20 – A Casa Sinistra (1932)


The Old Dark House


1932 / EUA / P&B / 72 min / Direção: James Whale / Roteiro: Benn W. Levy (baseado na obra de J.B. Priestly)/ Produção: Carl Laemmle Jr. / Elenco: Boris Karloff, Melvyn Douglas, Charles Laughton, Lilian Bond, Ernest Thesiger, Eva Moore


 

A Casa Sinistra é a empreitada da Universal na típica história gótica sobre casarões vitorianos, logo após o lançamento da sua primeira e bem sucedida leva de filmes de monstros: Drácula e Frankenstein, e alguns meses antes de A Múmia.

Carl Lammle Jr. mas uma vez dá o controle do barco para o trio responsável pelo sucesso de Frankenstein no ano anterior: o diretor James Whale, o astro Boris Karloff e o maquiador Jack Pierce, para criar todo o clima de um filme com a autêntica parafernália gótica para meter medo: uma mansão, uma noite de tempestade, portas e janelas batendo, cortinas esvoaçantes, corredores mal iluminados, um grupo de viajantes recebidos por uma família estranha e um sinistro mordomo.

Misturando terror com doses de humor e esquisitices como só Whale era capaz de fazer (vide os seus próximos trabalhos: O Homem Invisível e A Noiva de Frankenstein), A Casa Sinistra entrega seus elementos do gênero de forma séria, porém intercalando-os com diálogos afiados, situações de pastiche, lutas atrapalhadas e comportamento absurdo da maioria de seus personagens.

Três viajantes, Penderel, Phillip Waverton e sua esposa Margaret (interpretado por Gloria Stuart, a velhinha de Titanic) estão passando pelo diabo na estrada durante uma intensa tempestade. Ao escaparem por pouco de um deslizamento de terra, eles param na estranha mansão para poder se abrigar e esperar a fúria da natureza se acalmar um pouco. Lá, são recepcionados de forma bem distinta pela outrora próspera e agora decadente família Femm. Horace, é o irmão acolhedor, solícito e medroso, enquanto sua irmã Rebecca é uma megera antipática, semi-surda, conservadora e carola que não para de tagarelar. Além dos dois anfitriões, há Morgan, o mordomo mudo interpretado por Karloff.

Karloff, o mordomo sedutor

Não sei se Lammle e o pessoal da Universal não acreditavam no potencial de diálogo de Karloff, porque mais uma vez, como em Frankenstein, ele faz um personagem que não fala uma palavra sequer o filme inteiro, soltando apenas alguns grunhidos inteligíveis. Mas apesar do papel secundário, a equipe de maquiagem de Jack Pierce mais uma vez caprichou e transformou Karloff num ser feioso, carrancudo e com o rosto cheio de deformações e cicatrizes.

Pois bem, acontece que os Femm escondem um terrível segredo familiar dentro daquele casarão, que envolve o patriarca da família, o velho Roderick Femm que vive inválido e enclausurado no último andar da casa, e Saul, o irmão mais velho trancafiado. Morgan também tem um sério problema com o alcoolismo e torna-se extremamente violento e perigoso quando enche a cara, coisa que faz bem naquela noite. Fora isso mais dois visitantes chegam à casa também para se protegerem da tormenta, o casal William “Bill” Poterhouse e Gladys Perkins (que usa um nome falso no começo, sabe-se lá porque).

Só que o que fica devendo em A Casa Sinistra são cenas realmente de terror genuíno em uma trama subaproveitada, pois quando você descobre o verdadeiro segredo que vive naquela casa, chega até ser decepcionante, já que Whale vai criando um clima bem misterioso que vai prendendo sua atenção ao filme, mesmo em meio a situações completamente inverossímeis e estapafúrdias, como o desconcertante jantar ou quando Gladys e Penderel saem no meio da tempestade para tomar uma dose de uísque no carro, e voltam perdidamente apaixonados, com ele decidindo pedi-la em casamento e ela dispensando Bill na maior cara de pau, sendo que o corno leva na maior esportiva e ainda faz graça com isso. Oi?

Morgan e Rebecca também são dois personagens mal aproveitados, que poderiam render muito mais à trama, assim como Saul, se suas verdadeiras motivações fossem mais bem explanadas bem como sua insanidade. E ao final, com a noite que parecia sem fim terminando e os raios de sol adentrando a casa, tudo volta ao normal como se nada tivesse acontecido. Mas há de se concordar que a direção de Whale é precisa, além dele ser um excelente diretor de atores e especialista em ludibriar o espectador, entregando algo completamente não usual e fora do inesperado. Uma curiosidade é que A Casa Sinistra ficou fora de circulação muito tempo, pois todas suas cópias haviam se perdido. Somente vários anos depois, na década de 60, que o diretor Curtis Harrington encontrou seus negativos, salvando o filme do esquecimento.

Brincadeiras antes do jantar



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Lucas Henderson disse:

    Excelente filme. Não extraordinário, mas com certeza sinistro! Tenho duas perguntas: de onde veio a escolha do nome desse filme? Durante a expansão para 1001 filmes vocês pretendem incluir curtas metragens? Seria uma boa. Estou curtindo muito a cada semana. Abraços.

    • Oi Lucas. Não faço ideia de onde veio a escolha do título… Vou ficar te devendo essa. Quanto a expansão, por enquanto serão apenas longa metragens. Mas quando terminar a lista dos 1001 filmes, quando o blog entrar na “Fase 3” pode até rolar curtas, sim.

      Fico mega feliz que você está acompanhando o blog e curtindo a cada semana! 😉

      Abs

      Marcos

  2. […] à noite em uma casa no meio do nada (que teve seu início lá na longínqua década de 30 em A Casa Sinistra e parodiado na década de 70 no memorável The Rocky Horror Picture Show, entre dois […]

  3. Gostaria de saber se vocês farão uma analise do filme de mesmo nome, “The Old Dark House” dirigido por William Castle e lançado em 1963. Vocês tem a intenção?

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