299 – Deathdream (1974)

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Deathdream / Dead of Night / The Night Walk / The Night Andy Came Home

1974 / Canada, EUA, Reino Unido / 88 min / Direção: Bob Clark / Roteiro: Alan Orsmby / Produção: Bob Clark, John Trent, Peter James, Gerald Flint-Shipman e Geoffrey Nethercott (Produtores Executivos) / Elenco: John Marley, Lynn Carlin, Richard Backus, Henderson Forsythe, Anya Ormsby, Jane Daly

 

Inspirado nas histórias de vinganças arquitetadas do além túmulo típicas da EC Comics e com o intuito de mostrar os horrores da Guerra do Vietnã sob o prisma morto-vivo, a dupla Bob Clark e Alam Orsmby, responsáveis por Childern Shouldn’t Play With Dead Things, resolvem criar o filme de zumbi reacionário, usando-o como um ataque ao sistema em Deathdream.

A história de um soldado morto em combate que volta para a terra natal como um zumbi (antes do filme e da série francesa Les Revenant ou do episódio “Homecoming” de Joe Dante para a também série Masters of Horrors), neste caso da Guerra do Vietnã, foi um dos primeiros filmes, de terror ou não, a abordar esse tema delicado, em uma época que Hollywood considerava o conflito um fracasso de público.

Mas como as inconsequentes produções marginais sempre podem se revelar muito mais do que se imagina (e foi esse direcionamento que definiu todo o cinema a partir dos “filmes de diretor” lançados durante os anos 70), Deathdream teve o peito de mostrar um tema que era um espinho atravessado na garganta de uma machucada América e escancarou, de certa forma, o impacto de ter de lidar com esse assunto. Apesar de infelizmente não ter feito sucesso e mostrar-se tardiamente reconhecido, sendo produzido em 1972 mais lançado nos cinemas americanos apenas dois anos depois.

Partindo de uma premissa simples e eficaz, inspirado informalmente no conto “A Pata do Macaco” de W.W. Jacobs, esse horror político traz o jovem Andy Brooks (Richard Backus), soldado americano que retorna para casa depois de ter sido dado como morto, e sua mãe, inconsolável (até porque antes da notícia ela vivia presa em seu mundo de negação, enquanto marido e filha já começavam a aceitar a ideia de que o familiar podia estar morto após certo tempo sem receber nenhuma carta do front) faz um pedido para o cosmo e é atendida. O problema é que Andy não volta como fora. Agora ele é um zumbi, que vive caladão, usando óculos escuros durante a noite, balançando-se ininterruptamente em sua cadeira de balanço, é agressivo com o cachorro e crianças e o detalhe principal: precisa de sangue humano para não apodrecer de vez.

Zumbi na noia!

Zumbi na noia!

As mortes começam quando um caminhoneiro que deu carona para Andy é encontrado morto pela polícia com uma marca de seringa nos braços e a garganta dilacerada. No café de beira de estrada, testemunhas dizem que o pobre caminhoneiro havia dado carona tarde da noite para um soldado “esquisitão”. E então a velha dona do café pergunta: “Por que um soldado faria aquilo?”. Essa e outros chistes militares estarão subentendidos no filme, especialidade de Clark e Ormsby em colocar sempre um véu de humor negro por trás de todo o gore ou de suas contestações políticas e culturais, como no próprio Childres Shouldn’t Play With Dead Things ou mesmo em trabalhos posteriores, como Confissões de um Necrófilo.

Logo em seguida, a vítima será um médico que começa a desconfiar de Andy quando seu pai, Charles (John Marley) conta ao doutor sobre o comportamento estranho do filho ao voltar da guerra, alcoolizado ao afogar às magoas por Andy ter estrangulado o seu cachorrinho. Ligando A + B, e sabendo da história da suspeita de um soldado, o Dr. Allman (Henderson Forsythe) acaba sendo perseguido pelo ex-combatente zumbi, que diz que “morreu por ele” e precisava de alguma coisa em troca: seu sangue e sua carne.

