The Walking Dead – Tenham Misericórdia!

Todos em guerra no primeiro episódio da oitava temporada


Rick Grimes declarou guerra aos Salvadores. É este o cenário com que terminamos a sétima temporada e começamos a oitava de The Walking Dead. Com números menores entre os aliados, mas com coragem renovada, os residentes de Alexandria, Hilltop e O Reino se dispuseram a combater a tirania de Negan, conscientes de que haverá muito sangue derramado.

O episódio inicial retoma o seriado com um discurso motivacional. O mundo é daqueles que se dispõem a viver de maneira civilizada, pacífica e benevolente. Aos opressores e tiranos, resta apenas a morte. Na cadeira de diretor está Greg Nicotero, a principal mente por trás do seriado, que por vezes ataca nessa função. Não tão versado na direção quanto é na maquiagem, Nicotero dá conta do recado, mas continua brilhando mais pelos mortos-vivos que sua companhia constrói. 

Ao longo do capítulo, acompanhamos o desenrolar de um plano mirabolante, visando a destruição dos Salvadores. Os espectadores são inteiramente excluídos de tal plano, como se estivéssemos ao lado de Negan na história toda. Cada nova parte da estratégia surge de surpresa, exceto para quem já leu os quadrinhos, estes saberão muito bem os rumos do episódio.

Carregado de ação nos minutos finais, com destaque para explosões e tiroteios tendo janelas como alvo, há uma clara tentativa de sacudir a série, tirá-la da mesmice que discutirei mais adiante. Apesar do desenrolar do plano de Rick e sua turma ser realmente divertido de acompanhar e de ter entregue alguns mortos vivos de design brilhantes, chama atenção a facilidade com que os Salvadores são sobrepujados.

Ora, a grande maioria deles nem sequer aparece! Fica a sensação de que o orçamento estava reduzido demais para contratar figurantes o suficiente para montarem o time de Negan. O pior de tudo é saber que não há qualquer exagero nessas palavras. Com exceção de Negan e seus capitães (três ou quatro), não vemos sequer UM dos salvadores na própria CASA dos caras. Em Dunkirk, Christopher Nolan impressionou ao criar tensão colocando um exército inimigo sem rosto, nunca visto em cena, mas que oprime e aterroriza. Aqui, temos o contrário. Os vilões cabulosíssimos construídos na sexta temporada e revelados na sétima, simplesmente desaparecem.

Para além disso, o principal ponto a ser comentado sobre o episódio é a estranha montagem que interligava pontos distintos dentro do presente – ora seguimos o grupo de Rick e Maggie, ora o grupo de Daryl e Carol, mas também conectava a história com sequências que parecem ser do futuro, mostrando um Rick barbudão e mais velho, algo em torno de cinco anos a frente, e também cenas do chefão com os olhos vermelhos de lágrima, com aquela mesma cara sofrida que o acompanha em todas as tragédias durante esses árduos anos.

As cenas que mostram um Rick mais velho e prosperando podem ser um indicativo de um salto temporal, que pode acontecer ainda nesta temporada, ao fim do arco dos Salvadores, que parece bem próximo do fim. Mas são as cenas das lágrimas de Rick que mais provocam curiosidade. Penso que as imagens de um futuro próspero se tornarão realidade ainda nessa primeira metade da oitava temporada, mas uma tragédia grande por demais cairá sobre o grupo nesse meio tempo. É hora de temermos pelos nossos personagens favoritos.

“METE BALA NESSA JANELA MALDITA”

A guerra pela audiência

The Walking Dead retorna para sua oitava temporada (!) com uma missão complicada, a de impedir ou remediar, seja lá como for, a debandada de público que tem acometido o programa. A temporada anterior manteve-se entre as mais assistidas nos Estados Unidos, com mais de 11 milhões de telespectadores. Apesar de impressionante, ainda são 4 milhões de espectadores a menos que no ano anterior, queda significativa demais para passar despercebida pelos donos do dinheiro.

Considerando a maior proximidade com os quadrinhos, a solidez de boa parte do elenco em seus respectivos papéis, a maior complexidade na maquiagem dos zumbis e a presença do vilão Negan, que marcou a série no episódio de estreia passado, estranhei bastante uma perda de audiência  tão maciça. Minhas reflexões, somadas aos vários comentários que li  sobre o tema levaram a duas conclusões, que parecem explicar essa queda.

Há uns anos, um conhecido me contou que havia parado de assistir Dexter ao final da quarta temporada, justificando a decisão pela morte que ali ocorreu, pois esta havia sido punitiva demais. Tenho a impressão de que algo semelhante aconteceu com o público de TWD. O excesso de violência destilado no episódio inicial da temporada anterior foi punitivo demais para parte dos espectadores, que não estava pronto para lidar com um peso emocional negativo vindo de algo que seria supostamente entretenimento. Essa é uma questão curiosa de se observarmos, já que estamos falando de horror, um gênero que se baseia no incômodo e não no confortável. Comentei isso AQUI em um overview sobre a sétima temporada.

Mas a questão mais comentada e, provavelmente, a maior razão, advém da própria adaptação entre mídias diferentes. Nas páginas dos quadrinhos, temos geralmente arcos de seis edições, compondo uma série de sagas diferentes. Em cada edição, há um total de 25 páginas, aproximadamente. O enredo desenvolvido por Robert Kirkman cabe perfeitamente na duração dos quadrinhos. Ao ser transportado para a televisão, esse mesmo conteúdo preciso ser esticado para caber em episódios de 50 minutos.

Ao contrário de programas como Game of Thrones, a história de Kirkman é extremamente simples: dois grupos rivais travam uma luta por dominação/liberdade. Sequer existe uma duplicidade de sentido, é sempre muito claro quem são os vilões e quem são os mocinhos. No fim das contas, temos episódios longos recheados de momentos “vazios”, de conversas e viagens, que não satisfazem ao público. Basicamente, temos uma série mainstream com um ritmo que não se encaixa com o interesse comum de seu público, que tem se cansado. E sabe qual é a verdade? Isso nunca vai mudar.

Estando do outro lado da telinha é sempre mais fácil de criticar e julgar decisões, dizer o que é, ou não, o melhor a ser feito. No papel de alguém que conhece um pouco do assunto e acompanha TWD há tantos anos, arrisco dizer que a melhor solução para lidar com esse assunto é realizar temporadas mais enxutas. Talvez uma temporada com dez episódios, ao invés de 16, consiga contar a mesma estória dando menos voltas e sem a lentidão que muitos julgam como noveleira.

Quando Kirkman começou a escrever os quadrinhos de The Walking Dead, dizia que manteria o título enquanto houvessem histórias para contar, envolvendo aqueles personagens. O mesmo parece acontecer com a série, que apesar da queda de público, não dá sinais de cansaço e promete continuar por alguns bons anos. Como todo fã, torço sempre pelo melhor e acredito que isso pode acontecer de duas formas. A primeira, já mencionada, envolveria uma redução da duração das temporadas. A segunda mudança parte do público, que precisa entender e aceitar de uma vez por todas o produto que tem em mãos.   

O episódio incluiu nos créditos finais um “Em Memória” dedicado a George Romero, atitude nobre, especialmente considerando que o pai dos mortos vivos não era lá muito afeito ao seriado. Nós também prestamos uma homenagem ao mestre, confira!

“Ooooolha a explosão!”


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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