232 – Trog – O Monstro das Cavernas (1970)

trog_poster_01

Trog

1970 / Reino Unido / 93 min / Direção: Freddie Francis / Roteiro: Aben Kandei, Peter Bryan e John Gilling (história) / Produção: Herman Cohen, Harry Woolveridge (Produtor Associado) / Elenco: Joan Crawford, Michael Gough, Bernard Key, Kim Braden, David Griffin


Pense em um filme bisonho. Pensou? Eleve esse filme bisonho a enésima potência e você terá Trog – O Monstro das Cavernas. Produção tosca do mais alto gabarito, que torna-se divertidíssimo por se levar a sério demais e por ter a outrora grande estrela de Hollywood, Joan Crawford, em seu elenco.

Trog – O Monstro das Cavernas é uma calamidade cinematográfica. E assim, parece ser uma miragem dos seus olhos você ver Joan Crawford, com seus 65 anos, atuando em uma fita como essa. O nome de Crawford caminhou junto com a história do cinema e a idealização do status quo da indústria de Hollywood com seus astros e atrizes imortais e irretocáveis, que viviam anos luz de nós, simples mortais. Ganhou um Oscar® em 1946 e foi indicada outras duas vezes, e para nós, fãs do horror, é conhecida desde os tempos do cinema mudo, quando fez Lon Chaney perder a cabeça (e os braços!!!) em O Monstro do Circo e sua presença marcante em O Que Aconteceu com Baby Jane?, filme que ressuscitou sua carreira, assim como de sua nêmese, Bette Davis, e deu início a um subgênero chamado psycho biddies, onde mulheres maduras passavam por perigos e ataques de loucura.

Mas como tudo tem uma ascensão, apogeu e queda, aqui vemos Miss Crawford, essa outrora diva do cinema, contracenando com um rapaz vestido com uma máscara de borracha de macaco (resquícios da cena de abertura de 2001 – Uma Odisseia no Espaço), tosquíssima, que faz o papel de Trog (na verdade o lutador de luta livre Joe Cornelius), diminutivo de troglodita, encontrado em uma caverna subterrânea por um grupo de três exploradores, descongelado após anos e anos hibernando em estado criogênico, depois de ter sobrevivido à Era Glacial.

Crawford interpreta a antropóloga Dra. Brockton, que fica incumbida, junto do jovem assistente Malcolm Travers (David Griffin) e de sua doce filha, Anne (Kim Braden) da “maior descoberta da ciência”, como ela gosta de enfatizar, pois estudar o comportamento de Trog, é olhar para a própria evolução do homem, já que ele pode ser o elo perdido entre o macaco e o homem. Trog precisa ser tratado com paciência e compaixão, pois apesar de ser “uma criança retardada”, como também gosta de enfatizar a antropóloga, possui uma natureza selvagem incontrolável (afinal já havia matado dois dos exploradores que o descobriram no sossego de sua caverna).

Grrrrraaarrrrh

Grrrrraaarrrrh

Preso em uma jaula, Trog no início começa a ser tratado como um animal de estimação em uma coleira, mas conforme se desenvolve o relacionamento entre o ser primitivo e a Dra. Brockton, e principalmente com sua filha, por quem cria um grande afeto emocional, os experimentos com o troglodita vão evoluindo para a utilização de brinquedos, cores e música. O nosso ancestral reage a alguns comportamentos padrões tanto humanos quanto animais. Por exemplo, a cor azul traz a sensação de tranquilidade, e a cor vermelha, o torna agressivo. Assim como a música. Ao colocar um disco de música clássica, Trog fica encantado, mansinho, dançando em sua jaula, mas ao colocar um rock ‘n’ roll, ele fica completamente transtornado querendo quebrar tudo (e não é assim que funciona na vida real para os rebeldes incorrigíveis?).

Agora o mais engraçado é o apreço de Trog por bonecas, ao invés de brinquedos de corda barulhentos e, digamos, de meninos, e toda sua meiguice, por exemplo, ao se encantar com o lacinho rosa de Anne, a sua melhor amiga, trazendo diversas conotações de que talvez, o elo perdido seja homossexual. Ai se Marco Feliciano soubesse disso… O cineasta e crítico Rubem Biáfora, fã confesso de Trog – O Monstro da Caverna, escreveu em sua resenha para o jornal O Estado de São Paulo na época: “Embora seja do sexo masculino, usa mina saia de pele e botas felpudas”.