A escalada de mortes irá aumentar, não importando o quão próximo Andy é de suas vítimas, apenas para que ele supra seu desejo insano e para evitar que vire um cadáver putrefato ambulante, chegando até a ser auxiliado por sua histérica mãe, Christine (Lynn Carlin). Tudo travestido em meio a um drama familiar, onde os Brooks vão se degradando pouco a pouco como família, enquanto a mãe, Christine, fecha-se em seu mundo, atacando pai e filha para defender o rebento que seu desejo trouxe de volta, Charles recorre ao alcoolismo, amargurado e cheio de desgosto e Cathy (Anya Orsmby, esposa de Alan) é segregada, tentando apenas fazer com que o irmão saia com sua antiga namorada em um “double date” com ela e o namorado, e que as coisas voltem a ser como nos velhos e bons tempos.

Chico Xavier?

Hypster

Nesse desarranjo familiar que está embutida a maior mensagem anti-Guerra, fazendo o filho voltando como um zumbi, uma metáfora no efeito devastador para milhares de jovens que voltaram perturbados psicologicamente do confronto no sudeste asiático (apesar da palavra Vietnã nunca ser usada no filme todo) e como famílias simplesmente desintegraram tanto com a espera de notícias dos filhos, ou com o comportamento estranho e antissocial que muitos voltaram para suas casas, nunca mais conseguindo fazer suas vidas voltarem ao normal.

Enquanto isso, o ex-soldado precisa da morte, do frenesi de matar alguém, para poder voltar a se sentir humano, e não um morto ambulante, ou em paralelo, faz uma relação com o aumento do número de jovens que voltaram dependentes químicos (afinal Andy injeta sangue de outras pessoas em suas próprias veias vazias, e isso lhe dá um barato, vigor e energia). Tudo isso reflete-se na introspecção de Andy que explode em um vórtice de raiva descontrolada quando está praticando seus “assassinatos por sobrevivência”, mortes em solo americano, sob um ponto de vista pouquíssimo diferentes das que promoveu no estrangeiro, em nome de seu país.

Pois saiba você também, que além de investir pesado na crítica social contra a guerra e consequentemente a indústria militar americana, Deathdream figura como o primeiro filme em que o mestre Tom Savini faria a maquiagem. Trabalhando junto com o próprio Alan Orsmby (que também escreveu o roteiro), Savini já mostra ao que veio e percebe-se claramente porque mais tarde ele seria o mais importante mago dos efeitos de maquiagem do cinema de horror. Tanto a sinistra aparência de Andy transformando-se fisicamente em um zumbi de fato, com seus olhos arregalados, pele apodrecida e dentes cerrados em uma expressão de mais puro ódio incontrolável (que levou seis horas para ser aplicada), quanto as subsequentes mortes, incluindo aí o pandemônio que acontece no drive-in (onde Andy chega a passar por cima de uma pessoa com seu carro), podem ser creditadas na conta de Savini.

Outro grande motivo para assistir essa pequena gema do cinema de terror.

Meu filho é um morto-vivo!

Meu filho é um morto-vivo!

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Deathdream não foi lançado no Brasil.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. oscar_b disse:

    Vale ressaltar também o brilhante nome do filme, que faz uma relação com o sonho de defender os interesses do país, que na verdade seria um sonho de morte

  2. […] Quem diria que Bob Clark, mesmo diretor de Porky’s – A Casa do Amor e do Riso, foi o responsável pela gênese do slasher, com o filme Noite de Terror? Isso depois de já ter dirigido dois excelentes filmes de zumbi: Children Shouldn’t Play With Dead Things e Deathdream. […]

  3. […] é de Alan Ormsby, nome conhecido do gênero, por Children Shouldn’t Play With Dead Things, Deathdream e Confissões de um Necrófilo. Era, mesmo sendo um filme de terror, um filmão de […]

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