289 – Inverno de Sangue em Veneza (1973)

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Don’t Look Now

1973 / Reino Unido, Itália / 110 min / Direção: Nicolas Roeg / Roteiro: Allan Scott, Chris Bryant, Daphne Du Maurier (história) / Produção: Peter Katz, Frederico Mueller (Produtor Associado), Anthony B. Unger (Produtor Executivo) / Elenco: Julie Christie, Donald Sutherland, Hilary Mason, Clelia Matania, Massimo Serato, Renato Scarpa

 

O exercício de se fazer cinema de suspense praticado em Inverno de Sangue em Veneza é simplesmente soberbo, por assim dizer. Existem grandes filmes, atemporais, que se encaixaram perfeitamente em certo período da história da sétima arte e que funcionam como referência imortal de estilos para determinado gênero. E esse é o caso desta obra prima dirigida por Nicolas Roeg.

Escrito por Allan Scott e Chris Bryant, baseado no livro de Daphne Du Maurier, a mesma autora de Os Pássaros de Alfred Hitchcock, Inverno de Sangue em Veneza é uma obra complexa que mistura elementos sobrenaturais com uma intrincada trama entrecortada sobre pré e pós-cognição, narrativa envolvente e cheia de mistérios levantados por ações e personagens dúbios, dor da perda, medo e perturbação psicológica, capaz de prender e criar diversos pontos de interrogação na cabeça do espectador, tal qual somente um grande filme é capaz, até chegar ao seu final inesperado e completamente arrebatador, em um dos melhores desfechos que o cinema de terror já testemunhou.

Com uma narrativa não linear do diretor britânico, recheado de elipses de tempo que irão permear a trama, a impactante cena de abertura de Inverno de Sangue em Veneza é simplesmente sufocante, e lida com a morte da filha mais nova do casal Laura e John Baxter, vividos pelos excelentes Julie Christie e Donald Sutherland. A garotinha, Christine, afoga-se no lago nas proximidades da residência dos dois, enquanto brincava com o irmão, alheios da atenção dos pais, e a famosa e impactante cena onde o desesperado pai sai com a criança morta em seus braços do fundo do gelado lago é sufocante, assim como o grito de dor e indignação da mãe dado pela tragédia.

Tentando levar suas vidas adiante após algum tempo, o casal inglês muda-se para Veneza, pois John foi contratado para restaurar uma velha igreja local. Enquanto ele afunda-se na rotina de trabalho e pretende renovar os laços familiares com sua esposa, ela busca aceitar a tragédia agarrando-se a qualquer sinal de perdão, o que a leva a conhecer duas misteriosas mulheres em um restaurante, a cega Heather (Hilary Manson) e sua irmã Wendy (Clelia Matania), sendo que Heather possui um poder mediúnico e alega ter visto a filha morta deles junto ao casal. Laura desaba e mesmo a contragosto do marido, que tenta manter-se racional a tudo que acontece, resolve encontrá-las para uma sessão espírita, sendo que a cega adverte John de que ele deve deixar Veneza, pois corre risco de vida.

Pelos canais de Veneza

Pelos canais de Veneza

No meio disso, um cruel assassino está à solta entre os canais e as ruas labirínticas e claustrofóbicas da cidade, e em determinado momento em um passeio noturno pela cidade alagada, John vislumbra uma pequena figura correndo pelas vielas, utilizando uma capa vermelha, a mesma usada por sua filha na ocasião de sua morte. Neste momento do filme, os personagens começam a embarcar nas suas próprias espirais de dúvida que também afligem aquele que está do outro lado da tela: primeiro, tentando decifrar se John vislumbrou o fantasma da filha naquela noite; segundo se as duas irmãs são charlatonas ou realmente estão falando a verdade para a impressionável Laura; e terceiro, a quantidade de personagens dúbios que também levantam todo tipo de suspeita, como o próprio Bispo Barbarrigo (Massimo Serato), que contatou John para restaurar a Igreja, com sua postura soturna e inquietante, ou o inspetor Longhi (Renato Scarpa), que parece pouco interessado, suspeito e esnobe quando John resolve pedir a ajuda da polícia.

