245 – Encurralado (1971)

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Duel

1971 / EUA / 90 min / Direção: Steven Spielberg / Roteiro: Richard Matheson / Produção: George Eckstein / Elenco: Dennis Weaver, Jacqueline Scott, Eddie Firestone, Lou Frizzell, Gene Dynarski, Cary Loftin

 

Comecei a assistir novamente Encurralado para escrever essa humilde resenha que você lê exatamente às 02h40 de uma madrugada de sexta para sábado. Por que essa informação é valiosíssima? Porque é em um horário e dia da semana, que talvez você e muitos outros de minha geração tenham visto este filme pela primeira vez, nas centenas de reprises exibidas no Corujão da TV Globo.

Encurralado, primeira incursão oficial de Steven Spielberg na direção é o road movie de perseguição definitivo. Feito para TV, já nos dá plena noção do porquê do diretor ter sido credenciado para dirigir o imortal Tubarão na sequência. Afinal, o filme é uma tensão e suspense constante, com uma história simples e minimalista, daqueles de até doer o estômago de nervosismo.

E explico o meu motivo: Você dirige? Já pegou estrada? Eu tenho um carro 1.0 flex, com um motorzinho sem vergonha. E sempre pensamos que os caminhões são o verdadeiro mal do trânsito! Ou vai negar? Agora imagine você na situação daquele pobre e ordinário pai de família, enfrentando o desolador deserto sem fim e uma estrada inóspita, com um Fenemê daquele tamanho na sua rabeira, tentando passar por cima de você? É de meter medo em qualquer um, porque diferente de um demônio, espírito, vampiro, zumbi ou lobisomem, é só um motorista folgado (talvez louco de arrebite), psicopata, querendo acabar com a sua raça sem nenhum motivo aparente, só porque o escolheu para praticar o bullying rodoviário da vez.

O roteiro escrito pelo brilhante Richard Matheson é simples e sem rodeios. O vendedor David Mann (interpretado de forma precisa e convincente por Dennis Weaver) está em uma estrada na Califórnia e começa a ser perseguido por um caminhoneiro maluco, dirigindo um imenso caminhão Peterbilt 281 de abastecimento de combustível, após David com seu Plymouth Valiant 1971 ultrapassá-lo. Daí começa o verdadeiro duelo (título original do filme) entre os dois motoristas, carregados de uma tensão progressiva descomunal de terror psicológico e um senso de ritmo magistral, que só Spielberg seria capaz de imprimir. É uma escalada de eventos somatórios de um dia infernal, que culmina no trânsito, um dos maiores estopins cotidianos de crises de estresse e loucura (e até assassinatos, como bem sabemos).

Não olhe para trás!

Não olhe para trás!

E certos detalhes, alguns nuances do filme que tornam Encurralado um primoroso exercício de suspense. Primeiro pelo fato de nunca vermos o rosto do caminhoneiro e saber como é na verdade o figura que está perseguindo nosso herói. Outros são alguns closes, as olhadas no retrovisor, a estrada interminável, a ideia de que o carro não está em suas perfeitas condições para a viagem (como a mangueira do radiador, alertado por um frentista, que pode acabar com a vida de David, ou de cada um de nós que pega estrada com um carro), o ambiente hostil do deserto, e dezenas de situações e dúvidas que atormentam o personagem principal.

Um das principais cenas de Encurralado é quando David está em um café de beira de estrada, após quase ser morto, tentando recobrar-se da situação inverossímil e vê estacionado o caminhão de sua nêmese no mesmo local. Quem poderá ser o motorista psicopata, no meio de todos aqueles sujeitos mal encarados sentados nas mesas ou balcão, usando calças jeans e bota (único detalhe que David pode perceber em seu encontro no posto de gasolina para abastecer anteriormente)? David vai criando teorias, tentando manter sua sanidade, até estourar com um dos ali presentes e se envolver em uma briga, somente para descobrir que o mesmo não era o caminhoneiro louco, exatamente quando ele sai do café, perscrutado por David, e entra em outro veículo para ir embora. Ou seja, o psicótico ainda está ali, David não faz a menor ideia de quem seja e ele foi testemunha ocular do destempero do homem. Simplesmente sensacional.

