Review 2018: #39 – Hostile

Poderia ser um filmaço, mas tem um dramalhão piegas no meio que corta a brisa


Estamos cravando sem dó nem  piedade aqui no 101HM que 2018 é o ano das criaturas no cinema. Desde O Ritual, passando por Um Lugar Silencioso, Aniquilação, Primal Rage, e série The Terror, somos testemunhas de toda sorte de monstro nas telonas e telinhas. O francês Hostile é mais um que entra neste rol das criaturas surpreendentes do ano, no que poderia ser um filmaço.

Poderia, no futuro do pretérito, se tivesse focado no que realmente importa: um survival horror pós-apocalíptico onde uma moça, Juliette (interpretada por Brittany Ashworth) sofre um acidente de carro no meio do deserto à noite, e se vê tendo de sobreviver do ataque de uma noturna criatura humanóide pra lá de sinistra – aparentemente grande parte da população se tornou dessa forma, ao melhor estilo Eu Sou A Lenda – interpretada por ninguém menos que o espetacular contorcionista Javier Botet.

Mas ao invés disso, o estreante Mathieu Turi, responsável também pelo roteiro, apadrinhado por Xavier Gens na produção executiva (sujeito responsável por dois dos filmes mais fodas dos últimos onze anos, (A) Fronteira e O Abrigo – mas ao mesmo tempo, de um sério candidato a pior de 2018, Exorcismos e Demônios) resolveu enxertar uma série de flashbacks piegas de dar dó, contando a história de amor da até então rebelde sem causa e zé droguinha, Juliette, com o bonitão-rico-galerista-de-arte-príncipe-encantado-no-cavalo-branco-vou-te-tirar-dessa-vida-e-te-dar-tudo, para criar o background da personagem antes do mundo misteriosamente ter ido para o vinagre.

Veja bem, não vou desmerecer a criação de um romance e um drama sentimentalóide no meio de uma trama de horror. Faz parte do contexto que Turi quis apresentar ao filme e contar as motivações da nossa heroína. O problema é só que não funciona. O casal não consegue causar a mínima empatia no espectador, a química entre os dois não rola, você não se vê envolto pelo amor clichê, e a quantidade de bocejos que o relacionamento deles causam é de beirar o insuportável.

Furiosa!

O problema, ou solução, sei lá, é que no meio disso, temos aí um filme interessantíssimo, beirando o que há de melhor na recente escola francesa do gênero, e quase que resignificando, porque não, o cinema de zumbi, substituindo o morto-vivo por um ser mutante que só dá as caras à noite, esteticamente cabuloso, graças ao excelente trabalho de maquiagem no já clássico visual emaciado de Botet, o homem por trás da Menina Medeiros de REC, do fantasma de Mamá, da nova Samara de O Chamado 3 e do novo xenomorfo de Alien: Covenant.

Numa terra desolada à lá Mad Max, a guerreirinha, com uma fratura exposta na perna e abandonada à própria sorte à noite, passa pelo tormento dentro de seu jipe, rodeada pelo monstro, em altas boas doses de tensão e atmosfera, e aquela pitada de sangue abundante – afinal, é um longa francês – quando se faz necessário. Pena que o ritmo é completamente quebrado pela monotonia sem fim daquele dramalhão canhestro de um romancezinho barato.

Pode me chamar de insensível – apesar de ter achado a cena final do filme de uma candura e beleza sem tamanho, incluindo aí direção e fotografia – mas a dica que dou para aquele desavisado que ainda não assistiu Hostile, de focar nas cenas do futuro do presente, e passar apertando o fast-foward, o novelão canastríssimo e entediante.

Caso o foco de Mathieu também tivesse sido esse, com aquele pézinho no new french extremity que a gente tanto respeita, o resultado poderia ter sido bem diferente.

3 jipes capotados para Hostile

Come chumbo!


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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