298 – Confissões de um Necrófilo (1974)

deranged_poster_01

Deranged

1974 / Canadá, EUA / 82 min / Direção: Jeff Gillen, Alan Ormsby / Roteiro: Alan Ormsby / Produção: Tom Karr, Bob Clark (não creditado), Peter James (Produtor Executivo) / Elenco: Robert Blossom, Cosette Lee, Leslie Carlson, Robert Warner, Marcia Diamond, Brian Smeagle

 

Manja o Ed Gein né? Claro que manja, se você gosta de filmes de terror, sabe quem foi o Açougueiro de Planfield: assassino serial, psicótico, necrófilo e canibal, que inspirou personagens de três dos mais importantes filmes de terror de todos os tempos: Psicose, O Massacre da Serra Elétrica e O Silêncio dos Inocentes. A vida de Ed Gein é quem inspira o filme Confissões de Um Necrófilo.

Dirigido pela dupla Alan Ormsby e Jeff Gillen, e produzido de forma não creditada por Bob Clark, que deveria ter dirigido o filme, mas achou a história muito perturbadora (lembrando que Ormsby e Clark foram responsáveis pelos anteriores Children Shouldn’t Play With Dead Things e Deathdream), antes do lançamento do filme Ed Gein – O Serial Killer em 2000, Confissões de um Necrófilo foi o retrato mais próximo da macabra história do assassino para as telas de cinema, mesmo que seu nome, fatos, locais e pessoas, tenham sido alterados para proteger os inocentes.

Edward Gein virou Ezra Cobb, interpretado de forma magistral por Roberts Blossom. Tal qual o monstro da vida real, Ezra, ou Ez, vivia sozinho com sua mãe após a morte prematura do seu pai, quando ele tinha apenas 10 anos, e foi criado pela velha senhora, Ma Cobb (Cosette Lee), uma fanática religiosa que o doutrinou desde a infância a odiar as mulheres e que junto com o pecado da carne, viriam as doenças venéreas e a ira de Deus. Ainda conta o fato de Ma ter sofrido um derrame que a deixou paralítica, confinada na cama de seu quarto, e Ez ficou durante toda sua adolescência e vida adulta, cuidando da mãe. Para os vizinhos, ele era apenas um filho devotado.

Com a morte de sua mãe, Ez começa a entrar em parafuso, e após ser “ordenado pela velha”, desenterra o cadáver decomposto e leva para a sua casa, colocando-a de volta em sua cama, pois não havia mudado absolutamente nada em seu quarto após o falecimento, mantendo até o aquecedor funcionando regularmente, numa clara e disfuncional falta de aceitação da perda da mãezinha querida. Daí por diante para violar novos túmulos foi um pulo, já que Ezra queria tecer uma nova pele para o cadáver da mãe. Aqui no filme eles não enfatizam o “traje de pele de mulher” que o verdadeiro Ed construiu para se travestir e mudar de sexo, mas há um momento do filme em que o veremos usando uma máscara de couro humano e longa peruca.

Filhinho da mamãe

Filhinho da mamãe

Sozinho, completamente demente, Ezra então irá desenvolver seu lado psicopata e assassinar primeiramente uma antiga amiga da mãe, Maureen Selby (Marian Waldman), única em quem podia confiar segundo a mãe, por ser gorda, mas que tenta fornicar com Ez e lhe traz em sua mente todas as palavras carregadas de ciúmes e de misoginia proferidas pela velha Sra. Cobb. A segunda vítima é Mary (Micki Moore), inspirada na vítima de Ed Gein chamada Mary Hogan, dona de um boteco de beira de estrada local. Ezra rapta a moça após oferecer ajuda para trocar um pneu (que ele próprio furou) e a leva para um jantar sinistro em sua residência, com os demais cadáveres em volta da mesa.

Engraçado que Confissões de um Necrófilo estreou nos cinemas americanos em fevereiro de 74, enquanto O Massacre da Serre Elétrica de Tobe Hooper, famosíssimo por uma cena I-DÊN-TI-CA, e que pega emprestado as peripécias horrendas de Ed Gein para criar o terrível Leatherface, estreou somente sete meses depois, em outubro. Nunca imaginei que o filme de Gillen e Orsmby teria servido de inspiração tão descarada para um dos maiores e míticos clássicos do cinema de horror de todos os tempos.

