206 – Viy – O Espírito do Mal (1967)

El Viy - Vij - Giorgi Kropachyov - Konstantin Yershov - 1967 - Cartel001

Вий / Viy or Spirit of Evil

1967 / União Soviética / 77  min / Direção: Konstantin Ershov, Georgi Kropachyov / Roteiro: Konstantin Ershov, Georgi Kropachyov, Aleksandr Ptushko (baseado na história de Nikolai Gogol) / Elenco: Leonid Kuravlyov, Natalya Varley, Aleksei Glazrym, Nikolai Kutuzov, Vadim Zakharchenko

 

Baseado no mesmo conto de Nikolai Gogol, escritor ucraniano do século XIX, que inspirou também o clássico de Mario Bava, A Máscara de Satã, Viy – O Espírito do Mal dos soviéticos Konstantin Ershov e Georgi Kropachyov é um filme exuberante, assustador e divertido.

Antes de mais nada, um parágrafo pessoal sobre minha experiência ao assistir Viy. Minha família por parte de mãe veio do leste europeu. Meu avô nasceu na Ucrânia, mesmo país de Gogol, e minha avó era romena. Os dois eram cristãos ortodoxos, e quando eu era pequeno, vez ou outra ia com a minha família na Igreja Ortodoxa Russa que fica ali na Vila Alpina, em São Paulo. Daí assistir a este filme, que tem a história calcada na religião russa, me traz uma enorme lembrança da infância, de quando eu ia às missas e via aquele padre austero, sisudo, todo vestido de negro, com sua longa barba branca, balançando seu defumador de um lado para o outro.

Bom, voltando à análise do filme. Com o intuito de mostrar a batalha travada entre a fé e as forças sobrenaturais da natureza, Viy – O Espírito do Mal é plenamente reconhecido no gênero pelo excelente trabalho do mestre da cinematografia fantástica russa Alexandr Ptushki, mago dos efeitos especiais, que através de uma excelente composição de efeitos óticos e de maquiagem surpreendente, cria um espetáculo visual tétrico na sequência final do longa, apresentando todo tipo de criatura das trevas, animais, demônios, esqueletos, monstros, bruxas e o impressionante Viy, o tal espírito do mal.

Vá de retro, bruxa!

Vá de retro, bruxa!

A história do filme se concentra no jovem Khoma Brutus, vulgo, O Filósofo, estudante de teologia que certa noite se perde no campo com outros dois amigos e aceita o convite de uma babushka para repousar em seu celeiro. Acontece que a velha na verdade é uma horrenda bruxa, que acaba usando o filósofo como uma vassoura humana e voando com ele pelos céus (e lá vamos nós…). Depois de se libertar, espancá-la e deixá-la inconsciente, observando-a com uma mistura de culpa e horror, o rapaz a vê se transformando em uma bela e jovem mulher, e foge assustado.

Ao voltar até o convento, Khoma descobre que foi requisitado por um fidalgo de um vilarejo próximo à Kiev, para que ele faça uma vigília de três noites ao corpo de sua filha que acabara de morrer, para que rezasse por sua alma. Detalhe que a moça, antes de falecer, disse que queria unicamente que Khoma fizesse essas orações e passasse as noites velando seu cadáver em uma antiga igreja. Claro que nesse angu teria caroço, pois o filósofo logo nota uma estranha semelhança na garota, com alguém que não sabe identificar.

Apenas com sua fé hesitante para protegê-lo, além de altas doses de vodka, o filósofo vai lá passar suas noites, quando desde a primeira, a garota levanta-se do seu caixão para assombrá-lo. Khoma faz então um círculo protetor de giz, morrendo de medo apesar de ficar repetindo para si mesmo que um cossaco não tem medo de nada, e impede que a jovem bruxa lhe faça algum mal, por não conseguir transpor a barreira do encantamento, mesmo com suas investidas em seu caixão voador.

Legião de monstros!

Legião de monstros!

Mas é na terceira noite que realmente o bicho pega. Enfurecida, a moça morta-viva conjura todo seu poder sobrenatural na impressionante noite final, onde os efeitos especiais de Ptushki fazem-se valer, assim como a excelente fotografia de Viktor Pishchalnikov e Fyodor Provorov, onde apenas o filósofo está em cores e todo o resto do cenário e das terríveis forças das trevas que a bruxa reivindica, estão em preto e branco, tomados pelas trevas. Mãos assustadoras brotam das paredes e do solo, demônios de toda a sorte, deformados, altos, anões, invadem o local, assim como gatos, lobos, vampiros e lobisomens, atacando o jovem em um ritmo alucinante, onde os diretores abusam de giros de 360º de câmera. Suas orações não surtem nenhum efeito contra aquela poderosa investida do mal, principalmente quando o tenebroso Viy entra na igreja, para liderar aqueles espíritos malignos errantes, convocados pelos poderes da bruxa em busca de vingança. Daí, não haverá círculo de giz que possa proteger O Filósofo antes que o galo cante e encerre a terceira noite de horror.

No diálogo final entre dois homens encarregados de pintar a igreja, um deles afirma que se Khoma não houvesse fraquejado, a bruxa nada poderia contra ele. Bastava benzer-se e cuspir-lhe no rabo, dando a entender que a verdadeira hesitação de sua fé foi o motivo do infortúnio do companheiro, como o próprio texto de Gogol diz: “Cada indivíduo irá sofrer… Apesar do que se possa dizer, o corpo depende da alma”. Ou seja, o escritor escancara o pessimismo oferecendo uma fábula moral sobre os perigos em vacilar quando se confronta o mal verdadeiro.

A metragem curta (apenas 77 minutos) transforma Viy – O Espírito do Mal em uma rápida experiência no terror russo, reto, direto, sem enrolação, com uma das mais bem executadas e apavorantes sequências finais que o gênero já mostrou, em detrimento a todo o clima leve do restante do filme. É um conto de fadas de horror, que representa outra cultura, outros credos, mas sempre com a mesma forma de encarar as forças do mal e do sobrenatural. Hoje pode até não assustar alguém que tenha mais que 13 anos, mas é um belíssimo exemplar do cinema fantástico.

Eu convoco os vampiros. Eu convoco os lobisomens!

Eu convoco os vampiros. Eu convoco os lobisomens!

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Viy – O Espírito do Mal está atualmente fora de catálogo.

Download: Torrent + legenda aqui.

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

9 Comentários

  1. Juliana disse:

    uuuu terror trash russo! isso é um achado

  2. Aline Pires disse:

    Vi o remake sem saber que existia essa versão original.. obrigada por postar!

  3. […] por Nicolaj Gogol, que mais tarde também seria adaptado aos cinemas no clássico soviético Viy – O Espírito do Mal. A bruxa Asa e a princesa Katia, ambas interpretadas por Steele, tornaram-se incônicas no cinema […]

  4. Alice disse:

    Esse filme é muito bom se de ver, diálogos, fotografia e a história tudo muito interessante, vale a pena
    Bom demais

  5. Thiago Henrique Nunes dos Santos disse:

    Eu preciso agradecer-lhe imensamente por ter garimpado na internet esta preciosidade que é este filme! Ainda lerei o conto mas o filme já vai inclusive a obter elementos contundentes para escrever uma boa história!

  6. Luz Vida disse:

    Filme maravilhoso, de clima interessante. E que atriz linda que faz o papel da bruxa, não tinha mulher mais bonita naquela época.

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