24 – Monstros (1932)

Freaks

1932 / EUA / P&B / 64 min / Direção: Tod Browning / Roteiro: Tod Robbins / Produção: Tod Browning, Harry Rapf, Irwin Thalberg / Elenco: Wallace Ford, Leila Hyams, Olga Baclanova, Roscoe, Henry Victor

 

Monstros com certeza é um filme que foi feito somente no intuito de chocar. A ideia de Tod Browning era fazer um filme de terror que superasse tudo aqui já feito até então, algo extremamente perturbador, jamais visto no cinema. E qual foi o método brilhante encontrado pelo diretor? Usar aberrações de verdade em seu elenco. É isso mesmo! Na trupe circense do filme, você vai encontrar anões, gêmeas siamesas, deformidades, crianças com malformação congênita, pessoas sem membros e com atrofia muscular, e tudo que se tem direito.

O filme começa com um longo e maçante texto sobre as deformidades, as aberrações de circo e por aí vai, para em seguida, um apresentador de parque de diversões assegurar que os espectadores estão prestes a encarar a maior monstruosidade já vista. Hans é um anão de circo, noivo de Frieda, que na verdade morre de amores pela bela trapezista Cleópatra, uma das pessoas “normais” do show e o faz de trouxa, em troca de mimos e presentes.

Só que Cleópatra, na verdade tem um caso com o musculoso Hércules, e descobre que Hans é herdeiro de uma vasta fortuna. Querendo dar o golpe do baú, a trapezista se casa com o pequeno só para por em prática, em conluio com Hércules, seu sórdido plano de envenenar Hans para ficar com sua grana.

Pode uma mulher crescida amar de ver verdade um anão? Hein?

Não precisa nem dizer que as coisas não vão sair como ela imagina. Durante a festa de casamento, acontece a cena mais emblemática do filme, quando as aberrações começam a dançar e cantar, saudando a noiva como um deles, até ela surtar e começar a humilhá-los, gritando que eles todos são sujos e repugnantes. O clima sinistro de verdade no filme só começa no terceiro ato, onde vamos conhecer o “código das aberrações”. Eles ficam espreitando cada passo de Cleópatra e Hércules, rastejando assustadoramente atrás deles, esperando o momento certo da vingança.

Ao término, voltamos ao parque de diversões onde Cléopatra está transformada na tal “maior monstruosidade já vista”, mas não me pergunte como eles chegaram naquele resultado. Uma cena final ainda foi inserida a fórceps pela MGM para dar aquele ar de final feliz ao filme.

Alguns críticos acham Monstros o melhor filme de Tod Browning, e olha que o cara tem Drácula e O Monstro do Circo na sua filmografia. Eu acho um filme de um mau gosto danado, sem nenhum propósito e chato em sua maior parte do tempo (felizmente só tem 62 minutos de duração). Mas há de se dar um mérito pela ousadia de em 1932, Browning provar que o cinema transgressor tem seu público e admiradores. Se você é fã do bizarro e grotesco, não deixe de ver Monstros.

Cinema exploitation na década de 30 é isso daí.



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

18 Comentários

  1. […] minutos) da fita, a revelia de Browning. O estúdio estava preocupado com o exagero do diretor em Monstros e fez questão de passar a foice (eliminando até uma possível insinuação de incesto e a […]

  2. […] foi o primeiro a fazer um filme, digamos, transgressor para chocar o público com o controverso Monstros e também é responsável pela melhor atuação de Lon Chaney no incrível O Monstro do Circo. […]

  3. Gostar ou não de um filme é algo que vai do íntimo e da formação de cada um. Contudo teu comentário peca em algo ao meu ver temeroso. O filme tem só 62 minutos por um motivo criminoso. Foi mutilado pelo estúdio. Por isso o que vemos soa truncado e é necessário um maior esforço para preencher as lacunas. O original de acordo com seu diretor tinha aproximadamente 100 minutos. Na pré estréia, teste para o lançamento, desagradou a sociedade puritana de antanho e foi recolhido para ser modificado com cortes. Duro saber que hoje não pode ser restituído a sua concepção original(originais perdidos). Um crime contra a arte

    • Olá Conde.

      Sim, existe o fato do filme ter sido mutilado pela MGM. Mas ainda acho chato e sem propósito mesmo assim. Não sei se com 100 minutos seria melhor ou não (infelizmente nunca saberemos). Como você mesmo disse, gostar de um filme é algo que vem do íntimo da formação de cada um, e opiniões diferentes são o ideal para se praticar o exercício cinematográfico, por isso agradeço demais seu comentário. 😉

      Fique à vontade para expressar suas opiniões por aqui sempre que quiser.

      Grande abraço.

      Marcos

  4. Legal Marcos. Tem muito filme que eu também não aprecio. O que não gostei em teu escrito foi o “felizmente”. Se não tivesse ocorrido a mutilação caberia perfeitamente como expressão de tua opinião. Como ela ocorreu o “felizmente” não deveria ter sido colocado. “Infelizmente” houve uma mutilação que não permite que o vejamos como foi concebido originalmente. E estou gostando muito de navegar pelo teu espaço. Preciso ver se consigo assistir muitas preciosidades que desconheço e que tomei conhecimento por aqui. Abraços.

