305 – A Lenda dos Sete Vampiros (1974)

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The Legend of the 7 Golden Vampires

1974 / Reino Unido, Hong Kong / 83 min / Direção: Roy Ward Baker / Roteiro: Don Houghton / Produção: Don Houghton, Vee King Shaw, Run Run Shaw e Rumme Shaw (Produtores Executivos – não creditados) / Elenco: Peter Cushing, David Chiang, Julie Ege, Robin Stewart, Szu Shih, John Forbes-Robertson, Shen Chan

 

Mas era só o que me faltava!!!!! Vampiros que lutam kung-fu???? Mas sim, a Hammer conseguiu levar essa premissa adiante em A Lenda dos Sete Vampiros. Uma caricatura do que o grande estúdio já foi um dia, agora tentando desesperadamente recuperar o interesse do público jovem e levá-los aos cinemas, misturando uma história com o Drácula (porém sem Christopher Lee vestindo a capa e presas) na China, às voltas com um grupo de irmãos lutadores que gostam de distribuir sopapos por aí.

Em primeiro lugar, é melhor encará-lo como uma comédia trash do que um filme de terror propriamente dito. Segundo, desde o começo dos anos 70, quando a Casa do Horror começara a entrar em declínio e sua estética gótica, tão popular e famosa na década anterior, passou a não gerar o mínimo interesse em novos espectadores, o estúdio começou a perder muita grana e a Hammer tentou de toda maneira possível conseguir recuperar seu status quo. Começou aumentando a dose de sangue e colocar belas garotas nuas nos seus filmes. E quando nada parecia dar certo, eles tiveram a brilhante ideia de abrir os olhos para o crescente do mercado dos filmes de kung-fu, por conta do estrondoso sucesso mundial de Bruce Lee.

E também colocando esses mesmos olhos no mercado asiático, eis que a Hammer se uniu a produtora Shaw Brothers, de Hong Kong, em uma turbulenta parceria, e deu origem a esse híbrido bizarro de lutas marciais com vampirismo em A Lenda dos Sete Vampiros. Na boa? É o pior filme da Hammer, sem sombra de dúvida. Talvez o emergente mercado de filmes de artes marciais fosse uma solução, porém o tiro saiu pela culatra de forma bisonha.

Vai acordar o sono do homem, vai...

Falsificaram o Christopher Lee…

Dirigido pelo já lendário Roy Ward Baker (com as cenas e suas coreografias de luta sendo dirigidas por Cheh Chang, de forma não creditada), a trama escrita por Don Houghton parece até piada de mal gosto: O monge chinês Kah (Shen Chan) resolve ir até a Transilvânia (a pé, pelo que dá a se entender no começo do filme) barganhar com o Conde Drácula em pessoa (aqui vivido pelo péssimo John Forbes-Robertson) uma ajuda para trazer de volta à vida os terríveis sete vampiros dourados que viveram em um ermo vilarejo chinês, e assim voltar a tomar o controle do seu povoado.

Drácula, que não é lá o sujeito ideal para se pedir ajuda, desdenha de Kah e resolve se apoderar do corpo do monge, disposto a vagar até a China e trazer os terríveis vampiros de volta à vida, e assim orquestrar sua vingança contra a humanidade, escravizando a aldeia, sugar o sangue das virgenzinhas chinesas e tocando o terror. Passados 100 anos, o destemido Prof. Van Helsing (interpretado pela última vez por Peter Cushing), promove uma palestra sobre vampiros em uma universidade da China no comecinho do Século XX, quando é motivo de xacota dos alunos orientais, exceto Hsi Ching (David Chiang), que precisa da ajuda do velho caçador para libertar sua aldeia da terrível presença de Drácula e de seus Sete Vampiros Dourados ressuscitados.

Enquanto Ching e seus outros cinco irmãos e irmãs partem junto de Van Helsig, seu filho Leyland (Robin Stewart) e a Sra. Vanessa Buren (Julie Ege) que financia a expedição, eles serão atacados dezenas de vezes pelos vampiros e seus comparsas, apenas para poderem mostrar todas as suas habilidades nas artes marciais nas cenas de pancadaria, com vários socos, chutes, voadoras, espadas, lanças, maças, e corações sendo arrancados com as próprias mãos. Isso até eles conseguirem chegar ao vilarejo, onde vampiros e carniçais desmortos cavalgam em cavalos e usam máscaras e armaduras, e o clã Ching tentar liberar seu povo, com Van Helsing travando a última e definitiva batalha contra sua nêmesis vampiro na história do estúdio inglês.

