217 – A Noite dos Mortos-Vivos (1968)

The Night of the Living Dead

1968 / EUA / P&B / 96 min / Direção: George A. Romero / Roteiro: George A. Romero, John Russo / Produção: Karl Hardman, Russell W. Streiner / Elenco: Duane Jones, Judith O’Dea, Karl Hardman, Marilyn Eastman

 

Esse é o filme que muda tudo. O cinema de terror nunca mais será o mesmo daqui para frente, pois o mestre George A. Romero nos apresenta em A Noite dos Mortos-Vivos a sua versão dos zumbis comedores de carne humana, misturado com mordaz crítica social, paranoia e o apocalipse morto-vivo, que seria imortalizada e copiada para todo o sempre. Para mim, é o filme mais importante da história do cinema de horror.

Romero samba na cara da sociedade e apresenta um filme que viria a estabelecer os padrões de exploração para o que seria o subgênero gore no cinema daqui para frente (mesmo que anteriormente Herschell Gordon Lewis já tivesse chutado o pau da barraca em sua Trilogia de Sangue), com direito a sangue e vísceras, e fazendo com que aquelas criaturas quer eram simples escravos autômatos trazidos à vida por vodu em uma ilha do Caribe, se transformassem em nossos familiares, vizinhos e amigos, que sairiam de suas covas para nos devorar vivos explicitamente. Isso sem contar a forma como coloca à prova a sobrevivência do mais forte, o egoísmo da autopreservação, os conflitos morais e religiosos e ousa apresentar, em pleno final dos anos 60, um protagonista negro.

Citando o livro “Zumbi – O Livro dos Mortos”, de Jamie Russel, publicado aqui no Brasil pela Editora Barba Negra: “A Noite dos Mortos-Vivos foi o filme que fez nascer o terror norte-americano da era moderna”. E vai além: fora os americanos, influenciou toda uma geração de cineastas italianos e europeus que despontariam na década de 70 e 80 fazendo filmes extremamente violentos, cheio de sangue e tripas. Isso sem contar que A Noite foi responsável por mudar a linguagem dos filmes de terror, abandonando a estética gótica que permeava as produções até então, e tocar  no medo contemporâneo do americano médio da época. É por isso que na minha humilde opinião, está entre os meus cinco filmes de terror preferidos e mais importantes de todos os tempos.

Theyre coming to get you Barbra

Bom, deixamos de lado toda essa babação de ovo por enquanto para falar sobre a trama. Barbra e seu irmão viajam quilômetros para visitar a tumba do pai morto, quando a insurreição dos mortos-vivos começa, atacando os dois no cemitério. Barbra consegue escapar, fugindo até uma fazenda, onde tentará se esconder durante a fatídica noite com um conjunto de estranhos díspares: Ben, que vai até a casa também em busca de proteção e logo se torna líder do grupo; o casal caipira local Tom e Judy; e Helen e Harry Cooper, marido e mulher em pé de guerra com sua filha doente, mordida por um zumbi durante um acidente.

Com um orçamento de 114 mil dólares, saídos do próprio bolso dos produtores, o filme foi rodado em preto e branco e com severas limitações para maquiagem dos zumbis, mas mesmo assim, principalmente para o público mediano daquela década, algumas cenas eram simplesmente chocantes, como as dezenas de braços atacando as portas e janelas da fazenda, ou os zumbis devorando os pedaços de Tom e Judy após uma frustrada tentativa de fuga. Romero usou entranhas de animais compradas em um açougue de Pittsburgh, como corações de porcos e intestino de ovelhas, para dar o efeito autêntico e conseguiu encontrar figurantes loucos o suficiente para comê-los.

Romero também contorna todo e qualquer problema financeiro que poderia recair sobre seu filme com o roteiro recheado de crítica social, misturando diversos arquétipos críveis que poderiam muito bem ficar confinados junto com você se a tal hecatombe zumbi realmente acontecesse: a garota fraca e impressionada, o marido arrogante que trata mal a família, a esposa saturada de uma vida subserviente, o negão que tenta colocar ordem na situação mas mesmo assim vê sua liderança sob desconfiança devido a cor da sua pele, e o casal simplório e inocente que tenta fazer de tudo para ajudar, mas acaba fazendo cagada no final. E como se não bastasse, os mortos voltando a vida joga contra a parede toda e qualquer escolha moral e religiosa que você teria até então, como não poder sequer velar ou enterrar os entes queridos ou recorrer aos seus instintos primários para poder sobreviver. Fora que os momentos finais do filme questionam a autoridade policial e as forças da lei, isso bem enquanto a Guerra do Vietnã matava milhares no estrangeiro.

