275 – No Quarto Escuro de Satã (1972)

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Il tuo vizio è una stanza chiusa e solo io ne ho la chiave / Your Vice is a Locked Room and Only I Have the Key

1972 / Itália / 96 min / Direção: Sergio Martino / Roteiro: Adriano Bolzoni, Ernesto Gastaldi, Luciano Martino e Sauro Scavolini (história)(Baseado no conto de Edgar Allan Poe) / Produção: Luciano Martino / Elenco: Edwige Fenech, Anita Strindberg, Luigi Pistilli, Ivan Rassimov, Franco Nebba, Riccardo Salvino

 

O diretor Sérgio Martino, diretor italiano de filmes giallo, aqui em No Quarto Escuro de Satã, faz um filme “miado”. Rá! Que piada infame!!! Isso porque na verdade, a produção é uma livre adaptação do conto O Gato Preto, dos mais famosos de Edgar Allan Poe.

Um filme deveras interessante do diretor, que na verdade possui algumas características do giallo, porém a meu ver, não se encaixa exclusivamente no gênero, transformando-se em uma amálgama dos populares filmes de suspense italianos, contendo um assassino misterioso, mortes violentas e claro, sexo a rodo, mas também com um clima mais pesado de vingança e um viés sobrenatural em seu final, tal qual o conto do escritor americano.

Mas o mais importante, como é típico da obra de Martino, é que todos os personagens são dotados de uma idiossincrasia específica, que reflete a verdadeira falta de escrúpulo e pudores, desde aqueles que consideramos realmente culpados, quanto aqueles que pensamos ser as vítimas. Todos eles têm algo de podre, de suspeito, de sujo. São personagens mesquinhos, alcoólatras, promíscuos, racistas, que não dão o menor valor para vidas humanas e sentimentos alheios. E o gato preto, que tem o conveniente nome de Satanás, é apenas o espectador de um relacionamento disfuncional, julgando-os com seus olhos amarelos brilhantes, esgueirando-se pelos cantos do casarão.

Virada no Jiraya!

Virada no Jiraya!

A trama de luxúria, abuso, assassinato e vingança nos coloca no olho do furacão que é o relacionamento amoral e superficial do falido e beberrão Oliviero Rouvigny (brilhantemente interpretado por Luigi Pistilli), outrora famoso e bem sucedido escritor e professor, e sua esposa, Irina (outra brilhante interpretação, da atriz sueca Anita Strindberg), que é feita de saco de pancada pelo marido chauvinista que a agride fisicamente, humilha e tortura psicologicamente. Irina vive uma vida amargurada de remorso e provações, com o ódio pelo marido infiel saindo pelo ladrão, e esse mesmo ódio, acaba sendo direcionado também para o gato de estimação de Oliviero, herdado de sua mãe, que também era uma megera daquelas em vida.

A contagem de corpos começa quando uma atendente de uma biblioteca, que tem um caso com Oliviero desde a época que era uma de suas alunas, o chantageia para que ele continue saindo com ela, e é brutalmente assassinada por um sujeito misterioso usando capa, chapéu e luva, e usa uma pequena foice de mão para abrir a sua jugular. Obviamente todas as suspeitas cairão sobre Olivieiro, que sequer tem um álibi decente, pois não havia dormido em casa na noite do crime. Mas a submissa Irina acaba livrando a barra do maridão quando a polícia resolve interrogá-lo.

Não demora para mais assassinatos acontecerem, como da empregada negra que trabalhava como governanta da casa (e também era humilhada frequentemente e obrigada a praticar atos sexuais com o patrão). E o caldo começa a entornar de verdade quando a lasciva sobrinha de Olivieiro, Floriana (a belíssima Edwige Fenech, que já havia trabalhado com Martino em Lâmina Assassina) vai passar um tempo na casa dos tios, e como uma verdadeira libertina, passa a manipular a todos e transar com qualquer um que apareça em sua frente: o tio, a tia, o entregador. Só o gato fica livre, senão seria zoofilia!

A curiosidade cegou o gato.

A curiosidade cegou o gato.

