250 – Lâmina Assassina (1971)

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Lo strano vizio della Signora Wardh / The Strange Vice of Mrs. Wardh / Blade of the Ripper / The Next Victim

1971 / Itália, Espanha / 98 min / Direção: Sergio Martino / Roteiro: Vittorio Caronia, Ernesto Gastaldi, Eduardo Manzanos Brochero / Produção: Antonio Crescenzi, Luciano Martino / Elenco: George Hilton, Edwige Fenech, Cristina Airoldi, Manuel Gil, Carlo Alighiero, Ivan Rassimov

 

O giallo é o autêntico thriller italiano. Inaugurado com maestria por Mario Bava em Seis Mulheres para o Assassino e credenciado como importante subgênero do horror por Dario Argento em sua Trilogia dos Animais (O Pássaro das Pluma de Cristal, O Gato de Nove Caudas e Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza). Lâmina Assassina é a primeira incursão de Sergio Martino no gênero.

E Lâmina Assassina oferece ao seu espectador tudo que o giallo promete em sua premissa: pessoas ordinárias fazendo coisas terríveis umas as outras, um enredo repleto de reviravoltas, assassinatos brutais, uma forte dose de sexo bizarro, masoquismo e adultério oriundo de personagens problemáticos. E Martino mantém o roteiro escrito a seis mãos por Vittorio Caronia, Ernesto Gastaldi e Eduardo Manzano Brochero em intenso clima de interesse, sempre estilizado ao extremo, recurso proveniente da tal escola italiana de fazer filmes, sempre se importando com cenários, fotografias, construção de cenas e trilha sonora.

O tal estranho vício da Sra. Julie Wardh (Edwige Fenech), que remete ao título original em italiano, é seu gosto por levar umas porradas. Vamos descobrir isso quando ela retorna para Viena, recém-casada com um homem mais velho, Neil Wardh (Alberto de Mendonza), enquanto um misterioso assassino está matando mulheres com sua lâmina. Prontamente, seu ex-amante, Jean (Ivan Rassimov), um sujeito violento, sádico, arrogante e presunçoso, logo volta a procurá-la, dizendo que só ele pode satisfazê-la, afinal, só ele sabia do interesse da garota em ser saco de pancada.

Tentando se livrar da influência de Jean que continua a perseguindo, Julie conhece George Corro (George Hilton), um primo boa pinta de sua amiga Carol Brandt (Conchita Airoldi, usando o pseudônimo de Cristina Airoldi), ambos novos ricos esnobes emergentes, graças à herança herdada por conta da morte de um tio. Como a essência da Sra. Wardh é de safadeza, e o maridão está sempre ausente, a garota vive para cima e para baixo com os dois, e logo cai nos encantos de George, tendo um caso extraconjugal com ele.

Mah, que vízio!! (com sotaque italiano)

Mah, que vízio!! (com sotaque italiano)

Esse enredo de novela mexicana é temperado exatamente com as violentas mortes que esse estripador está cometendo nas ruas de Viena, e seu súbito interesse em Julie, o que obviamente irá levantar todas as suspeitas para Jean. Enquanto essa fogueira de vaidades mistura-se com a baixeza da moral e dos bons costumes, a contagem de corpos vai aumentando, chegando até as pessoas próximas da assustada mulher. É quando George a chama para que ela fuja com ele, abandonando seu marido em busca de segurança e felicidade. A moçoila vai acreditar que tudo está bem e que o perigo ficou para trás. Só que não. E daí nos é apresentada a reviravolta final, algo extremamente comum a esse tipo de trama e de filme.

Talvez o maior mérito desta obra de Martino é a indefinição da audiência com relação à empatia aos personagens. Você não consegue definir muito bem quem são os heróis e os vilões. Como maior exemplo disso, temos a bela protagonista. Afinal, a Sra. Wardh, que seria a suporta heroína, é uma sado masoquista, covarde, adúltera e que troca de amantes como eu troco de cueca. Você não consegue simpatizar com a beldade assim tão facilmente, e considerá-la uma vítima coitadinha também. Fora que todo mundo carrega algo de podre e mostra uma verdadeira decadência da instituição familiar e um núcleo de amizade repleto de falsidade, interesse e promiscuidade, tal qual o próprio Mario Bava adorava construir nos personagens de seus filmes. Ponto para a atuação impassível de Edwige Fenech como Julie, que só consegue demonstrar algum tipo de emoção humana quando é subjugada e apanha, e do contido assustador Ivan Rassimov como o desconfortável e cruel Jean.

No final dos anos 60 e começo dos anos 70, dezenas de gialli eram lançados, um pior que o outro, com roteiros chinfrins que serviam apenas como um mero fio condutor para as violentas mortes estilizadas e mulheres e mais mulheres nuas. Não que Lâmina Assassina não tenha lá suas bizarrices e nudez feminina aos montes, mas o roteiro é bem construído e funciona como um dos grandes trunfos do filme, que difere esta obra autoral de Martino dos demais parcos irmãos do gênero, salvo os exemplares de Dario Argento. Fora o apreço ao politicamente incorreto, marca registrada dos insanos e sem pudores exemplares do cinema italiano setentista. A fita é uma experiência agradável dentro de seu próprio estilo.

Uma curiosidade interessante sobre Lâmina Assassina, é que o H no final da grafia da Sra. Wardh, foi adicionado ao original Ward de última hora, quando uma refinada senhora italiana chamada Ward ameaçou processar o filme, pois o título poderia potencialmente prejudicar seu bom e respeitado nome, pouco antes do filme ser lançado. Vê se pode?

No giallo, ninguém irá ouvir você gritar

No giallo, ninguém irá ouvir você gritar

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Lâmina Assassina não foi lançado no Brasil.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

8 Comentários

  1. […] é o segundo giallo do diretor italiano Sérgio Martino, alocado entre seu debute no gênero, Lâmina Assassina, também de 1971 e a sua obra prima Todas as Cores da Escuridão, lançada no ano seguinte. Como […]

  2. […] de Olivieiro, Floriana (a belíssima Edwige Fenech, que já havia trabalhado com Martino em Lâmina Assassina) vai passar um tempo na casa dos tios, e como uma verdadeira libertina, passa a manipular a todos e […]

  3. […] habitual de seus personagens dúbios, como aconteceu em sua “trilogia não oficial”, Lâmina Assassina e A Cauda do Escorpião, aqui desde o começo do filme temos bem delineado quem são os supostos […]

  4. […] de seus gialli anteriores, como Lâmina Assassina e A Cauda do Escorpião, por exemplo, onde há certa preocupação com a estética, desenvolvimento […]

  5. […] meus posts sabe que já rasguei elogios a ele em diversos filmes que considero incríveis, como Lâmina Assassina, Todas as Cores da Escuridão, No Quarto Escuro de Satã e Torso. Mas aqui no infame Crocodilo – […]

  6. Pedro Canto disse:

    Sugiro atualizarem o texto já que o DVD já foi lançado aqui e pela Versátil na coleção GIallo (fantástica, por sinal).

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