276 – Todas as Cores da Escuridão (1972)

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Tutti i colori del buio / All the Colors of the Dark

1972 / Itália, Espanha / 94 min / Direção: Sergio Martino / Roteiro: Ernesto Gastaldi, Sauro Scavolini, Santiago Moncada (história) / Produção: Mino Loy, Luciano Martino / Elenco: George Hilton, Edwige Fenech, Ivan Rassimov, Julián Urgate, George Rigaud

 

Quando falamos do cinema de terror italiano, os primeiros nomes que nos vem à cabeça são de Dario Argento, Mario Bava e Lucio Fulci. Sem a mesma pompa desses nomes citados, porém com uma interessantíssima filmografia e belos exemplares de filmes do gênero está Sergio Martino, um desses injustiçados do cinema a meu ver. Todas as Cores da Escuridão é sua obra-prima, e um senhor filme de terror.

O que mais me chama a atenção na obra de Martino é sua desenvoltura em trabalhar com tipos de personagens, captando-os com sua já famosa estética barroca, e jogá-los em um turbilhão de acontecimentos bizarros, sexuais e transgressores, filmando-os com certa distância emotiva, escancarando seus relacionamentos disfuncionais, fúteis, cheios de luxúria, problemas psicológicos, falsidade e falta de moral.

Outro ponto super positivo de Martino é a capacidade com que seus filmes dançam entre os gêneros do horror italiano. Seus gialli nunca são bem um giallo ao pé da letra, com um sujeito vestindo uma capa e luvas matando mulheres de forma violenta. O diretor adora agregar e misturar outros elementos do horror, e Todas as Cores da Escuridão navega muito bem entre essa mistura, colocando sim alguns destes clichês do suspense italiano, mas em uma trama que envolve loucura, traumas, perseguições e uma seita satânica.

Obviamente, outras derrapadas do giallo estão presentes no longa, como os roteiros cheio de furos e suas reviravoltas acachapantes do final. Mas esse é o charme: levantar em seus espectadores uma espécie de gosto duvidoso por esse prolífico movimento cinematográfico, que vez ou outra está lá apenas para uma virtuose de cores e cenários e exploração da nudez feminina e da explosão erótica, mas também vira e mexe surgem ótimas obras.

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Matenha o foco!

Causando uma ruptura habitual de seus personagens dúbios, como aconteceu em sua “trilogia não oficial”, Lâmina Assassina e A Cauda do Escorpião, aqui desde o começo do filme temos bem delineado quem são os supostos heróis e vítimas. A vítima no caso é Jane Harrison, interpretada mais uma vez pela sempre lindíssima e deliciosa Edwige Fenech (espécie de atriz fetiche de Martino). A mulher está afundada em problemas psicológicos e de frigidez por conta de ter perdido o seu bebê gestante durante um acidente de carro provocado pelo marido, George Hilton (Richard Steele). Isso vai trazer um óbvio desgaste emocional gigantesco ao casal.

Outra personagem importante da trama é a irmã de Jane, Barbara (Nieves Navarro, usando o pseudônimo de Susan Scott), que insiste que a garota precisa procurar ajuda na psicanálise, enquanto seu marido é contra. De forma indireta, Barbara vive acusando o cunhado pelo estado psicológico da garota. Jane, que tem sempre um comportamento acuado e frágil, acaba se consultando com o Dr. Burton (George Rigaud), contando a ele inclusive sobre seu sonho recorrente de estar sendo perseguida por um sujeito sinistro de olhos azuis, que a esfaqueia no ventre. Detalhe para a cena de abertura do filme, em um sonho surreal e tétrico, onde uma grávida nua está em uma mesa de parto em um quarto, sendo atacada por uma lâmina afiada, enquanto a riquíssima trilha sonora de Bruno Nicolai compõe o poderoso impacto da cena, que para mim lembra muito a estética de Argento e a trilha sonora de Prelúdio Para Matar, composta por Goblin, lançado só dois anos depois.

Pois bem, a situação começa a piorar quando Jane passa a ser perseguida de verdade por aquele que antes apenas a atacava em sonho, fazendo com que a pobre moça passe a acreditar que está ficando louca e não consegue mais discernir sobre o que é realidade ou não. Desde o primeiro momento, vemos o rosto do tal maníaco que a persegue (interpretado por Ivan Rassimov, outra figurinha carimbada dos filmes de Martino). Não há nenhum assassino mascarado e nenhum trecho sequer de uma trama whodunit?, clichê máximo dos gialli. E tudo ainda vai ficar mais sombrio e misterioso quando ela começa a se envolver com a vizinha de seu prédio, Mary Weil (Marina Malfatti), que resolve levá-la até um culto a qual faz parte.

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Vem comigo!

Envolvida em uma missa negra, Jane é forçada a entrar em um sabá ritualístico desse estranho culto, onde todos os membros tem uma pirâmide com olho tatuado em alguma parte do corpo, e confronta-se com seus piores temores, o contato sexual masculino (ou humano em geral, já que mulheres também irão tirar uma casquinha dela), sendo obrigada a participar de um bacanal de luxúria. Outra cena de uma beleza ímpar, mais uma vez dominada com perfeição por Martino e seus ângulos inusitados e invasivos, uma excelente atuação de Edwige e outra peça musical brilhante.

Neste momento, o filme dá aquele giro de 360º, ganhando conotações conspiratórias à lá O Bebê de Rosemary, e Jane descobre que o sinistro homem dos olhos azuis que a persegue é um membro da seita que estava em seu encalço, pois sua mãe também fizera parte daquele culto há muitos anos, e havia fugido deles. Ou seja, antigos traumas de infância se juntam aos novos traumas e levarão Jane até o limite da sanidade. E como a própria seita enfatiza, ninguém pode fugir deles. Claro, vai ser difícil alguém acreditar no que a garota, já com seu famoso problema psicológico, está dizendo. Até o psiquiatra e sua irmã vão desconfiar da moça e o único que tenta ajudá-la de verdade é seu marido.

Sem spoiler, o final rocambolesco, do roteiro escrito pela dupla Ernesto Gastaldi e Sauro Scavolini, habituais parceiros de Martino, vai obviamente nos revelar um culpado o qual não fazíamos ideia, um suposto triângulo amoroso, restabelecer o status quo dos personagens centrais, desvendar um pouco mais sobre o modus operandi da seita e até envolver habilidades pré-cognitivas da personagem principal.

Subestimado, Sergio Martino é um dos melhores diretores de gênero do cinema italiano. Mais uma trama cheia de desvios de caráter, câmera inventiva, uso e abuso preciso de cores e seu toque único em filmar belas mulheres, que sempre são bonitinhas, mas ordinárias… Todas as Cores da Escuridão é o auge do seu trabalho cinematográfico, comprovado com todas as cores (trocadilho infame…).

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Adoradores de satã

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Todas as Cores da Escuridão no foi lançado no Brasil.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] do slasher como bem já salientei. Antes disso, ele já havia metido cultos satânicos no meio de Todas as Cores da Escuridão e ainda usado elementos sobrenaturais em No Quarto Escuro de […]

  2. […] que já rasguei elogios a ele em diversos filmes que considero incríveis, como Lâmina Assassina, Todas as Cores da Escuridão, No Quarto Escuro de Satã e Torso. Mas aqui no infame Crocodilo – A Fera Asssssina, simplesmente […]

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