195 – Manos: The Hands of Fate (1966)

manos

1966 / EUA / 74 min / Direção: Hal Warren / Roteiro: Hal Warren / Produção: Hal Warren / Elenco: Hal Warren, Tom Neyman, John Reynolds, Diane Mahree, Stephanie Nelson, Jackey Neyman

 

Adjetivar um filme parece sempre ser um dos maiores prazeres e desafios de todo cinéfilo ou crítico de cinema, principalmente quando trata-se do amplo gênero do cinema de terror. E dentre estes adjetivos, o que mais procuramos é o pior filme já feito. E assim, sem a menor dúvida, com todo louvor do mundo, este título vai para Manos: The Hands of Fate. É unânime.

É simplesmente a maior porcaria que eu já assisti em toda a minha vida. É aquela porcaria que obviamente torna-se cultuada (Quentin Tarantino tem uma cópia raríssima em 35mm do filme em sua estante), mas há tamanha dose cavalar de erros técnicos de roteiro, direção, edição, atuação, dublagem, pós produção, e todos os elementos que compõe a produção de um filme, que deveria ser exibido em todos os cursos de cinema sobre o que não se fazer em um longa (ou curta, média, qualquer) metragem.

Para começar, o insólito diretor/ roteirista/ produtor/ ator de Manos: The Hands of Fate, Hal Warren, na verdade era vendedor de fertilizantes em El Paso, Texas. Com o perdão do trocadilho, não é de se admirar que o filme seja uma merda. A ideia de fazer a fita surgiu de uma aposta, de que seria impossível fazer um filme bem sucedido com um orçamento tão baixo, mas o sujeito quis provar o contrário. Perdeu, claro. Warren juntou 19 mil doletas, contratou um bando de atores (desrespeito à classe) do grupo de teatros do local e algumas modelos, na promessa de compartilhar os lucros de bilheteria com os envolvidos e foi lá rodar sua “obra prima” cinematográfica.

Daí em diante é um show de horrores. O longa foi filmado com uma câmera de 16mm que só conseguia captar 32 segundos de filme. Isso dá a ele um processo de edição pavoroso, com sequências completamente absurdas (inclusive em diálogos) e erros de continuidade gravíssimos, afetando todo o seu andamento, que apesar dos parcos 74 minutos, dá a impressão que o filme é muito mais longo. As limitações técnicas não paravam por aí, pois durante as cenas noturnas, mal consegue se ver alguma coisa, e as luzes atraíam mariposas voando que nitidamente aparecem em cena em seu balé inseto.

Mãos, as mãos do destino!

Seguidor de Mãos, as mãos do destino!

Isso sem falar de seu roteiro desconexo, com personagens pífios, atores do mais baixo calibre que o cinema poderia encontrar, ao melhor estilo Hermes & Renato, e como se não fosse o bastante, a câmera não captava o som, e depois as cenas tiveram de ser todas dubladas na pós-produção, com uma tremenda falha de sincronia em algumas ocasiões. Claro que resultou em algumas cenas realmente antológicas, como, por exemplo, um casal que fica o filme INTEIRO em um carro dando um amasso e tomando umas biritas, sem a menor ligação com todo o resto do enredo, colocada no filme só para poder aproveitar a presença da “atriz” Joyce Molleur, que estava com a perna quebrada.

Bom, a história, se é que podemos chamar tal qual, concentra-se no casal Michael (interpretado pelo próprio Warren) e Margaret (Diane Mahree) que viajam de férias com sua filha pequena, Debbie, e seu cachorrinho de estimação Peppy, e perdidos no meio do nada, resolvem parar em um hotel para procurar abrigo durante à noite. Lá, são recepcionados pelo esquisítissmo Torgo, um deficiente de pernas tortas, barbudo, sujo e chapado, que cuida do hotel enquanto o Mestre não está. Altamente convidativo se hospedar por lá. Torgo foi interpretado por John Reynolds, que “atuou” o filme inteiro sob efeitos de LSD (percebe-se), e se suicidou pouco depois da estreia. Dizem as más línguas que foi devido a sua participação em Manos, mas diferente do diretor Fred F. Sears, que possivelmente se matou após ser avacalhado com o resultado de seu filme O Ataque Vem do Polo (que parece Cidadão Kane perto disto aqui), o motivo aqui foi problemas familiares e abuso de drogas.

