295 – Torso (1973)

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I corpi presentano tracce di violenza carnale / Torso

1973 / Itália / 92 min / Direção: Sergio Martino / Roteiro: Ernesto Gastaldi, Sergio Martino / Produção: Carlo Ponti, Antonio Cervi (Produtor Executivo) / Elenco: Suzy Kendall, Tina Aumont, Luc Merenda, John Richardson, Roberto Bisacco, Ernesto Colli

 

Já cansei de falar por aqui no blog o quanto Sergio Martino é subestimado como diretor em detrimento de outros nomes mais conhecidos, prestigiados e cultuados do cinema italiano de horror. Mas quer saber, eu quero que se dane e volto a afirmar veementemente que o sujeito é fodão e um dos meus preferidos. E Torso pode ser um filme grosseiro e sujo, com um fiapo de história apenas para ilustrar a contagem de corpos, e considerado um dos mais fracos do seu promissor início de carreira, mas eu acho um SENHOR filme de horror.

Porque assistir Torso hoje em dia é como se você revisitasse a gênese do cinema slahser. Você pode até pensar que várias daquelas situações são clichês e que com certeza você já viu tudo isso, copiado a exaustão nos anos 80 e 90 e até mesmo em obras anteriores como A Mansão da Morte de Mario Bava, mas fato é que muito cineasta e muitos filmes vindouros, desde Halloween – A Noite do Terror, passando por Sexta-Feira 13 e terminando em Pânico, beberam, mas beberam com gosto, na fonte desta fita de Sergio Martino.

Diferente de seus gialli anteriores, como Lâmina Assassina e A Cauda do Escorpião, por exemplo, onde há certa preocupação com a estética, desenvolvimento da narrativa e intrincadas tramas de investigação cheia de reviravoltas e mistério, aqui em Torso, o roteiro quase inexiste e tudo funciona apenas para Martino desfilar um apreço voyueristico pela violência extrema, muitas vezes nos colocando sob o prisma do serial killer, que não faz distinção entre matar homens e mulheres (claro que mulheres, e nuas preferencialmente, são sua predileção) ao praticar seus assassinatos sádicos. Assassino esse também que funcionaria como referência futura para os slasher movies, munido de sua faca afiada, luvas e uma máscara de esqui para cobrir seu rosto.

A trama reta e sem frescura divide-se em duas partes: a primeira se passa em uma universidade na Itália, onde jovens alunos de arte são vítimas de um impiedoso assassino que as estrangula com um cachecol vermelho e preto e as mutila com múltiplos golpes de facada. O local fica tomado pelo pânico, e as suspeitas da polícia recaem sobre Gianni Tomasso (Ernesto Colli), um ambulante que vende cachecóis e outras tranqueiras no campus. Outra suspeita recai sobre Stefano (Roberto Bisacco), sujeito stalker obcecado pela bela Daniela (Tina Aumont), que vive perseguindo a garota.

Serra, serra, serrador, serra o papo da mocinha

Serra, serra, serrador, serra o braço da mocinha

A segunda parte da história se desenvolve quando Jane (vivida pela gatíssima Suzy Kendall), assustada com as mortes, resolve se refugiar em uma pequena casa de campo de seu tio, e convida suas amigas, Daniela, Katia (Angela Covello) e Ursula (Carla Brait) para um final de semana tranquilo. Esse é o momento do filme de deleite para os marmanjos. As três moçoilas, exceto Jane, adoram tomar sol nuas em pelo e Katia e Ursula tem um relacionamento lésbico sem o menor pudor em trocar carícias entre elas. As três ficarem peladinhas é mato. Mas enquanto a safadeza rola solta, o impiedoso assassino resolve ir atrás delas, temendo ser desmascarado por conta do cachecol. Inicia-se mais um banho de sangue e aquele característico jogo de gato e rato com a única sobrevivente.

Logo de início já descobrimos que o assassino tem um devasso problema psicológico e sexual, típico desses psicopatas, e isso irá desencadear as suas motivações misóginas (a morte de homens são meras necessidades de percurso), que ficarão evidentes quando explicada no final do terceiro ato (daquela forma bem macarrônica e meia boca, envolvendo orgias, bonecas de porcelana e traumas), mas que obviamente já temos uma boa ideia e até a suspeita de quem está por trás daquela máscara de esqui, mesmo Martino jogando vários personagens dúbios no decorrer da trama, como sempre o faz, para tentar ludibriar o espectador.

Algumas cenas ímpares de crueldade e violência extrema nos são reservadas durante o desenrolar de Torso, filmadas com passividade e fria distância aterrorizantes pelo diretor. Colocando-nos incólumes pelo POV do terrível serial killer a espreita em determinados momentos, sem dúvida nenhuma a mais impactante e emblemática cena é quando a ninfeta Carol (Conchita Airoldi), após uma festinha hippie se engraçando com dois homens ao mesmo tempo e fumando muita erva (criando as diretrizes dos “dos and dont’s” do cinema de terror adolescente bem antes de John Carpenter) é perseguida pelo psicopata por um campo enlameado e esfaqueada até a morte. Outra cena para os impressionáveis virarem o rosto é quando, após ser chantageado pelo vendedor de cachecóis que sabe de sua identidade, o assassino o esmaga repetidas vezes com um carro contra o muro.

Duas aranhas... Duas aranhas!

Toda nudez será castigada

Mas o mais inventivo na filmografia de Martino, pelo menos nessa primeira metade da década de 70, enquanto ele ainda não dirigia filmes sobre canibais, homens peixes em ilhas ou crocodilos gigantes, é sua capacidade em subverter o giallo, trazendo vários desdobramentos de um estilo único de se fazer cinema de suspense na Itália, famoso por simplesmente ser dado uma espécie de CTRL C + CTRL V (ou COMMAND C + COMMAND V se você tem um Mac) em praticamente todas as obras pós Trilogia dos Animais de Dario Argento. Em Torso, ele flerta com o protozoário do slasher como bem já salientei. Antes disso, ele já havia metido cultos satânicos no meio de Todas as Cores da Escuridão e ainda usado elementos sobrenaturais em No Quarto Escuro de Satã.

E o que falar do excelente nome italiano do filme? Il corpi presentano tracce di violenza carnale? Aposto que você fala em voz alta cantarolando ao melhor sotaque da Mooca e fazendo aquele movimento característico balançando a mão fechada para cima em forma de cunha. Na verdade esta frase, que traduzida ao pé da letra seria “o corpo apresentando traços de violência carnal”, é dita por um dos policiais durante uma aula na universidade, falando sobre as vítimas encontradas.

Torso foi brutalmente censurado nos países de língua inglesa, proibido nos cinemas do Reino Unido e lançado somente no país em 1993 com uma versão em VHS com 50 segundos de cortes orquestrados pela BBFC. A versão uncut, porém tem várias cenas que não foram dubldas em inglês, então são exibidas com o idioma origial. Se você tiver baixado o filme em dual audio nessa Internet de Deus, opte por assistir com o idioma italiano. Milagrosamente até foi lançado no Brasil em DVD.

slasher killer

Típico assassino slasher

Serviço de utilidade pública:

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Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

12 Comentários

  1. Eduardo disse:

    O dvd Ddo filme TORSO ja foi lançado no Brasil no final do ano passado, pela distribuidora MAGNUS OPUS, juntamento com o anterior No quarto escuro de Satã. Apesar da ausencia de extras, a imagem é otima.

  2. Carnivore mind disse:

    A legenda nao esta batendo com o filme, estou tentando achar em outro lugar mais esta quase impossivel :/

    • Olá! Tem programas na net como o Subtitle Workshop ou o Sub Edit (para Windows) e Sub Factory (para Mac) que você consegue corrigir e sincronizar as legendas com o filme. Dê um google que você consegue encontrar bem fácil!

      Abs

  3. Davi Fernando disse:

    Procurei muito por uma crítica decente após ter visto o filme sem nada saber sobre ele antes, e não encontrava nada, estava achando uma vergonha para os fãs do cinema de horror nenhuma crítica decente do filme em português! Então encontrei esse seu excelente texto e me deleitei, rs Sem dúvida vou aproveitar muitas dicas do seu site. Obrigado!!

  4. […] os dois pés no peito. Se em seus gialli já abusava de nudez e mortes gráficas e violentas (taí Torso, que não me deixa mentir, por exemplo), A Montanha dos Canibais é um prato cheio para a veia […]

  5. […] incríveis, como Lâmina Assassina, Todas as Cores da Escuridão, No Quarto Escuro de Satã e Torso. Mas aqui no infame Crocodilo – A Fera Asssssina, simplesmente não há um argumento sequer que […]

  6. […] falta de violência, gore e nudez gratuita, antes marca registrada do cinema de Martino (lembra de Torso?). Aqui as mortes são bem das fraquinhas, não há violência desmedida (até porque os movimentos […]

  7. Hugo disse:

    Longa que apela para nudez , as atuações são ruins e as mortes sem criatividades . Algo positivo são as locações e o suspense que mantém o anonimato do assassino , mas erra na morosidade de revelá-lo .

    Torso é considerado como um dos primeiros Slash produzido e não foi um bom precursor e os sucessores desse exercício também não , o que demostra servir apenas de entretenimento esse subgênero do terror de roteiros ruins , apelativos e simplórios.

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