O desfecho dessa frenética paranoia motorizada é de causar úlcera. O personagem, que é um bunda mole, tem sua coragem questionada por sua esposa (por ter sido assediado por um colega da sua firma), transmite uma insegurança exacerbada, e é obrigado a confrontar o seu medo primal, na forma daquele caminhão gigante ameaçador, com motor alterado para alcançar altas velocidades (a perseguição dos dois chega à casa dos 150km por hora!!!!) em meio a uma onda de desespero quando seu carro, já todo judiado, começa a deixá-lo na mão, soltando fumaça por todos os lados, e o seu algoz intensifica a perseguição, impiedosamente, até o último momento.

Encurralado catapultou Spielberg ao panteão que ele alcança hoje em dia com méritos (apesar de ter deixado essas produções obscuras de lado e se focado só nos dramalhões oscarizados, o que é uma pena) e também foi o responsável pela mítica de filmes de perseguições alucinadas em estradas, bem comuns em filmes de terror, tendo inspirado diversas produções vindouras como O Carro – A Máquina do Diabo (outro clássico das reprises das madrugadas da TV aberta), o episódio A Benção, da antologia Pesadelos Diabólicos ou o mais recente (mas nem tanto, pois já estamos em 2013) Perseguição.

Como estou dirigindo?

Como estou dirigindo?

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

11 Comentários

  1. Lu disse:

    filme fantástico, ansiedade do começo ao fim. Spielberg caprichou.

  2. […] e escritor Richard Matheson (Mortos que Matam, As Bodas de Satã, O Incrível Homem que Encolheu, Encurralado, e por aí vai), baseado em seu próprio livro, muito do que se vê nesse filme é inspiração […]

  3. […] filmes feitos para a TV, principalmente tratando-se do cinema de horror. Temos como bons exemplos Encurralado, de Steven Spielberg e Balada para Satã de Paul Wendkos, além de diversos outros, é claro. […]

  4. […] nos padrões para ser um enlatado televisivo e seguindo a linha de outro clássico feita para TV, Encurralado, de Steven Spielberg e pegando carona (com o perdão do trocadilho) em Corrida com o Diabo de Jack […]

  5. […] Poe dirigidas por Roger Corman e estreladas por Vincent Price), As Bodas de Satã, da Hammer, e Encurralado, filme para TV nos primórdios da carreira de Steven Spielberg como diretor, entre […]

  6. […] e filmes como O Incrível Homem que Encolheu, Mortos que Matam (e a refilmagem Eu Sou a Lenda), Encurralado e Ecos do Além, e alguns episódios das séries Além da Imaginação e Histórias Maravilhosas, […]

  7. […] quando passa a ser perseguido por uma infernal picape preta toda filmada, aos melhores moldes de Encurralado ou O Carro – A Máquina do […]

  8. […] quando passa a ser perseguido por uma infernal picape preta toda filmada, aos melhores moldes de Encurralado ou O Carro – A Máquina do […]

  9. […] pegada de um thriller com road movie, que me lembrou na lata o clássico das reprises da madrugada, Encurralado de Steven Spielberg, mais A Morte Pede Carona e Corrida com o Diabo. Eis que depois de muitos anos […]

  10. Demencia 13 disse:

    Também assisti este filme nas madrugas do Corujão. Realmente tenso:
    Primeiro que parte da premissa de que não é necessário milhões de dólares para fazer um bom filme além do quê o mais angustiante, como dito no artigo é que não se trata de Mann ser perseguido por uma entidade sobrenatural mas sim por um humano como ele. Realmente algumas cenas dão nos nervos pela aversão de Mann pela velocidade mas assistindo novamente o filme percebi algumas coisas subliminares:
    Primeiro que a placa do carro parece formar um acróstico de ‘Peace’ para deixar claro que o condutor é do tipo calmo e o carro em si é uma ironia já que é um Plymouth Valiant e se tem algo que David Mann definitivamente não tem é valentia.
    Meu pai disse que assistiu o filme no cinema e contou que do momento que começa a sair fumaça do carro até o derradeiro final o silêncio dominou o cinema. Ninguém falava ou fazia ruido algum mantendo os olhos fixos na tela.
    Só encontrei uma brecha feia… Quando o caminhão vai cair no penhasco é possivel ver a porta do motorista aberta. Provavelmente Carey Loftin, ao pular do caminhão não teve tempo de fechar a porta e Spielberg deixou esta passar. Mas nada que desabone o filme.

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