283 – O Exército do Extermínio (1973)

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The Crazies

 1973 / EUA / 103 min / Direção: George A. Romero / Roteiro: George A. Romero, Paul McCollough / Produção: A.C. Croft, Margaret Walsh (Produtora Executiva) / Elenco: Lane Carrol, Will MacMillan, Harold Wayne Jones, Lloyd Hollar, Lynn Lowry

 

Depois de mudar para sempre o cinema de horror, fundando os alicerces dos filmes modernos de terror com seus zumbis, George Romero volta sua metralhadora crítica cinematográfica para a paranoia humana, alienação, descontrole militar, medo da guerra biológica e os fantasmas que ainda rondavam os americanos com o fracasso da Guerra do Vietnã em O Exército do Extermínio.

Diferente do seminal A Noite dos Mortos-Vivos, O Exército do Extermínio foi um fracasso retumbante de bilheteria. Esperando por um desenrolar da infestação zumbi, ou a simples volta dos cadáveres ambulantes, o público se decepcionou com o resultado do filme de Romero. Mas a verdade é que sai o zumbi, mas a paranoia humana e o estado de selvageria e necessidade básica de sobrevivência, egoísmo, racismo e xenofobia, sentimentos típicos que ficam enraizados em boa parte dos seres humanos e afloram quando cutucados, continuam ali.

Ou seja, pior que um morto-vivo devorador de cérebro, está de um lado uma cidade inteira vítima de uma epidemia que os transforma em maníacos insanos assassinos, e do outro, o exército truculento que declara lei marcial, coloca o local em quarentena e não mede o uso de força para impedir que o vírus se espalhe, nem que isso implique em metralhar civis sem dó nem piedade. E pronto, está costurado o emaranhado político social que Romero, em sua filmografia marginal e independente de guerrilha vista em seu início de carreira, traveste de cinema de gênero.

Truculência

Truculência

Essa cidadezinha é Evans City, na Pennsylvania, e o tal do vírus é o Trixie, uma arma biológica criada secretamente pelo exército dos EUA que acidentalmente cai no reservatório de água quando um avião de testes lotado do componente químico ainda não testado cai por lá, deflagrando uma epidemia que irá atingir praticamente todo e qualquer morador do local, afinal, todo mundo bebe água. À surdina, o exército, sem alertar a população, coloca a cidade toda em quarentena, formando sua base no escritório do Dr. Brookmyre (Will Disney, sem parentesco com Walt), de onde despacharão o Major Ryder (Harry Spillman) e o Coronel Peckem (Lloyd Hollar), que enviarão centenas de soldados, vestidos com roupas brancas de proteção e máscaras de gás, recolherem todos os munícipes e os confinarem na escola local para testes e contenção. Custe o que custar.

Há três fugitivos desse cerco: os bombeiros David (Will McMillan) e Clank (Harold Wayne Jones) e a namorada grávida de David, Judy (Lane Carrol). Judy descobriu sobre a existência do vírus e foi testemunha dos métodos nada pacíficos do tal “exército do extermínio”, pois é enfermeira do consultório do Dr. Brookmyre. Junto dos dois, eles levam consigo em sua escapada Artie (Richard Liberty) e Kathy (Lynn Lowry), pai e filha. Enquanto não se sabe quem são mais loucos, se os moradores infectados pelos vírus, que irão matar familiares e militares, em reações adversas entre medo e efeitos patológicos do experimento, ou os soldados que abusam de poder e força bruta, seguindo apenas ordens dos altos escalões governamentais americanos, que não pouparão esforços para que a quarentena não seja quebrada e a praga se espalhe pelo interior do país.

