235 – Valerie e sua Semana de Deslumbramentos (1970)

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Valerie a týden divu / Valerie And Her Week Of Wonders

1970 / Tchecoslováquia / 73 min / Direção: Jaromil Jires / Roteiro: Jaromil Jires, Ester Krumbachová (baseado na obra de Víezslav Nezval) / Produção: Jirí Becka / Elenco: Jaroslava Schallerová, Helena Anýzová, Petr Kopriva, Jirí Prýmek, Jan Klusá


Valerie e sua Semana de Deslumbramentos é uma obra surrealista ao extremo, vinda da Tchecoslováquia (atual República Tcheca) e dirigida por Jaromil Jires, um dos principais diretores da chamada “New Wave tcheca”. Em uma metáfora onírica sobre o afloramento de uma garota de 13 anos, a heroína do filme se vê as voltas de ameaças corruptoras de sua pureza em figuras como um padre vampiro assustador e um policial pedófilo.

Em uma espécie de conto de fadas abstrato sobre o despertar sexual feminino, a Valerie do título (interpretada pela ninfeta Jaroslava Schallerová) é cercada por intrigas familiares e pesadelos oníricos. O filme de Jires passeia em um tênue linha entre o horror gótico, o drama, a fantasia e os filmes eróticos soft-cores europeus do início dos anos 70, porém buscando uma linha artística que desenha uma espécie de círculo mágico de acontecimentos que segue Valerie tendo como ponto de partida um par de brincos que ganha logo no início do filme, e que representa os segredos do sexo.

Muito complicado né? Pois o filme não é nada fácil, e precisa-se estar realmente no clima para conseguir assisti-lo. Entre várias imagens lúdicas e carnavalescas entrecortadas como pano de fundo, Valerie é jogada no meio de uma série de eventos inusitados e estranhíssimos, com personagens complexos à sua volta, e tão misteriosos quanto insolúveis. Por exemplo, o padre vampiro (que lembra bastante o visual de Nosferatu – Uma Sinfonia de Horror), que tenta coagi-la sexualmente, e que fora outrora um bispo e também pode ser possivelmente o pai da garota, e pode ou não ser seu irmão (???!!!).

A semana de Valerie

A semana de Valerie

O fio condutor que nos faz acompanhar esse peculiar momento da vida de Valerie é a inveja de sua avó, que também pode ser que possivelmente seja a mãe da garota, pode ou não ser sua irmã (??!!!), que há muito tempo desatinou um drama familiar, e busca pela volta de sua juventude perdida, não medindo esforços para tal, até barganhar com o sinistro bispo vampírico e conspirar com o assassinato de Valerie.

Como em um sonho, em determinados eventos os personagens vão mudando tanto de papeis quanto de aparências, sempre associados com os resultados de causa e efeito. Além disso, o uso de todos esses simbolismos se justapõe a paisagens rurais, cidades medievais, feras livres, moinhos e criptas góticas onde nunca nada é realmente o que parece nesse filme.

A única coisa realmente fixa nesse filme é Valerie, e somos os espectadores, assim como a própria, do baile de máscaras familiar e as diversas subtramas que cada um desses personagens traz à tona de suas próprias maneiras. E mediante sua curiosidade em descobrir personagens e locais (tal qual Alice no País das Maravilhas) e deixar de lado sua inocência para conhecer a volúpia e o medo, vai envolvendo-se de forma inebriante numa trama de coação sexual, incesto, pedofilia, infanticídio, bruxaria, vampirismo e hipocrisia religiosa. E nessa escalada, apenas conforme Valerie vai descobrindo sua própria sexualidade, e aprende mais sobre seu desejo, quebrando os ignorantes laços que unem mal e sedução, ela conseguirá prevalecer.

Ambientes tétricos

Ambientes tétricos

Jaromil Jires segue os caminhos de Bergman, Fellini e Buñuel para contar a sua história sobre a sedução da monstruosidade, agressividade, sensações voluptuosas e duplicidade que aflige nossas heroína e sua família disfuncional, embasado nas teorias freudianas e ao mesmo tempo, deixar implícito os ecos da antiga Tchecoslováquia comunista, onde as tensões surgem da troca de poderes, de personas e as figuras das autoridades podem ser lidas, porque não, como a família de Valerie. Além de abraçar o surrealismo e negar e abandonar o realismo soviético.

Fora isso, destaque para o roteiro de Jires junto com Ester Krumbachová, baseado no livro de Vietslav Nezval, um dos mais prolíficos escritores vanguardistas tchecos da primeira metade do século XX e co-fundador do movimento surrealista no país, que dá pano para manga a horas de discussões de psicanálise, e para a excelente cenografia e figurino.

Conto de fadas ou alegoria política, Valerie e Sua Semana de Deslumbramentos, que é a semana que representa o período da sua primeira menstruação, é um retrato do descobrimento da violência sexual que vive à volta da garota, esperando o final da inocência para mostrar suas presas vampirescas, conforme a garotinha adentra neste mundo.

O terrível Doninha

O terrível Doninha

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Valerie e Sua Semana de Deslumbramentos não foi lançado no Brasil.

Download: Torrent + legenda aqui.

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

4 Comentários

  1. Marcos, bom dia. Existe a possibilidade de vc postar “O Dia Em Que A Terra Parou” de 1951 na versão colorizada? Grande abraço.

    • Oi Sérgio.

      Poxa, eu acabei não postando “O Dia Em Que A Terra Parou” e não tenho mais como postar agora, porque estou seguindo uma ordem cronológica. Até tinha pensado na época, mas considerei pouquíssimos elementos de horror e muito mais de sci-fi mesmo, então acabou ficando de fora. Sabe como são listas né? Mesmo 1001 filmes, sempre vai ficar coisa faltando.

      Vou ficar te devendo essa!

      Grande abraço.

      Marcos

  2. Bruna Nogueira disse:

    Um dos filmes que mais impactou-me e ficou pairando na minha mente nos últimos meses. É precioso!

  3. Lucas Henderson disse:

    Ótimo ver um filme que não fica no eixo EUA/Reino Unido/ Itália/França/Japão. Excelente produção e um enredo brilhante. Uma pergunta: Por quê não foi incluido “Laranja Mecânica”?

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