Pois bem, a teia da aranha está tecida para Floriana começar a arquitetar um plano diabólico, despertando o sentimento de vingança de Irina, enchendo a cabeça dela de caraminhola para que ela mate o tio, e vice-versa, seduzindo o tio para se livrar da esposa e ficar com ela. Até o entregador, que também é piloto de motocicleta nas horas vagas, entra na dança, sendo convencido a fugir com a moça. Todo um comportamento cínico, que culmina nas maiores chantagens para que a garota se dê bem e ainda consiga faturar uma grana com as joias da avó que o decadente casal herdara.

ALERTA DE SPOILER. Pule para o próximo parágrafo ou leia por sua conta e risco. Como todo bom filme italiano dos anos 70, espere uma reviravolta estrambólica (legal essa palavra né?), onde veremos que pior que Olivieiro, é mesmo a coitada Irina, que chegou ao limite dos maus tratos, e resolve se vingar e tentar incriminar o marido com a ajuda de um amante, Walter (Ivan Rassimov, famoso por atuar em diversos filmes do próprio Martino e uma penca de filmes de canibais, incluindo aí o pioneiro Mundo Canibal). A dupla matou todas as vítimas anteriores, e ainda assim, deu cabo do marido e emparedou o cadáver na adega no porão, assassinou Floriana e o entregador Dario, fazendo parecer um acidente na estrada e ainda por fim, Irina joga o cúmplice penhasco abaixo. Nem o gato escapa do descontrole vingativo da moça, que em certo momento do filme, após o bichano atacar suas galinhas, ela arranca o olho do felino com uma tesoura. E não é aí que a inspiração do conto de Poe termina. Na sequência final, os inspetores estão investigando a adega da casa, após ouvir o miado incessante de Satanás, que parece ferido, e descobre que ele vem de trás da parede, assim como o conto, onde eles irão encontrar o gato e o marido sepultados.

Martino acerta a mão, mantendo sempre a curiosidade do espectador alta em No Quarto Escuro de Satã, aproveitando o seu domínio sobre elementos chave que garantem o sucesso do longa e do gênero em si, como o distanciamento de qualquer afeição pelos personagens, a típica fotografia barroca, mortes violentas, e várias cenas carregadas de erotismo e nudez, outro ponto comum na filmografia do diretor. Uma boa pedida, e um dos melhores exemplares do prolífico cinema de terror italiano dos anos 70. Até foi lançado no Brasil em DVD pela Magnus Opus.

Fofocas...

Fofocas…

Serviço de utilidade pública:

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

8 Comentários

  1. Guilherme disse:

    Desculpe-me por incomodá-lo mais uma vez, Marcos, mas teria como você fazer o upload de novo desse aqui também?

    Muito obrigado!

    Guilherme

  2. Guilherme disse:

    Valeu, Marcos! Muito obrigado!

  3. […] Mas o mais inventivo na filmografia de Martino, pelo menos nessa primeira metade da década de 70, enquanto ele ainda não dirigia filmes sobre canibais, homens peixes em ilhas ou crocodilos gigantes, é sua capacidade em subverter o giallo, trazendo vários desdobramentos de um estilo único de se fazer cinema de suspense na Itália, famoso por simplesmente ser dado uma espécie de CTRL C + CTRL V (ou COMMAND C + COMMAND V se você tem um Mac) em praticamente todas as obras pós Trilogia dos Animais de Dario Argento. Em Torso, ele flerta com o protozoário do slasher como bem já salientei. Antes disso, ele já havia metido cultos satânicos no meio de Todas as Cores da Escuridão e ainda usado elementos sobrenaturais em No Quarto Escuro de Satã. […]

  4. […] em diversos filmes que considero incríveis, como Lâmina Assassina, Todas as Cores da Escuridão, No Quarto Escuro de Satã e Torso. Mas aqui no infame Crocodilo – A Fera Asssssina, simplesmente não há um argumento […]

  5. […] do Pavor, de 1962. Dez anos mais tarde, Sergio Martino aproveitava a vilania do animal no afetado No Quarto Escuro de Satã. O Gato Negro de Lucio Fulci é a segunda versão spaghetti do conto, que mais tarde seria […]

  6. […] 8) No Quarto Escuro de Satã (1972) […]

  7. Alan disse:

    Resenha muito boa. DEsculpe incomodar, mas tem como reupar o arquivo?

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