Na verdade Torgo faz parte de uma seita pagã maligna, adoradora do deus das trevas Manos, que é uma mão que fica em um altar de fogo (!!!???). O tal Mestre (Tom Neyman), sacerdote supremo do culto e adorador de Manos é um sujeito que parece o Seu Madruga com seu bigode de mariachi, usa uma longa túnica preta com enormes mãos vermelhas desenhadas e vive para lá e para cá com seu doberman infernal (que era seu cachorro de estimação na vida real). Além de possuir o poder de entender o que uma mão mumificada prega, seu passatempo é colecionar esposas, todas vestidas com uma longa camisola branca. E sua próxima aquisição será Margaret. Mas acontece que Torgo também está a fim dela (ele até questiona o Mestre, dizendo que ele sempre tem todas e ele não pode ficar com nenhuma. Só faltou um “oh, puxa” do Minduim).

Torgo obviamente será punido por essa insolência, sendo violentamente chacoalhado (???!!!!) pelas esposas do Mestre e depois terá sua mão arrancada como sacrifício para Manos. Uma mão para Manos! O Mestre decide então que Michael e o cão devem morrer, e Margaret e menina deverão se tornar suas esposas. Pera aí, a menina deverá se tornar esposa? Isso é apologia à pedofilia! Pior ainda, que a “atriz” que faz a pentelha era filha do ator Tom Neyman. Então além de pedofilia, isso seria incesto!!!! Aqui Warren sambou na cara da sociedade, da moral e dos bons costumes.

Torgo, o capanga jeca!

Torgo, o capanga chapado

Então rola toda uma discussão ferrenha entre as esposas se a criança deve ser morta ou não. Aparentemente a preferida do Mestre é contra, e isso provoca uma cisma entre elas, que começam a lutar em uma cena das piores já feitas na história da sétima arte, e faria os irmãos Lumiére rolarem do túmulo, com as moçoilas puxando o cabelo uma das outras e rolando pela areia. Só faltou o ringue com gel. Até que ela é voto vencido e aprisionada, sendo depois espancada pelo Mestre por sua insolência. Nisso, na escuridão do deserto, a família tenta fugir por suas vidas, enquanto vivem tropeçando do nada e fingindo estarem mortalmente machucados, principalmente Margaret, que a cada tropicão, diz que não pode mais continuar, e seu marido e sua filha devem seguir em frente para se salvar.

Depois de se depararem com uma cascavel (uma cena de arquivo enxertada ao melhor estilo Ed Wood), resolvem voltar para o hotel, pois brilhantemente acreditam que o Mestre e suas esposas não voltariam a procurá-los ali. Ledo engano dos dois gênios, pois o bigodudo estará lá. Michael descarrega sua arma no vilão, que aparentemente adquire uma forma etérea através de um defeito de foco da câmera, e a cena corta para a manhã seguinte, com duas novas garotas passeando de carro pelo deserto e chegando até o mesmo hotel. Ao invés de Torgo, agora Michael cuida de lá enquanto o Mestre não está. Em seu local de descanso, vemos Margaret e a filha com as camisolas brancas, juntas ao restante das noivas. E após os créditos, surge a palavra Fim com um ponto de interrogação. Mas felizmente, é sim o final de verdade.

Warren quis promover uma estreia de gala na sua cidade natal quando o filme foi lançado, tendo sido amplamente promovido, alta sociedade convidada, limusines para levá-lo ao cinema junto com o elenco (mesmo tendo que fazer duas viagens e dar a volta no quarteirão para conseguir deixar todo mundo no cinema) e tudo mais. Mas não deu outra: quando o filme foi exibido, uma explosão de risos dominou o Capri Theatre e diretor e atores saíram humilhados da sessão antes que a película chegasse ao fim. Manos: The Hands of Fate afundou na bilheteria, e sendo assim, os únicos que receberam alguma coisa pela sua participação no filme foi Jackey Newman, a pequena Debbie, que ganhou uma bicicleta e o doberman que ganhou um saco de ração!!! O filme obviamente caiu na obscuridade, até virar episódio do sensacional Mystery Science Theatre 3000 em 1993 e ganhar notoriedade do público, para depois ter finalmente seu lançamento em DVD.

