227 – De Repente, a Escuridão (1970)

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And Soon the Darkness 

1970 / Reino Unido / 99 min / Direção: Robert Fuest / Roteiro: Brian Clemens, Terry Nation / Produção: Brian Clemens, Albert Fennell / Elenco: Pamela Franklin, Michele Dotrice, Sandor Elès, John Nettleton, Hana Maria Pravda

 

De Repente, a Escuridão é um excelente suspense do diretor Robert Fuest. É quase como um lampejo do que o pessimista cinema dos anos 70 teria a oferecer no gênero em tempos vindouros. E olhe que é uma produção inglesa, mas que começaria a esboçar o pessimismo que permearia o cinema americano na década pós derrota no Vietnã.

O filme também antecipa um gênero que se tornaria muito famoso no cinema de horror: turistas em perigo, inclusive que ganhou um ressurgimento nos últimos anos, muito culpa de O Albergue, de Eli Roth. Fora isso, De Repente, a Escuridão mantém-se constantemente baseado em um sólido suspense, angustiante, onde ninguém parece ser o que realmente é, e que vai prendendo a atenção do espectador até seu final, mantendo sempre uma sensação me medo, impotência, e isolamento, principalmente pelo fato das personagens não dominarem o idioma local, que nesse caso, é o francês.

Fuest é capaz de captar essa atenção utilizando-se de planos muito bem utilizados, cenários desoladores e desertos, sempre com uma bela paisagem da França rural e suas estradas intermináveis e parcialmente inóspitas, bosques de árvores labirínticas, o uso da câmera como se fosse um voyeur acompanhando os passos, ou melhor, pedaladas, das belas jovens, e trilha sonora pontuada de Laurie Johnson.

A trama é bem simples e básica, sem rodeios. Duas turistas inglesas, as beldades Jane (Pamela Franklin) e Cathy (Michele Dotrice) estão de férias pedalando pelo interior da França. A morena Jane é a moça comportada, que quer explorar os encantos naturais da região e sempre se manter em seu itinerário. Em contrapartida, a loira Cathy é a espevitada que está cansada de rotinas e esquemas, e quer aproveitar a viagem, conhecer homens e relaxar. Fatalmente as duas acabarão tendo uma discussão sobre esses diferentes conceitos de viagem, e brigarão, separando o caminho das duas.

Chico?

Chico?

O que elas não sabem é que no local, há três anos ocorreu um terrível assassinato, onde uma turista alemã (igualmente loira, como Cathy) foi dada como desaparecida e depois encontrada morta. E não dá outra, quando Cathy fica sozinha em um bosque, em seu chill-out e acaba sumindo após a amiga ter ido embora, enfezada com a teimosia da outra. Entra em cena os diversos personagens dúbios e suspeitos que Fuest vai lhe apresentando durante todo o longa, que absolutamente nunca ficarão acima de qualquer suspeita.

O principal deles é Paul (Sandor Elès), um bonitão por qual Cathy fica caidassa, que se revela um excêntrico inspetor da Surité que está de férias no local, mas que investiga o assassinato da primeira garota há três anos, e acredita piamente que outro assassinato irá acontecer, o que o faz voltar até o local todos os anos. Paul aparece tentando auxiliar Jane na busca pela amiga, mas suas atitudes são tão desconexas, que fica difícil acreditar no que ele diz e em suas boas intenções, jogando todas as suspeitas sobre o rapaz. Há ainda um estranho casal que possui uma espécie de bar no local, sendo que uma delas, a única que tenta advertir Jane com seu parco inglês (enquanto a garota tem um igualmente parco francês), foi uma das suspeitas do assassinato da turista alemã que chocou o local.

Não obstante, outros dois personagens também nos deixam com a pulga atrás da orelha: o chefe de polícia local e uma antiga professora de francês, também inglesa, que mora no local, e dá uma carona para Jane. O final do filme, o qual eu não revelarei SPOILERS aqui, obviamente revela um twist quando Jane, e nós, já com todas as unhas das mãos roídas, descobrimos quem é o verdadeiro assassino/ sequestrador, mesmo que já tenhamos sacado, de escolados em suspense que somos. É para ser uma surpresa impactante, mas não é tanto assim. O que não desmerece em nada o longa.

Claro que De Repente, a Escuridão possui todos os elementos e clichês básicos do gênero. Mas a forma como Fuest consegue trabalhar seus atores, que vão de dúbios, a carismáticos e sinistros em questão de frames, é o que segura o público na poltrona, mesmo sem precisar apelar para sangue, violência e tortura física. E a narrativa vai empurrando até o final de forma competente, quando o clímax da tensão chegará em seu auge, mais ou menos como a proposta de imitar Hitchcock alardeada no pôster promete. Em 2010, ganhou um remake, que no Brasil levou o nome de Viagem do Medo, onde a França é substituída pela Argentina, como rota de férias das garotas e suas bicicletas. Claro, que por motivos de força maior, os argentinos são muito mais filhos da puta que os franceses, como bem sabemos!!!!

Tour de France

Tour de France

Serviço de utilidade pública.

O DVD de De Repente, a Escuridão não foi lançado no Brasil.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

2 Comentários

  1. Lucas disse:

    “Claro que De Repente, a Escuridão possui todos os elementos e clichês básicos do gênero.”
    Ué, mas como você mesmo disse, não foi esse filme que antecipou o tema “turistas em perigo”? É um mérito ele possuir todas essas características que são copiadas/influências pelos/aos filmes mais atuais.

    • Verdade, Lucas. Ele antecipou este tema, mas quando me referi ao elementos básicos e clichês, quis dizer com relação a todos os demais filmes de suspense que vieram antes dele, com muita inspiração e influências das obras de Hitchcock por exemplo, como até mesmo o pôster se refere. E ainda assim, conseguiu introduzir características novas e ser um thriller empolgante, então realmente é um mérito.

      Obrigado por comentar.

      Abs.

      Marcos

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