Enquanto o exército se mostra completamente ineficaz, seguindo ordens rígidas que impedem até que o Dr. Watts (Richard France), cientista que desenvolveu o vírus, trabalhe em uma cura, os cinco tentam salvar suas vidas, usando dos mesmos métodos violentos, não se importando nem um pouco de abater também os soldados. Porém, os efeitos nocivos do contágio começam a aparecer aos poucos no pequeno grupo, elevando o nível de desconfiança e intolerância entre eles, levando aquele relacionamento forçado a se igualar a um rastilho de pólvora pronto para se acender e explodir. Para aumentar ainda mais o clima de tensão, tome balas e mais balas cuspindo das metralhadoras dos igualmente assustados soldados, banho de sangue, assassinatos frios desenfreados, velhinhas outrora dóceis matando guerrilheiros com agulhas de crochê, desejos obscuros aflorando (como a desconcertante cena em que o pai superprotetor tenta estuprar a filha em um ato febril de descontrole) e um ritmo alucinado de filmagem imposto por Romero.

É Romero. Mas não são zumbis.

É Romero. Mas não são zumbis.

E o ritmo talvez seja o grande pulo de gato do diretor, pois é ele que segura o interesse na premissa até o final pessimista e aberto do longa (outra das características ímpares de Romero) e mistura momentos de adrenalina pura de busca pela sobrevivência, da insurreição e revolta dos “loucos” e da sufocante tomada de decisões do exército e de seus superiores, com momentos mais contidos de reflexão psicológica e de crítica velada. E pensando no contexto histórico, O Exército do Extermínio foi lançado dois anos antes do final da Guerra do Vietnã, já com seu quadro absurdo de baixas, e seus desdobramentos já começavam a sepultar o American Way of Life e trazer à tona o pessimismo misturado do fim do sonho americano, o que servia como combustível para a exploração de temas pertinentes como o uso do poderio militar contra civis e armas químicas e biológicas (associado ao Napalm, um dos símbolos desta barbárie). Sendo assim, Romero acertaria mais uma vez na mosca colocando toda essa mensagem subliminar em sua obra. E muito fácil traçar paralelos em cenas como, por exemplo, Clank ficando louco e saindo pelo meio da floresta atirando como se fosse o Rambo personificado, com as atitudes americanas no sudeste asiático.

O roteiro de O Exército de Extermínio foi escrito originalmente por Paul McCollough sob o título de “The Mad People”, porém o foco era muito mais na história dos sobreviventes do que na histeria militar, que estaria presente apenas nas 10 primeiras páginas do script. Quando o produtor Lee Hessel leu o material, interessou-se em produzir e distribuir o longa, com um orçamento de 270 mil dólares, porém pediu modificações na história, por considerar a tomada da cidade pelo exército muito mais interessante. Romero aceitou e este passou a ser o mote principal do filme. O longa foi filmado tanto na própria cidade de Evans quanto em Zelienople, duas cidadezinhas da Pennsylvania, 30 minutos ao norte de Pittsburgh e teve muito de seus locais trabalhando como extras, além de próprios bombeiros das cidades e adolescentes dos colégios usando as roupas brancas anti contaminação para representar os soldados.

Com o fracasso, atribuído a Romero pela pequena distribuição da fita nos cinemas americanos, mesmo com o esforço dos produtores em relançarem em várias cidades com nomes diferentes, o diretor logo teve de voltar seus olhos para seus zumbis novamente, e entregar cinco anos mais tarde o magnífico Despertar dos Mortos. Mais tarde, até pelo sucesso do cinema morto-vivo de Romero, O Exército do Extermínio ganharia o status de uma de suas obras mais cultuadas. De quebra, em 2010 ganhou um decente remake atualizado que no Brasil foi batizado de A Epidemia, mais parecido com a ideia do roteiro originalmente descartado, pois foca muito mais na insurreição dos “loucos”, seus atos violentos e a luta pela sobrevivência dos três protagonistas que o cerco militar em si.

Os loucos!

Os loucos!

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] falando de natureza humana, assim como George A. Romero fez em seu O Exército do Extermínio, há todo um discurso como subtexto referente ao comportamento humano (leia-se hostil), tanto dos […]

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