252 – A Mansão da Morte (1971)

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Reazione a catena / Bay of Blood / Twitch of the Death Nerve / Bloodbath

1971 / Itália / 84 min / Direção: Mario Bava / Roteiro: Mario Bava, Filippo Ottoni, Giuseppe Zaccariello, Franco Barberi e Dardano Sacchetti (história) / Produção: Giuseppe Zaccariello / Elenco: Claudine Auger, Luigi Pistilli, Claudio Volonté, Anna M. Rosati, Chris Avram

 

Já assistiu Sexta-Feira 13, certo? E se eu dissesse para você que ele é uma cópia deslavada de A Mansão da Morte, que no Brasil também ficou conhecido como Banho de Sangue e até O Sexo na Sua Forma Mais Violenta (oi???!!!), filme do mestre italiano do macabro Mario Bava, que aqui criou a gênese do que viria a ser o slasher, tão popular no cinema de horror adolescente dos anos 80.

Só que diferentemente de qualquer massacre futuro que Jason Voohrees tenha praticado, ou qualquer outro filme slasher já feito, A Mansão da Morte tem dois toques particulares incapaz de serem imitados: primeiro é claro, a fotografia e direção de Bava. E segundo, um roteiro afiado, intrigante, bem construído e com uma reviravolta espetacular em seu final, além de alta dose de sarcasmo e de humor negro, inspirado em uma história original de Dardano Sarchetti, que já havia roteirizado alguns dos gialli de Dario Argento.

E mesmo que A Mansão da Morte não traga o mesmo esmero técnico que produções anteriores como As Três Máscaras do Terror, Seis Mulheres para o Assassino e Mata Bebê, Mata!, aqui Bava apresenta uma de suas obras mais violentas e explícitas, com direito a muito sangue e assassinatos cruéis, que viria a inspirar compatriotas como Lucio Fulci, Sérgio Martino e o próprio Argento, além é claro de toda a franquia Halloween e Sexta-Feira 13, entre outras.

Ops, pensei que o Jason tinha passado por aqui

Ops, pensei que o Jason tinha passado por aqui

E voltando a falar de Sexta-Feira 13, algumas comparações são inevitáveis com o filme de Sean S. Cunningham e sua sequências infindáveis, mostrando o quanto ele foi plagiado de A Mansão da Morte, como: a ambientação na beira de um lago (Crystal Lake, alguém?), só que aqui uma Baía que é onde se passa toda a trama; jovens inconsequentes que aparecem na trama apenas para serem trucidados violentamente, fazem sexo e vão nadar pelados no lago; e um assassino espreitando na mata, entre arbustos e árvores, onde a câmera faz às vezes de seu POV.

Até certas mortes praticadas por Jason ou sua mãe são idênticas. Uma delas, Marcie, a namoradinha do personagem de Kevin Bacon, leva no Sexta-Feira 13 original uma machadada no meio do rosto I-GUAL-ZI-NHA a facada tomada por Bob, um desses rapazes que citei no parágrafo acima. Outra morte que é cuspida e escarrada são os jovens na cama sendo atravessados por uma lança, pegos na hora do coito, copiada em Sexta-Feira 13: Parte 2.

Enfim, comparações a parte, como disse, um dos diferenciais de A Mansão da Morte é o roteiro que vai apresentando personagens um mais ganancioso e inescrupuloso que o outro, sem um pingo de moral, capaz de fazer qualquer coisa para conseguir atingir seus objetivos. Isso por que a tal Baía é propriedade da Condessa Federica Donati, uma velha senhora em uma cadeira de rodas, que já é assassinada logo no prólogo do filme, em uma tentativa de se forjar um suicídio. Você até pensa que o que vem por aí é mais um giallo quando surge um assassino usando luvas pretas de couro e por aí vai, mas logo a face desse assassino é revelada, que mais tarde ficamos sabendo que era o libertino marido da Condessa, Conde Filippo Donati, para logo na sequência ele ser assassinado também.

Só de zóio...

