213 – Histórias Extraordinárias (1968)

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Histoires extraordinaires / Spirits of the Dead

1968 / França, Itália / 121 min / Direção: Roger Vadim, Louis Malle, Frederico Fellini / Roteiro: Roger Vadim, Pascal Cousin, Clement Biddle Wood, Daniel Boulanger, Frederico Fellini, Bernardino Zapponi (baseadas nos contos de Edgar Allan Poe) / Produção: Raymond Eger / Elenco: Brigitte Bardot, Alain Delon, Jane Fonda, Terence Stamp, James Robertson Justice, Salvo Randone, Peter Fonda 

 

Histórias Extraordinárias é uma produção franco-italiana que traz três segmentos dirigidos por Roger Vadim, Louis Malle e Frederico Fellini, livremente adaptando três contos de Edgar Allan Poe. Ousado, poético, com clima surreal, onírico, psicodélico e sem muita liga de uma história com a outra.

Afinal, dos três diretores, apenas Vadim era familiarizado com o universo de horror e do fantástico (como diretor do vampírico Rosas de Sangue, baseado no livro Carmilla de Sheridan Le Fanu). E ele é o mais fraco dos três. Louis Malle era oriundo da Nouvelle Vague francesa e Fellini, dispensa qualquer tipo de apresentação. Então vendo os créditos de Histórias Extraordinárias, tendo estes três diretores no comando, histórias baseadas em Poe e atores como Jane Fonda, Alain Delon, Brigitte Bardot e Terence Stamp no elenco, você logo deve imaginar que é uma obra prima.

Não é. Infelizmente, há um filme em potencial completamente desperdiçado pela virtuose. Roger Corman, o tal Rei dos Filmes B, que nesta altura do campeonato já havia dirigidos oito filmes baseado na obra de Poe, a maioria com Vincent Price no elenco, e todos devidamente postados aqui no blog, entrega oito trabalhos muito melhores do que essa pretensiosa produção. O que acontece é que o primeiro episódio é um chute nos bagos, o segundo é interessante e o de Fellini, claro, é obra prima. E engraçado que há uma espécie de consenso geral com relação a essa opinião.

Não é porque um filme traz Vadim, Malle e Fellini na direção, que ele é um clássico absoluto. Pelo contrário. Histórias Extraordinárias tem episódios desiguais, mantém uma estrutura narrativa admirável apesar disso e extrapola o gênero. Peca por sua pretensão. Exploram a estética macabra do escritor americano de forma que nenhum outro fez, mas não convence como uma obra em conjunto.

Metzengerstein, o primeiro segmento dirigido por Vadim requer muita paciência, pois seu ritmo é lento, arrastado, a história é enfadonha e trocando em miúdos, é um saco. Como é de costume do diretor, o filme preocupa-se muito mais nas aparências, no kitsch, no vazio, na superficialidade, e obviamente, em belas mulheres. Uma gatíssima Jane Fonda, no auge de sua beleza (mulher do diretor então, que também já se casou com Brigitte Bardot, Catherine Deneuve… o cara não era fraco) vive a Condessa Frederique de Metzengerstein, moça que vive de acordo com suas próprias regras, em meio a crueldades e bacanais que promove em seu castelo, que se apaixona pelo primo, o Barão Wihelm Berlifitzing (Peter Fonda), que simplesmente lhe dá uma gelada, fazendo com que ela fique puta da vida e busque vingança, queimando o estábulo onde vivia os cavalos do primo, que acaba acidentalmente morrendo tentando salvá-los. Mas eis que um corcel negro sobrevive e aparece nos portões do castelo da libertina. Frederique então fica fascinada, obsessivamente atraída pelo cavalo, e deixa de lado todo convívio social, as festinhas e tudo mais, para cavalgar seminua no equino para cima e para baixo, nos mais esquisitos figurinos possíveis, que vão desde a renascença até modelitos futuristas à lá Barbarella (que Vadim dirigiria mais tarde). Dispensável e sonolento.

A mulher e seu cavalo

A mulher e seu cavalo

O que o primeiro segmento tem de lúdico, o segundo é sério e austero, uma perfeita visão da obra de Poe transportada no cinema, mantendo a sobriedade e a integridade artística de Louis Malle com relação ao texto do escritor. Muito melhor que o primeiro, mas tem um sério problema de ritmo, principalmente na cena do jogo de baralho. Bom, William Wilson (Allain Delon) é o personagem que nomeia a história, que desde sua infância, onde era quase um Damien Torrance de tão ruim, vive atormentado por um doppleganger, um sósia que vivia atrapalhando seus atos de maldade, que se seguiram desde o internato onde amarrava os amiguinhos para mergulhá-lo em um balde cheio de ratos, passando pela escola de medicina onde raptava jovens para praticar vivisseção, até quando trapaceia em um jogo de cartas com a bela Giuseppina (Brigitte Bardot), torturando-a impiedosamente com chicotadas. O confronto final entre Wilson e seu sósia (obsessão que acompanhava Poe e vários outros escritores), personalidade dupla, leva o personagem a um final trágico.

Apostando em Bardot

Apostando em Bardot

Eis que depois de uma hora e vinte de projeção quando você está preste a abandonar o barco, aparece Fellini e zás! Tobby Dammit é a livre adaptação de Fellini e Bernardo Zapponi para “Nunca Aposte sua Cabeça com o Diabo”, trazendo uma aura completamente surreal e psicodélica, com um Terence Stamp impecável, ator decadente, rebelde, viciado em drogas e álcool, que vai da Inglaterra para a Itália para rodar seu novo filme. Com sua infinita pecha de criador, Fellini imprime uma visão delirante contemporânea do texto (que de todos é o que mais foge da essência literária) e sua já famosa exuberância de imagens. No cerne da questão, Dammit foge para o campo, blasfemo do jeito que é, para evocar o demônio por banalidade e fazer uma aposta com o coisa ruim, que aqui é representado por uma doce e inocente garotinha loira com sua bola, tal qual fez Mario Bava em Mata Bebê, Mata, “homenageado” aqui por Fellni. O melhor dos três.

Venha a mim, coisa ruim!

Venha a mim, coisa-ruim!

Serviço de utilidade pública:

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

6 Comentários

  1. […] O filme de Bava, como de costume, foi rodado com dinheiro de pinga e teve seríssimos problemas durante sua produção, muito pela falta de recursos. Sofreu diversos atrasos e paralisações, a ponto dos atores toparem trabalhar de graça, já que o orçamento havia estourado com apenas duas semanas de filmagens, para que o filme pudesse ser finalizado. Apesar de todas as dificuldades, em seu lançamento, Mata Bebê, Mata! foi aplaudido de pé por Luchino Visconti (diretor de Morte em Veneza, O Leopardo e Rocco e Seus Irmãos) e aclamado por Frederico Fellini, que fez questão de homenageá-lo em seu segmento do filme Histórias Extraordinárias. […]

  2. José Antonio disse:

    Boa noite ! Penso que houve um erro no trecho “que nesta altura do campeonato já havia dirigidos oito filmes baseado na obra de Corman”. O correto não seria “na obra de Poe” ? E parabéns pelo blog, estou curtindo muito !

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