algumas burocracias quanto a venda do local, novamente Fell começa a piorar de vez, e desaparece todas as noites, levantando suspeitas em sua recém esposa que algo está terrivelmente errado, principalmente quando os ataques de sonambulismo e de amnésia vão se agravando.

Com o auxílio de Gough, que quer ajudar a moça, tendo certa paixão platônica repreendida, ele começa a pressionar o mordomo Kenrick sobre se realmente Ligeia está morta e enterrada em seu túmulo, já que não conseguiu concretizar a venda da propriedade pela mesma estar no nome da mulher e não houver sequer um atestado de óbito. Na tentativa de exumar o cadáver da falecida que então descobrimos a surpresa que rondava de forma implícita até então: Ligeia não está enterrada em seu túmulo, e sim um boneco de cera construída pelas hábeis mãos de Fell.

ALERTA DE SPOILER. Pule para o próximo parágrafo ou leia por sua conta e risco. Então em seu clímax arrebatador, é revelado que Fell mantém o corpo mumificado de Ligeia em uma passagem secreta da abadia, pois na verdade ela exerce um poderoso controle mental sobre ele, através de hipnose praticada antes de morrer, possuindo-o durante as noites, para que assim ela nunca morra de verdade e sempre viva através dele. Rowean tenta tirá-lo do transe através de uma rápida autossugestão, mas acaba morta, asfixiada por Fell, enxergando na atual mulher a demônia morta que roubou sua vida e felicidade. Mas a vingança e o espírito maligno de Ligeia, personificada naquele gato preto, trava uma batalha com Fell até que a abadia se ponha em chamas e os dois descansem juntos para todo o sempre.Destaque também para a interpretação dupla de Elizabet Shepher, interpretando a reluzente e cheio de vida Rowena  e a pálida e fria Ligeia.

O Túmulo Sinistro é um filme ambíguo, repleto de significados e conotações sinistras, ao melhor estilo gótico que Corman sempre utilizou de forma eficiente durante esta fase, que explora um amor obsessivo que atravessa o véu da morte, algo tão tênue para Poe, como ele mesmo sugere em sua citação estampada ao terminar o filme: “A linha que divide a vida e a morte são vagas. Quem pode dizer onde uma termina e a outra começa?”.

Eu não sou cachorro, não...

Eu não sou cachorro, não…



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

9 Comentários

  1. ui que orror eu nao vejo um filme desses sozinha

  2. Este, junto com “Obsessão Macabra”, é meu segundo filme predileto(o primeiro é “Solar Maldito”). Grande interpretação de Price, que, sem o bigode, fica mais amargo e sinistro, a meu ver. Como falou, Elizabeth Shepherd também foi magnífica(prefiro-a morena -rs). Já que falou em ambiguidade, penso que Verden Fell tinha um sentimento ambíguo pela Ligéia: amor e ódio. O que vc acha?

    • Concordo com você, Roderik. Certeza que ele tinha esse sentimento de amor e ódio por ela, principalmente depois de sua morte.

      Fico feliz por você ter voltado a visitar o blog e comentar! Acho fantástica a oportunidade que você teve de ver vários desses clássicos no cinema!!!!

      Grande abraço.

      Marcos

  3. Muito obrigado pela acolhida, Marcos. E, mais uma vez, peço desculpas pelo meu surto paranóico(rs). Interessante é que naquele dia em que conheci seu blog, a maioria das resenhas que li, eu não concordei(rs), e, erroneamente, pensei que vc fosse um crítico-mesmo que fosse amador- chato(rs). Porém, observando outras resenhas, muito concordo com vc. Vc é bem detalhista; muito, mas muito mais do que eu. E suas resenhas são simpáticas e bem humoradas. Enfim, seu blog é ótimo!

    Dos 8 filmes de Corman, apenas dois eu vi no cinema, “O Corvo”, que vi, acredite se quiser, quando eu tinha uns 10,11 anos de idade, num matinê, perto de casa, Eu todo domingo ia no cinema. Então, o ano foi em 1966 ou 1967. Vi também “O Túmulo Sinistro”. Mas , antes disso, já havia visto o filme na Rede Globo, na Sessão Mistério, apresentada toda as quartas-feiras, à noite. Foi graças a ela que me apaixonei por filmes de terror. E o primeiro que assisti foi “Obsessão Macabra”, em 1972.

    Por acaso, vc tem preferência por algum desses 8 filmes?
    Eis as minhas, em ordem de preferência:
    Solar Maldito, A Mansão do Terror, empatados Obsessão Macabra e Tùmulo Sinistro, Muralhas do Pavor, O Castelo Assombrado, Orgia da Morte e O Corvo.
    Portanto, quando fiz o primeiro comentário, me esqueci que A Mansão do Terror é meu segundo filme predileto da série.

    Tudo de bom!

    • Salve, Roderick.

      Muito obrigado. Fico feliz que você teve essa segunda impressão e continua por aqui! Como você, eu também odeio aqueles críticos pedantes, que acham que cinema que presta é só iraniano, francês, paquistanês e passe naquelas mostras de cinema que ninguém vê e dá vontade de dormir. O que tento fazer é isso mesmo, uma análise bem humorada, pessoal, e mesmo que o filme seja ruim, gosto de esculhambá-lo de forma divertida. 😉

      Cara, meu preferido é A Orgia da Morte. Eu não consigo te explicar porquê, mas tenho um fascínio por aquele filme, pela interpretação de Price como Próspero, pela cena do baile, por todos os recursos que Corman usou na narrativa que o afasta completamente da famosa pecha de “Rei dos Filmes B”… Daí segue por Solar Maldito, A Mansão do Terror, O Castelo Assombrado, Muralhas do Pavor, Obsessão Macabra, O Túmulo Sinistro e O Corvo. Acho que essa é minha ordem.

      Grande abraço.

      Marcos

  4. […] por A Mansão do Terror, Muralhas do Pavor, O Castelo Assombrado, O Corvo, A Orgia da Morte e O Túmulo Sinistro. Aqui nessa primeira incursão, além da mais uma vez extraordinária atuação desse monstro do […]

  5. […] seguir um padrão que deu certo, surgido em O Solar Maldito no ano anterior e que permaneceu até O Túmulo Sinistro, último filme da santíssima trindade Corman – Price – Poe. E é inquestionável quando se […]

  6. Cristiano disse:

    Excelente, gênero extremamente respeitado e digno, fato hoje não mais visto. com a genuína participação de um dos mestres do gênero Vincent Price,

    abraços

  7. Tirso disse:

    Parabéns sr. Marcos Brolia pelo seu Blog. É realmente maravilhoso e contém criticas bem escritas, seriamente pesquisadas e também bem humoradas, o que é ótimo para nós leitores. Meu filme favorito nesta fase Corman/Poe é exatamente “O túmulo sinistro”. Também gosto muito de “Solar Maldito” e “Mansão do Terror”. Os filmes desta fase são todos equivalentes entre si e cada um tem sua preferência pessoal por este ou aquele filme. A maioria da critica me parece que fica com “A orgia da morte” mesmo. Assisti a todos desta fase, exceto um (que coincidentemente não é com Vincent Price) o “Obsessão Macabra”. Irei assisti-lo. Forte abraço e obrigado pelo trabalho de garimpo.

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