Saídos de suas tumbas com um peculiar refinamento gastronômico

Muito parecido com o que Hitchcock fez em Os Pássaros, Romero não nos dá nenhuma pista do que realmente aconteceu, só joga informações desencontradas, como o que realmente aconteceria na vida real em uma situação como essas, através de boletins de rádio e TV, dando uma espécie de pista que os mortos estão se levantando da tumba devido a um incidente com um satélite que explodiu e espalhou uma grande quantidade de radioatividade no planeta (lembre-se, estamos em 1968 com a Guerra Fria comendo solta)

A Noite dos Mortos-Vivos foi um tremendo sucesso financeiro, faturando cerca de 12 milhões de dólares nos EUA e mais 30 milhões ao redor do mundo, mas infelizmente os royalties não geraram receita para Romero e os produtores, e muito menos todas as dezenas de cópias em DVD, VHS e exibições públicas, já que o filme é de domínio público, devido a um erro grotesco quando o distribuidor original não adicionou uma indicação de direitos autorais nas cópias.

Após A Noite dos Mortos-Vivos, Romero nos entregaria uma excelente quadrilogia expandindo os temas que de alguma forma nasceram com esse filme e influenciaria todo e qualquer filme, livro, seriado, HQ ou jogo de videogame que viria a ser criado, que tivesse o zumbi como personagem central. Há também o remake lançado em 1990, em cores, dirigido pelo mago da maquiagem Tom Savini, que seria responsável pelo visual dos defuntos ambulantes e da carnificina nos filmes posteriores de Romero. A refilmagem, que na verdade é mais uma homenagem em si, é tão boa quanto a original, com alguns elementos bastante melhorados, e com Romero como produtor executivo. Versão essa de 90 que foi a primeira que assisti, tarde da noite em alguma reprise na TV aberta, muito antes de ver o original de Romero pela primeira vez.

Ai se eu te pego… Assim você me mata!

O filme é de domínio público, dá para baixar aqui. Legenda aqui.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=pElSu_ECJGM]


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

46 Comentários

  1. […] mortos-vivos A Noite do Terror Cego, pegando os conceitos que George Romero nos apresentou em A Noite dos Mortos-Vivos, e subvertendo-os em sexo, violência e […]

  2. […] em A Noite dos Mortos Vivos, Romero começou sua revolução zumbi que mudaria os rumos da história do cinema de terror, em […]

  3. […] verdade o roteiro original de A Volta foi escrito por John Russo, o mesmo que havia escrito A Noite dos Mortos-Vivos junto com Romero. Após desavenças com o diretor, Russo resolveu criar o seu próprio filme de […]

  4. rocky disse:

    Foi o melhor dos zumbis que assisti. Ainda conserva um pouco do terror antigo, com susense e pouca sujeira.

  5. Alana De Carvalho disse:

    Outro que só conhecia pelo remake… rs A história começa bem, mas não gostei muito do desenvolvimento. Esperava mais.

  6. […] pavimentar o caminho para que no final da década de 60, George Romero criasse seu über clássico A Noite dos Mortos-Vivos, cuja explicação inicial da volta dos mortos à vida era a tal radiação, e mudasse para sempre […]

  7. […] Antes de George Romero reinventar o gênero em 1968, os filmes de zumbi tiveram seu auge durante os anos 30 e 40, sempre baseando-se na origem haitiana da criatura, em filmes como Zumbi Branco e A Morta-Viva, além de outras desgraças do Poverty Row. Após esse período, os mortos-vivos caíram no ostracismo e assim como outros monstros do cinema, foram substituídos pelo terror sci-fi da década de 50. Os Zumbis de Mora Tau é um desses poucos exemplares do gênero produzidos no período antes de A Noite dos Mortos-Vivos. […]