Só de zóio…

A coisa só vai se complicando e gerando uma reação em cadeia (daí o título original do filme, em italiano), quando diversos interesses entram em jogo ao descobrirmos que Frederica foi assassinada por não querer vender a Baía, sua propriedade legítima, para a construção de um resort no local. Esse imbróglio acaba envolvendo além de seu marido, já também morto nessa altura do campeonato, o filho bastardo da Condessa, o pescador Simon; um esquisito entomólogo casado com uma cartomante surtada que moram no local; Frank Ventura, o interessado em comprar a Baía e sua namorada, e Renata, filha de  Filippo, herdeira legítima da Baía, junto com seu marido Albert, mãe e pai de dois filhos (imprescindíveis no final do filme).

Ah, e não esqueça dos jovens em viagem que param na Baía, invadem uma das casas (porque é isso que as pessoas fazem para se divertir) e são eliminados um por um, incluindo a belíssima Brunhilda (interpretada por Brigitte Skay), aquela que vai nadar no lago peladinha e passa assim grande parte do curto tempo que aparece em cena, para nossa alegria. A maquiagem de Franco Freda nos entrega cenas extremamente gráficas, com direito até a uma decapitação com uma machadinha e a trilha sonora de Stelvio Cipriani ajuda na construção de todo clima de suspense.

Mas o que salta aos olhos em A Mansão da Morte é a direção de Bava, que coloca o público, de forma incômoda até demais, como um espectador impotente, porém curioso, testemunha ocular do assassinato e do voyeurismo, e o roteiro inteligente e refinado, que vai criando um espiral de catástrofes praticada pela mesquinharia de todos os personagens envolvidos naquele balaio de gato, até chegar ao seu surpreendente final com a saída deliciosamente sádica e de um humor negro imensurável que Bava encontrou para nos mostrar que o “crime não compensa”, deixando qualquer um que esteja assistindo o filme embasbacado. Um filmaço!

Donzela nua em perigo e não é um slasher movie?

Donzela nua em perigo e não é um slasher movie?

Serviço de utilidade pública:

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

8 Comentários

  1. […] e visuais que já havia nos presenteado em outras obras primas, e novamente, como, por exemplo, em A Mansão da Morte, seu filme anterior, começa a abusar ainda mais de cenas violentas e gráficas, caminho natural […]

  2. […] Devo confessar que Lisa e o Diabo não é um filme fácil de se entender. É um pesadelo tétrico subjetivo, onde nada é o que realmente parece, aberto as mais diversas impressões, e onde Bava destila com mais clareza todo seu apreço pela morte (daí seu apelido de Maestro do Macabro) e principalmente, o texto subentendido sobre a decadência humana e de suas instituições e o jogo de controle, expediente que vire e mexe aparece escancarado em suas obras, como em Seis Mulheres para o Assassino, Drácula, o Vampiro do Sexo e A Mansão da Morte. […]

  3. […] Mulheres para o Assassino, mas sim, pela brutalidade e maldade humana, mais próximo do que fez em A Mansão da Morte, por […]

  4. […] se conduzir o cinema de horror (vemos isso claramente na ruptura de Bava com o gótico/ barroco em A Mansão da Morte e Rabid Dogs, por […]

  5. […] você já viu tudo isso, copiado a exaustão nos anos 80 e 90 e até mesmo em obras anteriores como A Mansão da Morte de Mario Bava, mas fato é que muito cineasta e muitos filmes vindouros, desde Halloween – A […]

  6. […] e quase amador, mas é um daqueles típicos filmes que pegaram o espírito dos anos 70, como A Mansão da Morte de Mario Bava, The Toolbox Murders e O Assassino da Furadeira, e precedeu o que viria a se tornar […]

  7. […] que tem em seu currículo nada menos que O Gato de Nove Caudas do próprio Argento, o excelente A Mansão da Morte do Bava pai, Zumbi 2 – A Volta dos Mortos e tantos outros de Lucio Fulci. E para completar, a […]

  8. […] aterrorizante Mata, Bebê, Mata!, ficção científica com O Planeta dos Vampiros, o proto-slasher A Mansão da Morte, e a gênese do giallo com Seis Mulheres para o […]

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