27 – Zaroff – O Caçador de Vidas (1932)


The Most Dangerous Game


1932 / EUA / P&B / 63 min / Direção: Irving Pichel, Ernest B. Schoedsack / Roteiro: James Ashmore Creelman, Richard Connell (história) / Produção: Merian C. Cooper (produtor associado), David O. Selznick (produtor executivo)/ Elenco: Joel McCrea, Fay Wray, Robert Armstrong, Leslie Banks, Noble Johnson


Aqui mais uma caso raro do título em português, mesmo que seja uma tradução completamente diferente do original, ficar muito bacana: Zaroff – O Caçador de Vidas. Fale se não dá vontade de assistir só por esse nome naipe? Mas esse não é o único motivo não. Trata-se de um filme deveras interessante.

Lógico que as produções de terror da RKO Radio Pictures, não tinham o mesmo glamour e até a mesma grana da Universal ou da MGM. Zaroff – O Caçador de Vidas teve um orçamento estimulado em pouco mais de 218 mil dólares, o que o caracteriza como um filme B. Mas o interessante é notar certo elementos congruentes que fizeram o filme funcionar.

Primeiro é a presença de Ernest B. Schoedsack como um dos diretores e Merian C. Cooper como produtor executivo. Para quem não conhece esse nome, eles foram responsáveis nada mais, nada menos pelo King Kong original, lançado no ano seguinte. Então aqui já começamos a perceber um esboço do que seria a tônica do filme do gorila gigante (sem levar em consideração o quesito efeitos especiais) e o fetiche dos dois pela selva, já que o filme também tem a mata como pano de fundo.

E tão forte quanto o fetiche pela floresta, é o fetiche pela ideia da pobre garota em perigo, aqui também interpretada por Fay Wray (a loira paixonite do gorilão no filme seguinte), e o do homem másculo e intrépido que é o verdadeiro herói e a salva de todas as terríveis situações, nesse caso, Joel McCrea que interpreta o protagonista Bob Rainsford. Ele está lá passando por todas as provações da selva para salvar a indefesa Eve das garras do nefasto Conde Zaroff, pulando cipó, galhos, atravessando troncos e cachoeiras.

Caçando vidas

E falando em Conde Zaroff, ele sim é a cereja do bolo. Personagem demente, muito bem construído por Leslie Banks, que tem um único prazer na vida: matar. Caçador entediado, descobriu que o jogo mais perigoso (título original do filme) e que mais lhe causa tesão, é caçar seres humanos como se fossem animais. E para atrair essas pessoas para sua ilha playground, ele prepara uma armadilha com as sinalizações no mar trocadas para que os navios acabem naufragando perto da costa, infestada de tubarões, e assim acolha os sobreviventes, apenas para colocá-los como alvo da sua diversão doentia.

Zaroff é puro exagero. Desde seus trejeitos faciais, até seu carregado sotaque russo, comparsas cossacos como Ivan e a cicatriz que tem na testa, que conseguiu em uma caçada que quase foi mal sucedida, e vive esfregando-a. Mas ele pelo menos imprime um pouco de personalidade ao filme, diferente dos outros personagens, como o próprio  Rainsford, que também é caçador e sabe dos meandros para sobreviver do jogo planejado por Zaroff. Até há tempo para uma lição de moral, quando a presa encurralada, solta um: “agora eu sei como os animais que eu caço se sentem”. Juro para vocês que torci pelo Zaroff durante o filme todo!

Outro detalhe interessante é como os diretores utilizaram alguns recursos de sobreposição de imagem para misturar um efeito de tridimensionalidade do cenário em primeiro plano com suas perspectivas de fundo. Como nas cenas da cachoeira ou então quando estão adentrando a selva a o castelo desenhado de Zaroff ao fundo. Fora isso, na mesma cena do embate da cachoeira, vê se uma nítida tentativa de imitar o expressionismo alemão e o cinema mudo em modo geral, com uma extensa cena sem diálogos, apenas acompanhada pela tensa trilha sonora de Max Steiner, e closes dos vilões se regozijando e da mocinha assustada de olhos arregalados e boquiaberta. Puro truque.

O problema é que o roteiro cai no óbvio, e quando o herói cai derrotado pelo russo louco, você sabe que logo menos ele vai aparecer vivo, porque imagine que o filme ia dar a vitória para o bandido? Mas além de claramente ser um filme de produtor, Zaroff – O Caçador de Vidas é bem dinâmico, tiro curto, e muitíssimo interessante de assistir.

Welcome to the jungle


O filme é de domínio público. Dá para baixar aqui. Legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] milionário, Tom Newcliffe (Calvin Lockhart), que mais parece uma versão blaxploitation de Zaroff – O Caçador de Vidas, e sua esposa, Caroline (Marlene Clark) para passar uns dias em sua mansão, sendo que um deles é […]

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