Sabe o conceito que de tão ruim fica bom? Bem, ele não se encaixa aqui neste caso. Pode realmente ser uma experiência traumática e você parar de acreditar na magia do cinema, mas mesmo depois de tudo isso, aconselho-o a tentar a sorte e assistir Manos: The Hands of Fate. Impossível passar incólume pela fita. Duvido que outra película em toda a sua vida o deixará tão perplexo e atônito com o que está vendo em sua frente, e como tamanha canastrice pôde ser realizada. Mas é objeto de culto. E de estudo, com toda certeza.

Manos e suas esposas!

O Mestre e suas esposas!

Assista ao episódio do videocast do 101 Horror Movies comentando Manos: The Hands of Fate:

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Manos: The Hands of Fate não foi lançado no Brasil.

O filme é de domínio público. Dá para baixar aqui. Legenda (português PT) aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Vocês estão absolutamente certos. Manos é tão ruim que não dá pra assistir nem com a premissa de “é tão ruim que chega a ser bom”. Ele é pior do que isso. Grande abraço. 8)

  2. raul disse:

    esse com certeza eo pior filme que ja vi na vida , a historia e sem pé e nem cabeça , a ediçao e uma droga , os atores são pessimos é com certeza uma aula como nao fazer um filme, é otima resenha , bom trabalho.abraço

  3. […] de filmes que poderiam ser considerados o pior de todos os tempos. Coloque aí nessa conta Manos: The Hands of Fate (esse sim para mim é o pior MESMO), Robot Monster, e por aí vai. O fato é que o anti-marketing […]

  4. […] Leia a minha resenha sobre Manos: The Hands of Fate aqui. […]

  5. oscar_b disse:

    O filme é muito ruim. Mas convenhamos, nada supera “A árvore da Vida”!!!

  6. […] daquele nível de Manos: The Hands of Fate. Que você assiste incrédulo a tamanha podreira, sentindo-se o cabra mais corajoso da face da […]

  7. […] filmes de Roger Corman, ou mesmo bombas homéricas como Plano 9 do Espaço Sideral, Blood Freak e Manos: The Hands of Fate, Children… se sai muito bem. Principalmente no quesito: maquiagem dos zumbis, que está […]

  8. oscr_b disse:

    Olá Pessoal

    Apenas para agregar um pouco de valor a postagem, parece que existe 2 jogos em homenagem a esta bomba: Um de aventura para celular (https://play.google.com/store/apps/details?id=com.freakzone.manos&hl=en) e outro RPG (https://mega.co.nz/#!zcMwSS5L!KrMyKjNBk4rKPG4yZEC_yWzuUa03dcG8jy35nVb70Dk).
    E na ansiosidade para ver as resenhas bagaçeiras da década de 80!!!

    • Hey, Oscar.

      Agregou valor com certeza. Eu sei que muitos vão criticar, mas vejo isso como um inveja! 😉

      Logo menos chego nos saudosos anos 80, a década que nunca acabou.

      Obrigado por comentar.

      Abs

      Marcos

  9. […] do mundo. Os louros dessa aclamação dividem-se tanto entre Plano 9 do Espaço Sideral de Ed Wood, Manos: The Hands of Fate de Harold P. Warren e Robot Monster de Phil Tucker. Todos titãs do cinema bagaceira. Mas o meu […]

  10. […] já me deparei com bombas exponencialmente piores que Palhaços Assassino… Ruindades como Manos: The Hands of Fate, Blood Freak, Robot Monster, O Ataque Vem do Polo e essas tranqueiras feitas pela Asylum […]

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