196 – Mata Bebê, Mata! (1966)

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Operazione Paura / Kill, Baby… Kill!

1966 / Itália / 85 min / Direção: Mario Bava / Roteiro: Romano Migliorini, Roberto Natale, Mario Bava / Produção: Luciano Catenacci, Nando Pisani / Elenco: Giacomo Rossi-Stuart, Erika Blanc, Fabienne Dali, Piero Lulli, Luciano Catenacci

 

Garotinhas fantasmas é um dos elementos sobrenaturais mais assustadores do gênero horror. Agora um filme com uma garotinha fantasma dirigido pelo mestre italiano do macabro, Mario Bava, é obra prima. Mesmo com o retardado título que ele ganhou no Brasil, Mata Bebê, Mata!, tradução literal do igualmente retardado título internacional (o italiano original é Operazione Paura).

Bava, perfeito mais uma vez, faz um filme de terror sobrenatural extremamente simples, só que sufocante, tenso, paralisante, daqueles que não se deve assistir sozinho em um quarto escuro tarde da noite. Desde o primeiro take, com um grito desesperado de pavor de uma camponesa fugindo de uma poderosa força do além túmulo, até seu final carregado de carga dramática, Mata Bebê, Mata! Não deixa a peteca cair nem um segundo, criando uma densa atmosfera de medo durante os mais de 80 minutos de projeção.

E não é um filme cheio de jump scares que faria a molecadinha de hoje em dia pular nas cadeiras de cinema. É só a simplicidade do terror em seu estado bruto, com um clima gótico pesado e inebriante em castelos empoeirados, vultos, névoas, cemitérios, escadas espirais, aldeões supersticiosos aterrorizados, sinistras bonecas de porcelana e uma menina fantasma loira vingativa de olhar impactante que brinca “inocentemente” com sua bola, à espreita de sua próxima vítima.

Homem-Aranha esteve aqui!

Homem-Aranha esteve aqui!

E todo esse misé-en-scene que Bava domina como poucos diretores de horror são apresentados ao espectador junto de sua característica estilização de cenários e fotografia primorosa, espetáculo visual do macabro com uso preciso de iluminação, habitual colorido saturado utilizado pelo diretor, lentes distorcidas, ângulos inusitados e a fúnebre trilha sonora de Carlo Rustichelli para completar essa verdadeira ópera do horror italiano. Fica até chato todo texto que eu escrevo dos filmes de Bava, eu rasgar uma seda enorme para o sujeito. Mas é inevitável. Ele é um gênio e o melhor diretor italiano de terror que já pisou neste mundo.

A história também tem a simplicidade como ponto chave. No final do século XIX, em um pequeno vilarejo da Europa, uma série de estranhos assassinatos vem assustando os incautos e supersticiosos aldeões, que dizem que o local está amaldiçoado por conta de uma tragédia que envolveu a Baronesa Graps e sua família. O médico legista Dr. Paul Eswai é chamado na cidade pelo inspetor Kruger para exumar e fazer a necropsia do corpo da última vítima, que aparentemente se suicidou, jogando-se sobre um portão de lanças, logo na primeira sequência do filme.

Ambos não deixam se levar pelo comportamento supersticioso de todos os moradores, inclusive do Burgomestre Karl (interpretado pelo produtor do filme, Luciano Catenacci, sob o pseudônimo de Max Lawrence) e da ajudante de Eswai, Monica Schuftan, que voltara há pouco para sua cidade natal após estudar medicina no exterior. A lenda que circula é que o fantasma da menina Melissa Graps, morta aos sete anos de idade, está se vingando dos moradores, e todos aqueles que a avistarem ou comentarem sobre os trágicos acontecimentos que ocorreram na Vila Graps, são levados ao suicídio pelo espírito zombeteiro. A única esperança em tentar quebrar a maldição, em detrimento da racionalidade científica do Dr. Eswai, herói impotente que apenas é testemunha das manifestações e pouco pode fazer a respeito, é Ruth, uma feiticeira de cabelos negros (interpretada pela belíssima Fabienne Dall), praticante do oculto, a qual os aldeões confiam suas vidas.

Olhares de pavor

Olhares de pavor

E em meio a esta história, tome situações aterrorizantes, como os aparecimentos da garotinha nas janelas das casas, sempre à espreita, as terríveis e violentas mortes auto induzidas por Melissa, e alguns momentos ímpares do talento superlativo de Bava, como uma tomada em que temos o ponto de vista da menina fantasmagórica se balançando no balanço em um sinistro jardim coberto de névoas e ervas daninhas e o bizarro quarto da menina, mantido intacto pela Baronesa Graps, com todas as suas bonecas de porcelana assustadoras.

O filme de Bava, como de costume, foi rodado com dinheiro de pinga e teve seríssimos problemas durante sua produção, muito pela falta de recursos. Sofreu diversos atrasos e paralisações, a ponto dos atores toparem trabalhar de graça, já que o orçamento havia estourado com apenas duas semanas de filmagens, para que o filme pudesse ser finalizado. Apesar de todas as dificuldades, em seu lançamento, Mata Bebê, Mata! foi aplaudido de pé por Luchino Visconti (diretor de Morte em Veneza, O Leopardo e Rocco e Seus Irmãos) e aclamado por Frederico Fellini, que fez questão de homenageá-lo em seu segmento do filme Histórias Extraordinárias.

Mata Bebê, Mata! é uma terrível fábula onírica de terror, fantasmas e vingança. Uma verdadeira aula do gênero para todos os que se dizem fãs de terror e para todos os futuros realizadores.

Mata, bebê!

Mata, bebê!

Serviço de utilidade pública:

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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  1. […] no segmento Wurdulak de As Três Máscaras do Terror ou posteriormente no clássico Mata, Bebê, Mata!, Bava mais uma vez faz juz ao apelido de maestro, e dá início a uma experiência realmente […]

  2. […] é representado por uma doce e inocente garotinha loira com sua bola, tal qual fez Mario Bava em Mata Bebê, Mata, “homenageado” aqui por Fellni. O melhor dos […]

  3. […] que produções anteriores como As Três Máscaras do Terror, Seis Mulheres para o Assassino e Mata Bebê, Mata!, aqui Bava apresenta uma de suas obras mais violentas e explícitas, com direito a muito sangue e […]

  4. […] perfeitos de seu começo e meio de carreira, como o desbunde de Seis Mulheres para um Assassino ou Mata Bebê, Mata ou mesmo de produções mais recentes, como a obra prima Lisa e o Diabo. Mas muito do problema do […]

  5. […] do macabro, passeando por outros filmes góticos com atmosfera sobrenatural com o aterrorizante Mata, Bebê, Mata!, ficção científica com O Planeta dos Vampiros e a gênese do giallo com Seis Mulheres para o […]

  6. […] do visual gótico do maestro do macabro, Mario Bava – mais nitidamente de A Máscara de Satã e Mata Bebê, Mata – além da pegada que mistura um pouco da Era de Ouro da Universal e os filmes de Roger Corman […]

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