Que roubada hein, Sr. Cushing?

Que roubada hein, Sr. Cushing?

O eterno Drácula, Christopher Lee, foi convidado para participar do filme, mas adivinhe só qual foi sua resposta ao ler o roteiro? O papel caiu no colo de John-Forbes Robertson, que faz um dos piores vampiros mor da história e ainda ficou puto da vida quando descobriu que foi dublado por outro ator. Isso quando não vemos a maior parte do tempo, o china Chan Shen na pele do Príncipe das Trevas. E não tem como passar incólume a fatídica cena em que Peter Cushing tropeça, cai sobre a brasa e quase parte dessa para uma melhor (se você nunca viu, está lá devidamente esculhambada no Horrorcast do filme lá no final do post).

A Lenda dos Sete Vampiros foi uma tortuosa jornada até chegar ao seu produto final, principalmente por conta dos inúmeros desentendimentos e brigas entre os executivos da Hammer e da Shaw Bros. Pior ainda que grande parte do elenco e equipe técnica não falavam uma palavra em inglês (nem “the book is on the table”) e o filme foi totalmente dublado mais tarde. Nem a trilha sonora contundente do veterano James Bernard consegue se salvar (e olhe que a Hammer chegou até a lançar um vinil com a narração da história feita por Cushing e a trilha de Bernard, chamado “The First Kung-Fu Horror Soundtrack Album”). Mas nada adiantou. Apesar da boa recepção no oriente, essa mistura nada usual não convenceu os chefões da Warner Bros. que só lançou o longa nos cinemas americanos SEIS ANOS depois, e ainda com 20 minutos a menos de duração. O que deveria ser um alívio par ao publico.

“O primeiro filme de caratê e vampiro”, como alardeado pela publicidade brasileira durante seu lançamento nas terras tupiqinquins, A Lenda dos Sete Vampiros é na verdade uma tristeza. Era para ser divertido, inusitado, emocionante, mas é apenas um melancólico espectro do que fora a genialidade da Hammer de outrora, e trágico por em seus últimos suspiros, fazerem qualquer negócio para ganhar mais algumas libras.

Drácula "xing-ling"

Drácula “xing-ling”

Assista ao episódio do videocast do 101 Horror Movies comentando A Lenda dos Sete Vampiros:

Serviço de utilidade pública:

O DVD de A Lenda dos Sete Vampiros não foi lançado no Brasil.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Paulão Geovanão disse:

    1974 foi um ano agitado para o gênero terror.

    • Foi sim Paulão! Afinal, o que pode ser mais agitado que vampiros lutando kung-fu? 😉

      E ainda tiveram vários filmes bacanas nesse ano que entrarão na lista.

      Abs

      Marcos

  2. Mas que coisa, fico imaginando o que passou pela cabeça de Cushing quando ele aceitou o papel, pois eu acredito que C. Lee deve ter avisado do tremendo barco furado. Vai saber…
    Banquei a curiosa, não segui seus conselhos Marcos, vi O Sacrifício… (o negócio da abelhas confesso não entendi). Não farei o mesmo com este, nem mesmo pelo adorado Peter Cushing.
    Não parece, mas passo por aqui todos os dias. ^^

    Abraço!

    • Falei pra você não assistir, Ana Paula…hahahahahahaha

      Pois não assista, esse! Ver o episódio dele no Horrorcast já está de bom tamanho e lhe poupa dessa tortura.

      Que bom!!! Seja bem-vinda sempre!

      Abs

      Marcos

  3. Paulão Geovanão disse:

    Não poderia fazer apenas um filme de kung fu? Pq ter que colocar vampiros? Que gente burra

  4. […] Leia a minha resenha sobre A Lenda dos Sete Vampiros aqui. […]

  5. […] a atenção do público, atirando para tudo quanto é lado, assim como, por exemplo, o infame A Lenda dos Sete Vampiros, misturando terror com kung-fu (esse Lee sabiamente pulou fora do barco ao ler o roteiro). Bom, Já […]

  6. HAL 9000 disse:

    Aqui fiz um “minuto-a-minuto” desse filme: http://alertageral.wordpress.com/2009/11/24/2386/

  7. […] modinhas de época, que deram miseravelmente errado (como os filmes de kung-fu no inenarrável A Lenda dos Sete Vampiros, ou de espionagem em Ritos Satânicos de […]

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