279 – Children Shouldn’t Play With Dead Things (1973)

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1973 / EUA / Direção: Bob Clark / Roteiro: Bob Clark, Alan Ormsby (colaboração) / Produção: Bob Clark, Gary Goch, Peter James e Ted V. Mikels (Produtores Executivos) / Elenco: Alan Ormsby, Valerie Mamches, Jeff Gillen, Anya Orsmby, Paul Cronin

 

Children Shouldn’t Play With Dead Things (daqui para frente irei escrever apenas Children…, porque eita título comprido) é um daqueles exemplares toscos e adoráveis do cinema zumbi. Completamente trash no melhor (e pior sentido da palavra), Children…, dirigido por Bob Clark, surgiu exatamente no hiato pós A Noite dos Mortos-Vivos de George Romero, que havia atualizado o cadáver ambulante canibal (e o cinema contemporâneo de horror) e sua volta ao gênero em Despertar dos Mortos, cinco anos depois, e dos zumbis espanhóis de Amando De Ossorio e Jorge Grau.

Além disso, coloque na conta desse simpático filme camp aquela junção sempre aprazível de zumbis com comédia, nesta altura do campeonato sendo algo completamente inédito e original no gênero, mas um estilo que ficaria famosíssimo principalmente por conta de clássicos vindouros como A Volta dos Mortos-Vivos, Re-Animator – A Hora dos Mortos-Vivos, Fome Animal e até os mais recentes Todo Mundo Quase Morto e Zumbilândia.

Bob Clark (que assina como Benjamin Clark), para quem não liga o nome à pessoa, foi o diretor por um dos mais emblemáticos filmes adolescentes de sacanagem dos anos 80: Porky’s – A Casa do Amor e do Riso, lançado em 1982, responsável por fazer os hormônios da molecada da minha geração simplesmente entrarem em ebulição, e manterem a cena do glory hole no banheiro feminino parte do nosso eterno imaginário sexual. O visionário Clark também tem na bagagem um pioneiro dos slasher movies, Noite do Terror, lançado no ano seguinte e o obscuro e pouco conhecido Deathdream, de 1974, crítica mordaz à Guerra do Vietnã, travestido de filme de zumbi.

Pois bem, filmado em apenas 14 dias, com míseros 70 mil dólares de orçamento, Children… consegue um resultado expressivamente positivo pelo parco dinheiro e tempo com que o filme foi realizado. Apesar das atuações bisonhas de um grupo amador de atores de teatro, as lápides de isopor no cemitério cenográfico e toda a óbvia falta de recursos, se pegarmos como comparação uma dezena de filmes de Roger Corman, ou mesmo bombas homéricas como Plano 9 do Espaço Sideral, Blood Freak e Manos: The Hands of Fate, Children… se sai muito bem. Principalmente no quesito: maquiagem dos zumbis, que está bastante convincente (lembra-me muito a maquiagem do videoclipe Thriller, do Michael Jackson, lançado dez anos depois), mérito de Alan Ormsby, protagonista, colaborador do roteiro e criador da maquiagem.

Thriller night...

Thriller night…

A história gira em torno de uma trupe de teatro, liderada pelo mesmo Alan (que também utiliza o mesmo nome no personagem), que vão até uma ilha-cemitério para ensaiarem para sua nova peça, e ter uma noite maluca cheia de diversão e confusões (coisa meio chamada de Sessão da Tarde, né?). No local, Alan começa a tentar assustar os amigos atores com diversas histórias de terror e assassinatos ocorridos no local, principalmente por parte do cemitério ter sido destinada para assassinos, ladrões, estupradores e todo tipo de escória. Ao se alocarem em uma cabana, quando dá meia-noite, ele revela o verdadeiro motivo de ter levado os companheiros até o local: praticar magia negra para ressuscitar os mortos através de um grimório.

Levando todos para o meio do cemitério e entoando as encantações profanas, após ter violado um dos túmulos e retirado de lá o cadáver de um sujeito chamado Orville Dunworth (Seth Skarley), dois mortos-vivos surgem do além-túmulo, apenas para logo depois, descobrirmos que tudo não passou de uma brincadeira de mal gosto de Alan, que usou dois amigos gays também atores, Roy e Emerson (interpretados por Roy Engelman e Robert Philip) para assustar aos demais convidados. Super divertido! Só que não… Um deles fica tão aterrorizado que até urina nas calças, e fica repetindo isso incessantemente!

Na vez em que Alan tenta levar a sério seu ritual arcano, ele falha miseravelmente, e nenhum morto retorna à vida de verdade, sendo motivo de chacota de todos os outros amigos, pagando com a língua por sua insolência e arrogância. Pois bem, não satisfeito em tentar invocar as forças malignas e ter violado um túmulo, Alan e a gangue levam o cadáver de Orville para a cabana para continuar a festa e praticar mais heresias ainda com o morto, inclusive uma cerimônia de casamento (!!!!), parte das suas piadas doentias. Mas eis que, com seu sono profanado, os zumbis saem de suas covas e partirão para a vingança contra Alan e sua turma, tentando invadir a casa onde mantém seu refúgio (ao melhor estilo Romero). Mas isso só faltando vinte minutos para acabar o filme depois de muita lenga lenga e um festival de atuações tosquíssimas e diálogos enfadonhos.