Enfim, sem ser incomodado pela polícia, que julgava o desaparecimento de Mary como uma fuga, Ez ainda teria tempo de cometer mais um crime antes de ser apanhado e suas atrocidades serem testemunhadas pelo mundo. A pobre Sally (Pat Orr), que trabalhava em uma loja de ferragens também foi raptada pelo monstro, pendurada nua de ponta cabeça, presa pelo tornozelo, e sangrada como um animal no abate. Essa foi a dramatização do assassinato real de Bernice Worden, última vítima de Gein antes de ser preso. A casa de Ez tal qual a polícia encontrou no final do filme, como todos os cadáveres, restos mortais e peles usadas como decoração e utensílios domésticos e tudo mais, deve ter sido centenas de vezes menos perturbador do que foi encontrado pela polícia de Winsconsin na vida real, tendo em vista os relatos publicados após a prisão.

A outra face

A outra face

Confissões de um Necrófilo consegue captar todo o clima doentio e macabro que sempre esteve envolto na persona e nos crimes de Ed Gein, e ainda assim, como um toque característico de Ormsby e Clark, há uma pitada de humor negro inserida, tanto em algumas situações chaves que promovem um riso desconfortável e nervoso por conta das bizarrices (como, por exemplo, durante a sessão espírita em que Maureen Selby está “recebendo” o espírito do falecio marido que pede para que Ezra transe com ela), como na própria atuação de Blossom que beira o caricato com suas caras e bocas. Vale sempre lembrar que a dupla mais tarde seria responsável simplesmente por um dos maiores escrachos cinematográficos dos anos 80, quiçá da história do cinema, Porky’s – A Casa do Amor e do Riso. Para você ver…

Outro ponto alto do filme, e até certo ponto angustiante, é a trilha sonora minimalista de Carl Zitter, onde uma soturna versão instrumental do hino religioso “The Old Rugged Cross” é tocada repetidamente durante toda a fita. É mórbido pacas. Já no quesito maquiagem e efeitos visuais, as eviscerações, pedaços de pele humana e cadáveres putrefatos levam a assinatura do próprio Ormsby, Jerome Bergson e de ninguém menos que o mestre Tom Savini em começo de carreira, na verdade seu segundo filme, sendo que o primeiro é exatamente Deathdream, dos mesmos idealizadores, filmado em 72, mas lançado nos cinemas americanos também em 74.

Assista Confissões de um Necrófilo, e depois vale ler sobre os crimes horrendos de Ed Gein para traçar seu paralelo (uma leitura sempre altamente recomendada é do livro “Serial Killer – Louco ou Cruel”, de Ilana Casoy), e assistir as suas cinebiografias mais recentes, como a já citada película de 2000 e o mais recente Ed Gein – O Assassino de Plainfield, de 2007, onde ele é curiosamente interpretado por Kane Hodder, o eterno Jason Voorhees da série Sexta-Feira 13 nas partes 7, 8 e Jason vai Para o Inferno.

Ed!

Ed!

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Confissões de um Necrófilo não foi lançado no Brasil.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

6 Comentários

  1. […] As mortes começam quando um caminhoneiro que deu carona para Andy é encontrado morto pela polícia com uma marca de seringa nos braços e a garganta dilacerada. No café de beira de estrada, testemunhas dizem que o pobre caminhoneiro havia dado carona tarde da noite para um soldado “esquisitão”. E então a velha dona do café pergunta: “Por que um soldado faria aquilo?”. Essa e outros chistes militares estarão subentendidos no filme, especialidade de Clark e Ormsby em colocar sempre um véu de humor negro por trás de todo o gore ou de suas contestações políticas e culturais, como no próprio Childres Shouldn’t Play With Dead Things ou mesmo em trabalhos posteriores, como Confissões de um Necrófilo. […]

  2. […] Ormsby, nome conhecido do gênero, por Children Shouldn’t Play With Dead Things, Deathdream e Confissões de um Necrófilo. Era, mesmo sendo um filme de terror, um filmão de […]

  3. MATHEUS L. CARVALHO disse:

    Um filme brilhante!
    Assustador, dramático, perturbador e absolutamente brilhante!

  4. Friedrich disse:

    O link não pega ….

  5. Athos Fernandes De Lisboa disse:

    INDISPONIVEL

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: