290 – Irmãs Diabólicas (1973)

sisters

Sisters

1973 / EUA / 93 min / Direção: Brian De Palma / Roteiro: Brian De Palma, Louisa Rose / Produção: Edward R. Pressman, Lynn Pressman e Robert Rohdie (Produtor Associado) / Elenco: Margot Kidder, Jennifer Salt, Charles Durning, William Finley, Lisle Wilson

 

Irmãs Diabólicas é o primeiro exercício de suspense do diretor Brian De Palma, não seu primeiro trabalho como diretor, mas o filme que, a partir de sua já famosa inspiração oriunda dos trabalhos de Alfred Hitchcock, começaria a permear os elementos característicos que veríamos em seus longa metragens posteriores e o nascer cinematográfico, por assim dizer, de um dos mais importantes diretores de sua geração.

Hitchcockiano dos pés a cabeça, com claras influências de obras do mestre do suspense como Festim Diabólico, Um Corpo que Cai, Janela Indiscreta e Psicose, Irmãs Diabólicas passa longe de uma simples cópia ou mera homenagem, imprimindo toda a utilização de determinadas técnicas cinematográficas e elementos de narrativa doentias e psicóticas que se tornariam algo tão corriqueiro nos filmes de De Palma.

A premissa é simples, vinda de uma história original do próprio De Palma (que também assina o roteiro ao lado de Louisa Rose), inspirada em um artigo que o diretor leu sobre o sucesso de uma operação de separação de gêmeos siameses na União Soviética. De Palma alegou ter ficado assombrado por uma fotografia dos gêmeos após a operação onde um parecia alegre e saudável e o outro triste e perturbado, e o fato do artigo também abordar as questões sobre os problemas psicológicos sofridos pelos irmãos após a separação.

Quase um J-Horror

Feliz aniversário para mim

Dessa forma somos apresentados a modelo e aspirante a atriz Danielle Breton, personagem vivida por Margot Kidder (a eterna Lois Lane de Superman de Richard Donner), que participa de um programa de televisão de “pegadinhas” junto do publicitário Phillip Woode, com quem vai jantar na mesma noite. Após uma discussão com seu ex-marido, Emil Breton (Willian Finley), os dois vão para o apartamento de Danielle em Staten Island, NY, quando depois de uma noite de amor, Danielle começa a sofrer de um ataque nervoso na manhã seguinte, após uma ferrenha discussão com quem descobrimos ser sua irmã gêmea, Dominique, a quem já sacamos ser sua irmã xipófaga, pois durante a cena de sexo na noite anterior, vemos uma horrenda cicatriz no corpo de Danielle.

Após sair para comprar remédio para a garota, Phillipe também compra um bolo, pois era aniversário de ambas naquela data. Enquanto esta cena casual se desenrola na rua, dentro do apartamento, Danielle começa a sofrer uma violenta convulsão e uma crise psicótica. Ao Phillipe retornar, ele é cruelmente assassinado por Dominique a facadas, e ao tentar pedir ajuda, é visto da janela da vizinha, a jornalista Grace Collier (Jennifer Salt), testemunha ocular do crime. A primorosa cena é filmada utilizando a técnica split screen, dividindo a tela em duas, uma visualizando a agonia e pedido de socorro da vítima, e outra o ponto de vista da testemunha, ao melhor estilo revisitado alguns anos mais tarde na antológica cena do baile em Carrie – A Estranha.

A partir daí, desacreditada pela polícia, por motivos de indisposição anterior graças a artigos publicados pela jornalista, Grace começa uma investigação particular para provar o assassinato ocorrido no apartamento da frente, já que nem ela e nem os policiais encontraram o corpo de Phillipe ao vasculharem a casa de Danielle, já que seu ex-marido ajudou a esconder o cadáver dentro do sofá. A partir deste momento, somos jogados em uma trama macabra de suspense onde vamos conhecer o passado das duas irmãs siamesas, os desdobramentos da operação que as separou no Canadá e a degradação psicológica de ambas, até sermos catapultados para o previsível, porém impactante final.

Diga "X"

Diga “X”

Irmãs Diabólicas derrapa um pouco em seu roteiro e no desenvolvimento da história, mas De Palma, com toda sua capacidade técnica começando a aflorar naquele momento, e inspirado pelos melhores momentos de Hitchcock nas telas, consegue segurar a onda e entregar uma peça redonda na medida do possível, prendendo a atenção do espectador até seu desfecho, elevando o nível de tensão e as injeções de adrenalina, misturado com algumas cenas violentamente ímpares, principalmente do montante de perguntas e respostas que surgem vindas dos personagens dúbios e talvez até desequilibrados espalhados pelo longa, e do subtexto da perda de identidade e do ponto de virada de onde sanidade transforma-se em loucura assassina.

Outro ponto positivo é a trilha sonora conduzida por Bernard Hammer de forma excelente (o mesmo que compôs a trilha de Psicose). E já que falamos das inspirações de Hitchcock, temos em Irmãs Diabólicas o sofá, local onde o corpo que definiria o crime, e até então algo que  “nunca existiu”, pois não foi encontrado (e a excelente reviravolta final para que Grace, erroneamente internada em um hospício, simplesmente deixe de lado o caso) é seu MacGuffin (como o baú no centro da sala de Festim Diabólico?).

Mesmo que a carreira de Brian De Palma seja inconstante, o cara é inegavelmente um gênio, capaz de transmitir uma sensação de suspense como ninguém, de suor frio escorrendo pela testa, coração apertado contra o peito e momentos longevos de respiração contida. Isso sem contar toda a falta de virtude e moralismo de seus personagens, combinado com crueldade e distúrbios psicológicos e doentios, marca registrada de seus longa metragens. Irmãs Diabólicas é a gênese disso. Portanto, indispensável para qualquer cinéfilo.

njnj

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. reneesalomao disse:

    Não seria “BERNARD HERMAN”?

  2. […] Obviamente é uma homenagem rasgada ao Mestre do Suspense, como já havia feito anteriormente em Irmãs Diabólicas ou Vestida Para Matar (que considero sua obra-prima até então). Você respira tanto Janela […]

  3. SENSACIONAL, É O ADJETIVO QUE ME VEIO A CABEÇA, POIS TERMINEI AGORA MESMO DE ASSISTI-LO. EMBORA MARGOT KIDDER INTERPRETE AS GÊMEAS DO TÍTULO, SENDO ASSIM A PROTAGONISTA, NA MINHA OPNIÃO É JENNIFER SALT QUE SURPREENDE, ENTREGANDO UMA EXCELENTE PERFORMACE. O TRUQUE DA TELA DIVIDIDA ME REMETEU A 1986, QUANDO ASSISTI AOS 10 ANOS O CLÁSSICO ABSOLUTO, VESTIDA PARA MATAR. ME LEMBRO DE APRECIAR A TRILHA SONORA, A VIOLÊNCIA MAS A TRAMA ERA CONFUSA DEMAIS PRA UM PIRRALHO. O QUE ME MARCOU VERDADEIRAMENTE FOI ESSE RECURSO. ÓTIMO PASSATEMPO, MAIS UMA VEZ OBRIGADO E TO SEMPRE POR AQUI, GARIMPANDO JÓIAS DESSE GÊNERO TÃO HIPNOTIZANTE DENOMINADO HORROR, ABRAÇO.

  4. Otavio Gomes Filho disse:

    Tem um filme, que ví há muitos anos, década de 80 (acho que no SBT) que é mais ou menos assim:

    Um cara casado, bem parecido com o ator Dennis Weaver no filme Encurralado do Spilberg, de bigode, está sozinho em casa no fim de semana (não lembro se por que a familia viajou ou coisa ssim), duas mulheres batem na porta, duas loiras, lindas. Elas contam qualquer história e o cara põem as duas pra dentro. Rola sexo, mas não demora para as duas começarem a exibir um comportamento maníaco e torturam o cara, quase matam mesmo.

    Lembro que no final elas estavam indo embora pela rua, numa espécie de domingo à tarde, abraçadas e dançando quando de repente um carro (acho que uma Kombi) vira de repente numa curva e dá de frente com elas.A imagem congela antes d emostrar a pancada e sobe um letreiro falando que as duas eram internas fugitivas de um manicômio e que morreram atropeladas e etc…

    Se alguém souber que filme é esse diz aí. Procuro há anos.

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