  8. […] de interesse e nervos exaltados que o cárcere forçado faz surgir. É tipo uma versão roedora de A Noite dos Mortos-Vivos, feita quase 10 anos antes. Mas aí depois os cachorros fantasiados aparecem e tudo é posto a […]

  9. […] filmes vindouros. Coloque nesta conta os zumbis de George Romero, tanto em seu visual, no seminal A Noite dos Mortos-Vivos, quanto em sua derradeira quarta parte de quadrilogia, Terra dos Mortos, quando os mesmos saem de […]

  10. […] no coração, suas aparências e características mais parecem as de zumbis. Quatro anos antes de A Noite dos Mortos-Vivos, vemos os maltrapilhos inumanos se arrastando de forma devagar e desordenada, tentando entrar na […]

  11. […] putrefata, andar trôpego e olhos vidrados, dois anos antes de Romero revolucionar o gênero em A Noite dos Mortos-Vivos e levantá-los de suas covas de terra e deixá-los sujos e vestidos com sacos de batatas, mais de […]

  12. raul disse:

    um dos melhores filmes de zumbis da historia do grande mestre george romero,ele é muito bom o cara consegue fazer um filme de zumbi e ainda fazer critica politica e social muito bom . e parabéns pela resenha

  13. Lucas disse:

    Por curiosidade, quais sãos os outros 4 filmes que estão no seu top five?

  14. […] Antes da noite, da madrugada e do dia. Antes dos comedores de cérebro. Antes de The Walking Dead, Zumbi Branco é o primeiro filme de zumbis da história do cinema. Estrelado por um caricato Bela Lugosi, o filme remonta a origem haitiana da lenda dos mortos-vivos ressuscitados através de mágica. Portanto, não espere as famosas criaturas canibais putrefatas imortalizada por Geroge A. Romero quase quarenta décadas depois com A Noite dos Mortos-Vivos. […]

  15. […] pavimentar o caminho para que no final da década de 60, George Romero criasse seu über clássico A Noite dos Mortos-Vivos, cuja explicação inicial da volta dos mortos à vida era a tal radiação, e mudasse para sempre […]

  16. […] Antes de George Romero reinventar o gênero em 1968, os filmes de zumbi tiveram seu auge durante os anos 30 e 40, sempre baseando-se na origem haitiana da criatura, em filmes como Zumbi Branco e A Morta-Viva, além de outras desgraças do Poverty Row. Após esse período, os mortos-vivos caíram no ostracismo e assim como outros monstros do cinema, foram substituídos pelo terror sci-fi da década de 50. Os Zumbis de Mora Tau é um desses poucos exemplares do gênero produzidos no período antes de A Noite dos Mortos-Vivos. […]

  17. […] mortos-vivos A Noite do Terror Cego, pegando os conceitos que George Romero nos apresentou em A Noite dos Mortos-Vivos, e subvertendo-os em sexo, violência e […]

  18. […] em A Noite dos Mortos Vivos, Romero começou sua revolução zumbi que mudaria os rumos da história do cinema de terror, em […]

  19. […] verdade o roteiro original de A Volta foi escrito por John Russo, o mesmo que havia escrito A Noite dos Mortos-Vivos junto com Romero. Após desavenças com o diretor, Russo resolveu criar o seu próprio filme de […]

  20. […] de interesse e nervos exaltados que o cárcere forçado faz surgir. É tipo uma versão roedora de A Noite dos Mortos-Vivos, feita quase 10 anos antes. Mas aí depois os cachorros fantasiados aparecem e tudo é posto a […]

  21. […] (Banquete de Sangue, Maníacos e Color Me Blood Red), a hecatombe zumbi canibal de George Romero em A Noite dos Mortos-Vivos e o culto satânico perturbador de O Bebê de Rosemary de Roman Polanski, ir ao cinema ver vampiros […]

  22. […] mortos-vivos A Noite do Terror Cego, pegando os conceitos que George Romero nos apresentou em A Noite dos Mortos-Vivos, e subvertendo-os em sexo, violência e […]

  23. […] pior sentido da palavra), Children…, dirigido por Bob Clark, surgiu exatamente no hiato pós A Noite dos Mortos-Vivos de George Romero, que havia atualizado o cadáver ambulante canibal (e o cinema contemporâneo de […]

