246 – Escravas do Desejo (1971)

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Les lèvres rouges / Daughters of Darkness

1971 / Bélgica, França, Alemanha Ocidental / 100 min / Direção: Harry Kümel / Roteiro: Pierre Drouot, Harry Kümel, Jean Ferry (diálogo), Manfred R. Köhler (não creditado) / Produção: Paul Collet, Henry Lange, Luggi Waldleitner (não creditado), Pierre Drouot e Alain C. Guilleaume (Produtor Associado) / Elenco: Delphine Seyrig, John Karlen, Danielle Ouimet, Andrea Rau, Paul Esses

 

O cultuado filme de Harry Kümel, Escravas do Desejo, é uma produção belga-franco-germana que está naquele patamar dos filmes de vampiro interessantíssimos, atmosféricos e carregado de sensualidade e explosão erótica, típico das produções europeias com esse teor permissivo do começo dos anos 70.

Calcado no lesbianismo vampírico, possivelmente inspirado (e indo além) pelos temas levantados no seminal Carmilla de Sheridan Le Fanu, Escravas do Desejo é mais poético e extasiante do que os exageros eróticos de nudez exacerbada de diretores como Jean Rollin ou Jesús Franco. É aquele tipo de filme que é uma bomba de explosão sexual, onde todos os personagens, tanto os vampiros quanto suas vítimas humanas, estão envoltos em um inebriante jogo de sedução poderosíssimo. Por isso é considerado o mais classudo filme sobre vampiras lésbicas já feito.

Pegando carona na lenda da Condessa Elizabeth Bathory, que acreditava-se banhar em sangue de virgens para manter a sua juventude e imortalidade (também inspirador do filme da Hammer do mesmo ano, A Condessa Drácula, com Ingrid Pitt no elenco), o pródigo Kümel usa essa premissa para criar seu filme “comercial”, que para ele significava não ter de passar pelo constrangimento da aprovação do governo e ir o mais longe possível em explorar a nodosidade do assunto, porém com uma atitude artística.

Só de olho...

Só de olho…

Dois jovens, Stefan (John Karlen) e Valerie (Danielle Ouimet), casam-se secretamente na Suíça e pegam um trem com destino a sua lua de mel na Alemanha, hospedando-se em um praticamente abandonado hotel de veraneio em pleno inverno, o que os daria tranquilidade até que eles fossem encarar a mãe de Stefan e contar a ela sobre o casamento, algo, que por nenhum motivo revelado, ele tenta protelar ao máximo, deixando-se permanecer no local por mais tempo que o combinado.

Neste mesmo hotel, a Condessa Bathory, interpretada glamourosamente por uma bela e madura Delphine Seyrig, vive com sua amante Ilona (Andrea Rau), uma morena de cabelos curtos e olhar hipnótico e sedutor. A presença dos dois jovens aguça os sentidos da mulher que rapidamente, começa um jogo massivo em cima dos dois, indefesos dos poderes sedutores da vampira e incapazes de resistir. Stefan começa a se sentir estranhamente atraído pela morte (diversas garotas são mortas misteriosamente na cidadela próxima, encontradas sem nenhuma gota de sangue) e torna-se introspectivo e agressivo, chegando até a espancar a pobre esposa com um cinto em uma das cenas mais impactantes do longa.

Neste momento, Valerie humilhada tenta ir embora e pegar o próximo trem, quando o plano da Condessa entra em cena, com a mulher tentando convencê-la a ficar e a estonteante (e estranha) Ilona parte para seduzir Stefan. A cena que se segue após a transa do dois, quando Stefan vai tomar banho e força a garota a entrar no chuveiro, que começa a se debater para se livrar desesperadamente (pois como bem sabemos, uma das fraquezas dos vampiros é a água corrente) é simplesmente fantástica. Uma sucessão de tragédias enquanto os dois se debatem leva a garota a morte, enfraquecida pelo banho, e os três personagens partem para tentar enterrar o corpo. Ao final, está reservado à improvável e fraca Valerie, tentando se livrar da influência do marido e da forma como a Condessa Bathory a subjuga, encerrar esse pesadelo.

Ai, babado querido!

Ai, babado querida!

Apesar da tonelada de cenas desconcertantes de choque e nudez (principalmente de Ilona) o filme acabou tornando-se menos sangrento e mais sutil do que o próprio Kümel desejava (ele havia declarado ter previsto uma cena com 700 virgens banhando-se em sangue!!!), e deu lugar as influências surrealistas de seus compatriotas como Paul Devaux e Leon Spilliaert, as locações ermas jogando vampiro e suas vítimas em uma paisagem fria e desoladora, o uso preciso do jogo de luzes, tons de vermelho profundo, atuações beirando o sonambulismo e uma certa devassidão decadente, em uma atmosfera latente e sensual de sonho.

Tais combinações chocantes poderiam certamente decretar o fracasso comercial de Escravas do Desejo, mas como Kümel conseguiu balancear todos estes elementos cuidadosamente, o filme recebeu críticas extremamente positivas, superando as expectativas e obtendo sucesso em centros como Londres, Paris, e até nos Estados Unidos, sempre reticente a esse tipo de produção. Além disso, após desaparecer do radar do público, tornou-se um hit nas sessões da meia-noite.

Escravas do Desejo é um fenômeno escondido dentro de seu próprio subgênero, cult ao extremo, redescoberto ao passar dos anos por toda uma nova geração de fãs do horror e cinéfilos em geral. Detentor de certa classe sem nenhuma apologia, já que todas as pretensões são inatas, enquanto ao mesmo tempo entrega uma experiência sofisticada de terror.

Janela indiscreta

Janela indiscreta

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

5 Comentários

  1. […] é uma fonte de inspiração tanto no mundo da música como no do cinema (A Condessa Drácula, Escravas do Desejo, The Countess). Curiosidade: a banda sueca Bathory, com o nome em homenagem a condessa, […]

  2. wellington disse:

    como ue eu faço para assistir?

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