230 – O Horror de Frankenstein (1970)

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The Horror of Frankenstein

1970 / Reino Unido / 95 min / Direção: Jimmy Sangster / Roteiro: Jimmy Sangster, Jeremy Burnham / Produção: Jimmy Sangster / Elenco: Ralph Bates, Kate O’Mara, Veronica Carlson, Dennis Price, Jon Finch, Bernard Archard, David Prowse

 

Quem pensa que reboot é um mal apenas da indústria atual do cinema, está redondamente enganado. Começar a contar novamente a história de algum personagem ou dar uma nova diretriz para uma série de filmes já foi utilizado até pela Hammer, o famoso estúdio inglês, com sua segunda mais famosa franquia de monstro.

O Horror de Frankenstein é uma tentativa do estúdio de renovar as peripécias científicas do Dr. Victor Frankenstein e dar uma nova cara ao teor do filme, deixando de lado as características singulares dos anos 60 e trazendo em seu lugar filmes mais cruéis, violentos e sexuais, porém sem o mesmo requinte e esmero (e orçamento, diga-se de passagem), que seus antecessores.

Uma das provas disso é a substituição do eterno Barão Frankenstein vivido pelo distinto Peter Cushing, ator que imortalizou o cientista louco que brinca de Deus e interpretou-o em todos os filmes até aqui, por Ralph Bates vivendo um jovem Frankenstein, muito mais perverso e irônico que seu antecessor, desde sua ida a faculdade de medicina, até sua volta para casa, com seu título, aprendizado e vontade de fazer experiências mirabolantes para criar a vida a partir de partes desmembradas de seres humanos, e claro, um cérebro.

Ainda extremamente distante da obra original de Mary Shelley, é muito fácil detestar Frankenstein neste filme. O cara é um verdadeiro escroto, aproveitador, galinha, egoísta, não demonstra um pingo de lealdade ou amor por ninguém (nem ao próprio pai), trata a governanta como uma escrava sexual (se bem que ela gosta), o melhor amigo e ajudante na pesquisa científica como um peão em seu tabuleiro de xadrez (e ainda mata o infeliz), trata com o maior desrespeito a apaixonada Elizabeth (a ponto de contratá-la como governanta da casa quando ela perde tudo após seu pai ser assassinado – envenenado por Victor, diga-se de passagem – e ter deixado uma batelada de dívidas) e ainda até sacaneia com o ladrão de cadáveres que vende os pedaços humanos ao Barão (tais quais os Assassinatos de Burke e Hare) e sua esposa.

Minhas experiências continuam a mesma, mas os meus cabelos...

Minhas experiências continuam as mesmas, mas os meus cabelos…

Resta-nos torcer pelo monstro, claro (se é isso que não fazemos sempre). Uma versão mais humana e menos monstruoso da criatura, com maquiagem da equipe chefiada por Tom Smith, é interpretada por David Prowse, o mesmo ator que vestiu a roupa de Darth Vader na trilogia clássica Star Wars (dublado por James Earl Jones, como todos já sabemos). Esqueça o verde com pinos de Boris Karloff ou a versão pútrida de Christopher Lee. Aqui, o monstro tem pele humana, algumas cicatrizes de seus remendos, uma cabeçona exagerada (como todo bom monstro de Frankenstein) e usa inicialmente apenas bandagens, para depois vestir uma roupa estropiada em seu corpanzil de quase dois metros de altura.

Com um comportamento agressivo, incapacidade de raciocínio e de formular palavras, por conta de um caco de vidro enfiado no cérebro do outrora proeminente Prof. Heiss (pai de Elizabeth), o gigante acaba virando alvo da vingança do Barão Frankenstein, dando cabo de qualquer um que se meta em seu caminho ou que esteja perto de descobrir a criatura que ele mantém aprisionada no porão. Claro que com a onda de mortes e desaparecimentos, é chamada a atenção da polícia, e o Tenente Henry Becker (Jon Finch), que nutre uma paixão platônica frustrada por Elizabeth (que por sua vez arrasta a asa para Frankenstein e está morando em sua casa neste momento da trama), começa a investigar o acontecido e passa a suspeitar do Barão, já que o monstro sempre é avistado perto de sua propriedade.

O final é deliciosamente maquiavélico. Não pense encontrar o famoso embate entre criador e criatura, marca registrada dos filmes do monstro desde os tempos de Frankenstein da Universal. Pelo contrário teremos um desfecho completamente amoral. ALERTA DE SPOILER. Pule para o próximo parágrafo ou leia por sua conta e risco. Encurralado pela polícia e por dois camponeses, um pai e sua filha como testemunhas, no seu laboratório, Victor mantém sua cara de pau ao limite e desafia o oficial a vasculhar sua residência que não encontraria nada por lá, porém não sem um mandado, enquanto mantém o monstrengão escondido em seu tanque. A pequena camponesa pentelha começa a mexer em todas as roldanas e alavancas do laboratório, tirando o Barão do sério, até que acidentalmente libera a comporta que despeja ácido no tanque e já era. Dessa forma, o Barão com uma cara de tacho vê sua preciosa criação destruída sem querer por uma inofensiva garotinha.

O Horror de Frankenstein não é um primor de filme, e muito menos o melhor da franquia do cientista louco e de seu monstro da Hammer. Mas é outra visão de uma história batida que sabemos de cor e salteada e que se encaixa nos novos padrões de filmes do estúdio inglês na década de 70, marcando já o começo da decadência da Casa do Horror, com suas produções mais cruas e com menos requinte do que na década anterior, quando ela reinava absoluta neste terreno cinematográfico.

Antes de Vader...

Antes de Vader…

Serviço de utilidade pública:

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Download: Filme com legenda aqui. Senha para descompactar: possuidoporfilmes.blogspot.com


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

2 Comentários

  1. […] vestiu a roupa de Darth Vader na trilogia original de Star Wars, e já havia vivido a criatura em O Horror de Frankenstein, filme que não pertence à franquia) não irá obedece-lo, e revoltado, dotado de selvageria e […]

  2. Frankenstein da Silva disse:

    Adorei a matéria, esse filme é muito divertido, foi o primeiro filme de Frankenstein que assisti na vida.

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