    • Oi Conde.

      Confesso que também não estava no clima para assistir ao filme quando escrevi a resenha. Já tinha visto antes, e por isso saiu o “felizmente”. Acabou saindo muito sincero! 😉

      Também fiquei navegando pelo seu blog e parabéns! Achei incrível. Já tenho um novo favorito!

      Obrigado.

      Grande abraço!

      Marcos

  5. […] o egiptólogo Tod Browning (sim, mesmo nome do famoso diretor de terror responsável por Drácula e Monstros) e vive tranquilamente com seu pai, até que ela ganha na véspera de seu aniversário o anel […]

  6. Renato França. disse:

    Um dos anões do filme também participou do filme ´´Mad Max 3´´.

  7. Luis Portugal disse:

    Esse filme é um marco na história de todo cinema já alguma vez feito, quer se goste do genero ou não. Mas já agora que género é? Considero esse como um “Drama Disturbador” não aconselhável para todos os estômagos. Só agora sei que o filme não está completo (e que pena).
    Freaks é excelente e a frase “-You are one of us!” Épica

  8. […] em O Monstro do Circo: Tod Browning, que mais tarde viria a dirigir os clássicos Drácula e Monstros, e Lon Chaney, o Homem das Mil Faces, estrela de O Corcunda de Notre Dame e O Fantasma da Ópera. E […]

  9. Pronto Viciei no Site kkk..

    Uma observação a lista de Filme. O nome A múmia está invertido com Monstros.

    Está 24 – A Múmia (1932) – Porém é Monstros
    Está 25 – Monstros (1932) ´Porém, é A múmia

    Valeu pessoa ótimo site

  10. Papa Emeritus disse:

    Fala, Marcos. Tava lendo algumas resenhas sua até chegar nessa aqui. Eu discordo de alguns pontos de você em relação ao filme. Pra mim ele é sim a obra-prima do Tod Browning. Acho esse filme muito melhor que Dracula. E tem mais, você citou que acha o filme de um “mau gosto danado”, então eu recomendo pra você um filme indiano chamado “Naan Kadavul” lançado em 2009. Aí você vai ver o que é um filme de “mau gosto” (Naan Kadavul também é recheado de deficientes físicos, mas é apelativo pra burro, pois os deficientes no filme fazem papel de miseráveis que são humilhados e torturados por criminosos).

  11. Daniela disse:

    Entendo que é difícil ver esse filme, por causa dos FREAKS. Mas acho que eles são essenciais para a proposta da obra. Se fossem “falsos” todo o impacto se perderia na falsidade (American Horror History percebeu isso e usou alguns FREAKS em sua 4 temporada). Apesar de todos os minutos jogados no lixo pela MGM ( o que faz a historia passar apressada demais) ainda acho que esse é o melhor filme de Tod Browning. Mas, sou suspeita pra falar. Uma vez que acho seu DRÁCULA um filme bem medíocre, que soa falso e pouco inspirado. Nunca entendi porque mundo tem essa adoração por ele visto que existem outras versões que são infinitamente melhores e mais significativas para a evolucao da linguagem cinematográfica.

    Thanks pelo ótimo site.

  12. Hanasl disse:

    O filme é excelente, a premissa do início dá o ritmo do filme, não se trata apenas de ser um freak show, se trocarmos as pessoas “estranhas” por gente normal veremos que a história se encaixaria da mesma forma. Claro, hoje em dia não tem o impacto daquela época, mas estamos falando num clássico que resolveu mostrar algo que até então era um tabu, que monstruosidades não estão nas aparências, mas nos atos. O filme acabou mutilado pelo tabu da época, mas o que restou ainda é algo que faz pensar e se fez tanta gente pensar por tanto tempo, é digno de ser eleito, como é, um dos grandes filmes de todos os tempos. Pessoalmente acho um erro tratar o filme como filme de horror, porém isso é um pensamento pessoal.

  13. Mateus disse:

    Primeiramente: parabéns pelo site! E uma dúvida, vocês não disponibilizam mais os links pra download?

  14. Evaristo disse:

    Discordo totalmente da parte que diz sobre o filme não ter nenhum propósito.
    Ele se chama MONSTROS pelas pessoas “normais” – Cleópatra e Hércules, representando beleza e força, respectivamente. Eles que são os monstros de verdade. Ao meu ver é apenas uma reflexão sobre como somos preconceituosos em um primeiro momento com pessoas com deficiência , ou melhor, temos pouco respeito em relação a eles.
    E isso ainda se reflete nos dias de hoje, uma forma é ver como as pessoas estacionam em locais que têm rebaixo nas calçadas que são para cadeirantes, além de estacionarem em local proibido. A alegação é que “só vou demorar um minuto”. Acho f… isso. E existem outros exemplos que nem é melhor mencionar aqui.

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