Não brinque com coisas mortas pessoal!

Não brinque com coisas mortas, pessoal!

Com o casebre caindo aos pedaços, encurralados, eles precisam lutar por suas vidas. ALERTA DE SPOILER. Pule para o próximo parágrafo ou leia por sua conta e risco. O grupo acaba se dando mal (para nosso deleite, mesmo que as mortes sejam na grande maioria off screen) inclusive na memorabilíssima cena onde Alan, porco egoísta empurra a gatinha hippie obcecada pela morte (atriz que era sua esposa naquele momento por sinal) para a horda só para salvar sua própria pele e os próprios zumbis param estupefatos que ele foi capaz de fazer algo assim. Mas haverá a retaliação final, quando Orville está esperando por Alan para acabar com sua raça. Durante os créditos, mais um bando de cadáveres ambulantes pegam o barco, com as luzes de Miami ao fundo, dando a entender o que seria o início no que poderia ser mais uma daquelas infestações zumbis que vemos até hoje, no seriado The Walking Dead, por exemplo. E fica também a lição de moral: crianças não devem brincar com coisas mortas (tradução literal do título do filme).

O que começa como paródia de A Noite dos Mortos-Vivos, transforma-se em uma pessimista crítica velada à contracultura, já que os personagens hippies babacas e seus trejeitos colocam-nos claramente perdidos no tempo espaço do início dos anos 70, e funciona nas entrelinhas como um despertar brutal da geração do ácido, expondo as entranhas do deturpado sentido de comunidade daquela agora entediante e chapada geração paz e amor, que antes proliferava com papos estranhos de cultos bizarros, assassinato em massa, abuso de LSD e afins, tendo o filme de Romero como catalisador e inspirador. O grito explosivo do filme que é uma tosqueira, mas que tem certa mensagem enrustida em sua estrutura, é basicamente comparável a outro pontapé no peito da cultura hippie que é Eu Bebo Seu Sangue, dirigido por David E. Durston em 1970.

Com um roteiro escrito em dez dias, Children… é diversão garantida, e por incrível que pareça, acabou se tornado um êxito comercial e um sucesso nos circuitos de drive-in americanos. Um prato cheio para os fãs dos filmes do gênero. Infelizmente, Bob Clark faleceu em um acidente do carro quando havia anunciado em 2007 que faria uma refilmagem do seu longa. Com isso os planos foram por água abaixo. Não que eu seja a favor de fazer um reamke do filme. Infelizmente foi por conta da prematura morte do diretor que contribuiu de forma importantíssima para dois dos mais populares subgêneros do cinema de horror. E por ter filmado Porky’s, obviamente.

Miolos???

Miolos???

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Children Shouldn’t Play With Dead Things não foi lançado no Brasil.

Download: filme + legenda embutida (4 partes) aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] com o filme Noite de Terror? Isso depois de já ter dirigido dois excelentes filmes de zumbi: Children Shouldn’t Play With Dead Things e […]

  2. […] como por exemplo, a quadrilogia do mortos cegos de Amando de Ossorio, compatriota de Grau, e Children Shouldn’t Play With Dead Things de Bob Clark e Alan Orsmby. Zumbi 3 manteve escancarado o niilismo de A Noite…, e funciona […]

  3. […] da Guerra do Vietnã sob o prisma morto-vivo, a dupla Bob Clark e Alam Orsmby, responsáveis por Childern Shouldn’t Play With Dead Things, resolvem criar o filme de zumbi reacionário, usando-o como um ataque ao sistema em […]

  4. […] a história muito perturbadora (lembrando que Ormsby e Clark foram responsáveis pelos anteriores Children Shouldn’t Play With Dead Things e Deathdream), antes do lançamento do filme Ed Gein – O Serial Killer em 2000, Confissões de um […]

  5. […] Flashdance e Um Tira da Pesada) e o roteiro é de Alan Ormsby, nome conhecido do gênero, por Children Shouldn’t Play With Dead Things, Deathdream e Confissões de um Necrófilo. Era, mesmo sendo um filme de terror, um filmão de […]

  6. Vinicius disse:

    Os vinte minutos finais do filme compensam, mas é dureza aguentar a trupe de babacas hippies (ou foi proposital, justamente para você torcer pelos zumbis). E até hoje não entendi como o Paul conseguiu ser pego por um único zumbi sozinho…

  7. Eduardo Abreu disse:

    No link aparecem somente 3 partes, você poderia, por favor, disponibilizar a quarta?

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