Após o outro filho do casal sofrer um acidente no internato que estuda, Laura volta para a Inglaterra e deixa John em Veneza para finalizar seu trabalho. É então que uma espiral de acontecimentos sombrios se iniciará quando John fica a beira da morte ao quase cair de um andaime da igreja (afinal, a médium havia lhe dito que ele corria perigo de vida) e quando mais tarde ele avista sua esposa, que supostamente havia deixado a cidade, em meio a multidão. Um quebra cabeça mental se dá início até que John recebe o fatídico telefonema da esposa na Inglaterra, dizendo que o filho estava bem e que iria voltar para a Itália no próximo voo. Culpando as irmãs e levando-as até a serem detidas para investigação, John se desculpa acompanhando a cega até o hotel onde estava hospedada, para ser testemunha da mesma entrar em uma espécie de ataque epilético ao se contactar com alguma entidade espírita.

Daí uma série de eventos entrecortados irão convergir e transformar todas as perguntas em respostas na fatídica e inesquecível cena final. ALERTA DE SPOILER. Pule para o próximo parágrafo ou leia por sua conta e risco. Eis que após deixar o quarto de hotel de Heather e Wendy, John mais uma vez se depara com a misteriosa figura de capa vermelha, ao mesmo tempo em que um comerciante local grita entre os becos que ela está “possuída” pelo demônio, Heather explode em uma terrível convulsão enquanto é possuída pelo suposto espírito de Christine, refutando mais uma vez que John deve deixar a cidade, o bispo de forma inquieta acorda de seu sono pressentindo um mal terrível e Laura já de volta à Veneza começa a seguir John que partiu em disparada. Ao encurralar a estranha criaturinha, John estupefato (assim como nós) descobre que na verdade o personagem é uma grotesca anã (interpretada pela cantora Adelina Poerio), que tira do bolso da capa vermelha uma lâmina e atinge a sua jugular.

Não olhe agora

Não olhe agora

Inverno de Sangue em Veneza termina com o verdadeiro intuito de nos deixar boquiabertos. E Nicolas Roeg consegue atingir seu feito de forma avassaladora, com sua incrível habilidade de conduzir as cenas de forma impressionista e usando certas associações de imagens e cores como vidros, água e a cor vermelha, ajudado pela impecável edição de Graeme Clifford, misturando flashbacks e flashforwards a todo instante com cenas do presente (algo até então inédito no gênero) dando maior ênfase ao subtexto sobre clarividência do filme, a cinematografia de Anthony Richmond, que captura com estética barroca os cenários, ora deslumbrantes, ora sujos e sufocantes de Veneza, funcionando como um verdadeiro personagem do filme, e a trilha sonora contida e pontual de Pino Donaggio em seu primeiro trabalho para o cinema (descoberto por um dos produtores durante um passeio de gôndola enquanto procurava locações para a fita).

Mas a cena mais famosa do longa-metragem, mesmo com todo o impacto de sua abertura e conclusão, sem dúvida é a cena de sexo entre o casal, poética e magistralmente captada pelas lentes de Roeg, realizada em um momento de desencontros entre os dois durante a estada em Veneza, editada de forma magnânima entre a carnal fusão dos dois corpos, com cenas dos dois já se vestindo após o ato consumado, preparando-se para sair para jantar, explorando a intimidade do casal no momento específico e no pós-sexo, auxiliado pela química entre Christie e Sutherland, sendo que na verdade foi uma cena decidida de última hora por Roeg, ou seja, feita no improviso, pois o diretor alegava haver muitas cenas apenas com o casal discutindo e escancarando a crise conjugal instaurada com a perda do ente querido.

Por mais que a trama envolva o espectador, os aspectos técnicos por trás da filmagem são a cereja do bolo de Inverno de Sangue em Veneza, principalmente sua edição como já destaquei, que mantém o ritmo quase perfeito da película. Fora isso, a verdadeira salada de fruta de gêneros nunca funcionara tão bem quanto nesse exemplar, misturando na dose certa momentos de terror, drama familiar, mistério, sobrenatural e até pitadas dos thrillers italianos e todas as especulações e questionamento que vão se levantando, até todas as possibilidades se esvaírem como sangue pelos canais da chamada Cidade do Amor, mas que aqui, nos é apresentada como uma opressiva e assustadora cidade do terror.

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Gostei, baixando para conferir. Depois voltou para dizer minha opinião.

  2. Pensador Louco disse:

    Filmaço, perfeito do início ao fim. Excelente escolha e um dos melhores que já vi. Abração a todos. 8)

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