Review 2016: #52 – True Love Ways

A arte do horror nos verdadeiros caminhos do amor


A história do cinema de terror – e em geral – tem na Alemanha um de seus pilares mais fortes. Foi no movimento de vanguarda conhecido como Expressionismo Alemão que surgiu aquele que é considerado efetivamente o primeiro longa metragem de terror, O Gabinete do Dr. Caligari.

True Love Ways de Mathieu Seiler está separado de Caligari por quase 100 anos, diferença muito perceptível se considerarmos que este mais novo advém de uma série de influências existentes nesse século, indo do francês Belle de Jour, de Luis Buñuel até Nekromantik, de Jörg Buttgereit.

Os primeiros minutos de True Love Ways adiantam seu estilo predominante: o preto-e-branco que parece se valer de luz natural chama a atenção para as formas e os contrastes entre personagens e ambiente. O contraste das cores enaltece ainda mais a oposição interna da protagonista Severine. A primeira aparição da personagem, interpretada por Anna Hausburg, se dá em um parque, onde ela observa um grupo de crianças que brincavam animadamente. Anna tem uma beleza pueril, encantadora.

Logo em seguida, transportada de volta para seu apartamento, ela aparece com uma camisola que acentua as curvas de seu corpo e a torna objeto de desejo para seu namorado, que a observa com olhos lascivos, ao fundo. A distância física entre os dois indica uma distância emocional, que se torna evidente quando o casal discute o relacionamento. Há uma grande simplicidade de ambientação e objetos cênicos, e a câmera está frequentemente parada, enquadrando a imagem de forma que a artificialidade não tenha espaço. direção mira em um realismo, que evoca diferentes aspectos do cinema europeu.

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Uma DR nunca teve um fim tão macabro.

A conversa do casal, pontuada por momentos de silêncio, observação e reflexão, criam uma atmosfera de estranhamento que quebra com a forma tradicional de se representar um conflito amoroso e permite uma análise fria sobre eles, com muito espaço para a imaginação. É difícil não imaginar as obras da Nouvelle Vague francesa exercendo grande influência sobre o trabalho de Mathieu Seiler, que abraça suas origens e parece venerá-las. Chega a ser engraçado observar como as ocasionais intrusões de aparatos tecnológicos parecem romper com a ilusão de que estamos diante de um filme antigo.

O contraste emocional de Severine continua sendo o foco da narrativa durante boa parte do tempo. Repetidamente, ela parece olhar com desconfiança e curiosidade para os arredores, como se não estivesse acostumada ao próprio ambiente e ao próprio corpo. Alguns elementos que aparecem em cena, não possuem um propósito claro, parecem apenas externalizar essa angústia e incômodo da personagem, criando uma sensação de estranhamento característica dos sonhos. O onirismo perpassa todo o filme; está nos enquadramentos, nos diálogos, na luz natural, no antigo pontuado pelo atual e nos afetos confusos e etéreos de Severine.

Nesse primeiro momento, as grandes influências de Seiler remontam ao cinema de vanguarda europeu, especialmente dos anos sessenta e com uma predominância do gênero dramático. No entanto, conforme a trama se desenrola e Severine torna-se vítima de um grupo de homens provavelmente saídos de A Serbian Film – Terror Sem Limites, o filme se transforma em um lado diferente e mais sombrio do cinema europeu, mais especificamente italiano e alemão.

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O jogo de gato e rato seria divertido se não fosse tão tenso.

Severine é alvo de uma organização que sequestra, tortura, estupra e mata mulheres, gravando tudo em vídeo para criar e vender fitas snuff. Assim que ela é forçada a confrontar esses homens, revela-se como uma mulher de recursos e o pior tipo de vítima possível, daquele tipo que resiste até o fim. Em primeira instância, ela se transforma para sobreviver, mas posteriormente, a mudança parece mais uma revelação de seu eu verdadeiro, sombrio e cruel.

Enquanto tenta escapar, ela percorre os corredores de uma mansão em um aparente êxtase onírico. Mathieu Seiler parece fazer uma visita direta a obra de Dario Argento, com a mesma qualidade com que visita o cinema de Goddard, Buñuel e cia. Nos momentos em que a fuga se prova impossível e Severine é forçada a lutar contra seus captores, ela se entrega de corpo e alma a uma hostilidade doentia.

É quase impossível distinguir a violência de arte. Elas se misturam uma com a outra, como se a morte e a brutalidade fossem os resultados naturais da vida e da beleza. O horror é tudo! Mas Seiler ousou inserir no mais controverso dos gêneros, elementos de uma das vanguardas mais artísticas do cinema, criando algo único. O ritmo lento, os poucos diálogos e as influências dramáticas muito provavelmente serão objetos de admiração e ódio por parte de pessoas diferentes, como costuma acontecer com obras nessa linha. Vale ressaltar que o final guarda um dos plot twists mais bizarros e provocantes dos últimos anos, que demandará uma boa dose de atenção.

4 golpes de machado para True Love Ways

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“Essa nem é minha forma final.” – Diz Severine, que ainda guardava algumas surpresas na manga.


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Formado em psicologia, professor, futuro roteirista e fã incondicional do terror, tanto no cinema, quanto na TV, literatura e quadrinhos. Mais que estudar o gênero, quer ser um historiador do horror para sua geração e futuras. E ao contrário do estereótipo do mineiro quieto, adora alimentar uma treta.

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