  24. […] do seminal A Noite dos Mortos-Vivos, O Exército do Extermínio foi um fracasso retumbante de bilheteria. Esperando por um desenrolar […]

  25. […] ambiente confinado, entre os mortos cegos e os demais zumbis, desde os criados pro George Romero em A Noite dos Mortos-Vivos, até os encontrados hoje nos seriados de televisão: enquanto o zumbi tradicional é um monstro […]

  26. […] Revanche dos Mortos-Vivos II, como também ficou conhecido no Brasil) é o verdadeiro discípulo de A Noite dos Mortos-Vivos de George Romero. O espanhol Jorge Grau assume com clareza os elementos zumbis, dando continuidade […]

  27. […] George Romero (ele mesmo considera seu filme preferido), perdido entre súbitos os fracassos pós A Noite dos Mortos-Vivos (e este foi mais um deles, comercialmente falando) e seu retorno triunfante aos holofotes em […]

  28. […] para não estragar a surpresa deste filme, mas para se ter uma ideia, o que se segue é quase como A Noite dos Mortos-Vivos ou qualquer filme de zumbi moderno, porém trocando as criaturas rastejantes putrefatas por […]

  29. […] é que quando Myers adentra uma das casas para pegar uma nova faca, na televisão está passando A Noite dos Mortos-Vivos de George Romero, uma bela homenagem de […]

  30. […] fazer uma linha do tempo do cinema zumbi desde que Romero reinventou o terror moderno em A Noite dos Mortos-Vivos nos anos 60. Bem sabemos que até então o zumbi era produto de feitiçaria caribenha e só mesmo em […]

  31. Lucas Henderson disse:

    Clássicaaaaço! Uma curiosidade: Ben alega o filme inteiro para não ficarem escondidos no porão, pois eles ficariam sem saida. Entretanto, ele é o único que sobrevive (Somente para ser morto posteriormente confundido com um Zumbi pelo Sheriff) justamente se escondendo no porão.

  32. […] gratuito da violência, algo que faziam habitualmente (só lembrarmos a resenha que Siskel detonou A Noite dos Mortos-Vivos anos […]

  33. […] George A. Romero havia finalizado o que seria até então sua trilogia dos mortos, que contou com A Noite dos Mortos-Vivos, Despertar dos Mortos e Dia dos Mortos, e deixando de lado os zumbis putrefatos canibais, resolveu […]

  34. […] comer carne humana só começaram a ser explorados mesmo por George A. Romero trinta anos depois em A Noite dos Mortos-Vivos. Portanto, A Maldição dos Mortos-Vivos é uma espécie de revisita à gênese haitiana dos […]

  35. […] Fantasma da Ópera, a Múmia, os zumbis (que aparecem em uma sequência P&B em uma homenagem ao A Noite dos Mortos-Vivos do Romero), o monstro de Frankenstein, Jack, o Estripador, o Homem-Invisível, um sacerdote vodu, […]

  36. […] dinheiro em cima de uma obra que ele recebeu praticamente nenhum tostão. Para quem não sabe, A Noite dos Mortos-Vivos original é de domínio público por conta de uma trapalhada dos produtores que deixaram de forma […]

  37. Aarom disse:

    Realmente, EXCELENTE filme! E o “Não se deve profanar o sono dos mortos”? Não entrou na lista dos 1001 filmes?! O filme é fantástico! Merecia demais!

  38. […] Get Out terá a missão de explorar o racismo na América, algo que não é feito no gênero desde A Noite dos Mortos-Vivos de George A. Romero, lançado há 47 […]

  39. […] uma situação de verdadeira claustrofobia, enquanto presos em sua própria casa (ao melhor estilo A Noite dos Mortos-Vivos), a mercê das terríveis criaturas extraterrestres que encurralam o ex-reverendo e fazendeiro […]

  40. […] um clone do Freddie Mercury), fica preso na casa de fazenda de Marion (claro que a referência de A Noite dos Mortos-Vivos estaria presente) e precisam lutar por sua sobrevivência e tentar fugir da cidade […]

  41. […] inspirada no filme A Noite dos Mortos-Vivos do diretor George A. Romero. A banda é tida como fundadora do gênero horror punk e bastante […]

  42. […] 1) A Noite dos Mortos-Vivos (1968) […]

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