O vilão da história, que quer atrapalhar de qualquer jeito as experimentações e conclusões da Dra. Brockton, dizendo ser uma imensa perda de dinheiro do contribuinte, é o burocrata Sam Murdock, interpretado pela figurinha carimbada do cinema de horror britânico, Michael Gough. Para ele, a criatura é um animal irracional que apenas traz perigo à comunidade, uma ameaça em potencial, uma bestialidade que precisa ser destruída. A polícia também compactua com suas ideias, e isso leva a incansável doutora a um julgamento para decidir a sorte de Trog, após ele ter estraçalhado um pastor alemão sem dó nem piedade (sentimentos que desconhece, obviamente) sendo obrigada a encarar um bando de moralistas que ainda acreditam que o homem veio do barro em plenos anos 70 (e não é que acreditam até hoje????), tendo que reivindicar a teoria da evolução das espécies de Darwin a todo o pulmão e defender a vida daquele nosso tetravô.

Veja Trog, a que ponto chegamos!

Veja Trog, a que ponto chegamos!

Claro que a situação vai dar merda quando Murdock decide libertar a criatura, exatamente para que ele possa cometer seus selvagens e nefastos atos de sobrevivência, e assim poder comprovar sua tese, já que o julgamento foi ineficaz para ele, mesmo tendo se mancomunado com um dos cientistas traíras, outrora parceiro da Dra. Brockton. O hominídeo começará sua onda de terror e assassinato, pendurando um açougueiro em um gancho de carne (muito antes de Leatherface, tá!) no momento mais violento do filme, e raptando uma criancinha indefesa, tal qual já fizera O Golem e Frankenstein antes dele. Trog é encurralado na mesma caverna que foi seu habitat durante milênios, e o exército entra em cena, e quando isso acontece, já sabemos como a história termina.

Apesar da atuação magnânima de Miss Crawford, que por mais improvável que pareça, transformou Trog – O Monstro da Caverna, em um filme de Joan Crawford, como sempre fez em sua vida, fazendo com que diretor, atores e todo e qualquer componente do filme orbitem ao seu redor, ela ficou chateadíssima com o resultado final do filme (e não era para menos?) e com as pesadas críticas e se aposentou logo após essa fita. Melancólica sua última cena nas telonas, ela sendo questionada por um repórter, e afastando o microfone, sem ter nada a declarar. Assim como provavelmente, não há nada para se declarar sobre a bisonhice desse filme.

Uma das cenas mas toscas, que talvez fosse dessas que envergonharam Miss Crawford no final das contas, é quando um radiotransmissor é implantado em Trog, e assim, olhem só que absurdo, os cientista podem ver o que se passou com o troglodita em seu tempo, e cometem um absurdo e imperdoável erro histórico e científico, e somos testemunhas oculares, tal qual o primata, de poderosas batalhas de dinossauros feitas em stop motion (retirados do filme O Milagre da Vida, dirigido por Irwin Allen e com efeitos do mestre Ray Harryhausen) e de sua suposta extinção em massa. Ao terminar o flashback, close em Crawford com os olhos marejados, por saber que aquela pobre criatura presenciou tamanha catástrofe. Ah vá!

Claro que apesar de todos esses pormenores acima citados dessa baboseira (a história original é de John Gilling, que já havia dirigido Epidemia de Zumbis, A Serpente e A Mortalha da Múmia para a Hammer) e da direção preguiçosa e fraquíssima de Freddie Francis (que dirigiu também para a Hammer O Monstro de Frankesntein e Drácula – O Pefil do Diabo, além de algumas antologias da Amicus como As Profecias do Dr. Terror e As Torturas do Dr. Diábolo –  e vejam só, ganhou dois Oscars® como diretor de fotografia e foi indicado a diversos BAFTAs) adorei Trog – O Monstro da Caverna, como bom fã de podereira que sou, e é altamente recomendável para aquela sessão pipoca com os amigos para dar boas risadas. Só não leve-o a sério, como infelizmente, os realizadores deste filme o fizeram. E ah, dê preferência para a versão dublada que rola por aí na Internet, com a dublagem clássica, tal qual foi exibida na antiga TVS  (hoje SBT) no início dos anos 80.

Uma criança retardada... A peluda tá!

Uma criança retardada… A peluda tá!

Serviço de utilidade pública:

Compre o DVD de Trog – O Monstro das Cavernas aqui.

Download: Torrent (sem legenda em português) aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: