315 – Zumbi 3 (1974)

Non-si-deve-profanare-il-sonno-dei-morti

Non si deve profanare il sonno dei morti / Let Sleeping Corpses Lie

1974 / Itália, Espanha / 95 min / Direção: Jorge Grau / Roteiro: Sandro Continenza, Marcello Coscia, Juan Cobos e Miguel Rubio (não creditados) / Produção: Edmondo Amati, Manuel Pérez (Produtor Executivo) / Elenco: Cristina Galbo, Ray Lovelock, Arthur Kennedy, Aldo Massasso, Giorgio Trestini, Roberto Posse

 

Zumbi 3 (ou A Revanche dos Mortos-Vivos II, como também ficou conhecido no Brasil) é o verdadeiro discípulo de A Noite dos Mortos-Vivos de George Romero. O espanhol Jorge Grau assume com clareza os elementos zumbis, dando continuidade aos temas, arquétipos e  situações que fizeram o filme de Romero um sucesso do gênero alguns anos antes.

Posso dizer com toda a honestidade do mundo, que durante o hiato de dez anos entre A Noite dos Mortos-Vivos e Despertar dos Mortos, Zumbi 3 foi o melhor e mais autêntico filme de cadáveres ambulantes lançado, preenchendo uma lacuna que vinha sido explorada por filmes com maneirismos completamente diferentes do que estamos acostumados no gênero, como por exemplo, a quadrilogia do mortos cegos de Amando de Ossorio, compatriota de Grau, e Children Shouldn’t Play With Dead Things de Bob Clark e Alan Orsmby. Zumbi 3 manteve escancarado o niilismo de A Noite…, e funciona como um predecessor gore de Despertar…

Fugido da Espanha natal por conta do regime Franco, Grau leva seus zumbis para o interior da Inglaterra, trazidos à vida por conta de experimentos com radiação do Ministério da Agricultura inglês, no intuito de exterminar uma praga de insetos no local, fazendo com que esses seres primitivos e de sistema nervoso reduzido, ficassem alucinados de raiva e matassem uns aos outros. Obviamente, por sermos escolados no gênero, sabemos que esses efeitos da radiação será a causa dos problemas, trazendo os mortos à vida.

A explicação, das mais fantasiosas, é que quando morremos, por algum tempo nosso sistema nervoso continua a funcionar de forma extremamente reduzida, tal qual os insetos. Bombardeados por essa radiação experimental, faria os cadáveres voltarem de seus túmulos com agressividade fora do controle. E isso será descoberto da pior forma possível por George (Ray Lovelock), um vendedor de antiguidades de Manchester, que quer passar um final de semana idílico em uma casa de campo no Lake Districk, mas sua moto é quebrada pela bela Edna (Christine Gabo), em um pequeno acidente num posto de gasolina.

Fazendo uma boquinha

Fazendo uma boquinha

Edna estava indo de encontro de sua irmã, Katie (Jeannine Mestre), que vive afastada com seu marido fotógrafo Martin (José Ruiz Linfante), lutando (ou não) contra o vício das drogas. Ao fim, para compensar a moto que ficou no posto para reparo, Edna dá carona para George. Ao tentar pedir informações, George acaba conhecendo a tal máquina que funciona melhor do que quando o DDT foi inventado (segundo um dos operadores), enquanto Edna misteriosamente é atacada por um mendigo local, que supostamente havia morrido afogado há duas semanas.

O casal só chega até a casa da irmã de Edna tarde demais, quando o marido da mesma é brutalmente assassinado pelo mesmo mendigo morto-vivo. Obviamente, a polícia não irá acreditar nem em Edna, nem em sua irmã drogada, e o Inspetor McCormick (Arhtur Kennedy), autoridade reaça local, colocará a moça como suspeita e os dois como cúmplices, principalmente George, que para ele, é igual a todos os hippies (com suas roupas de “viado”, cabelo comprido, barba, e desejo por sexo, drogas e rock ‘n’ roll).

Tentando provar a inocência da irmã, e ao mesmo tempo, que não está perdendo o juízo e foi atacada, e depois testemunhado o cunhado sendo assassinado por alguém já morto, Edna segue George até o cemitério, só para se dar conta que os mortos estão vivos, e infectando outros cadáveres para que uma pequena, porém eficiente, insurreição zumbi comece. Daí é lutar por suas vidas contra corpos ambulantes, e principalmente contra a autoridade policial local, ainda mais depois que mais dois oficiais são mortos e a culpa mais uma vez cai sobre os heróis, deixando o Inspetor McCormick cada vez mais puto da vida. O clímax acontece com uma invasão zumbi no hospital, reservando para o terceiro ato os momentos de violência gráfica, o jorro de sangue e as tripas sendo arrancadas.

Ao ataque!

Ao ataque!

Mas o que fica nas entrelinhas deste excelente filme de zumbi são os nuances que Grau coloca em mensagens escancaradas ou subliminares no decorrer de seu filme. O primeiro é a gritante mensagem ecológica de que estamos cada vez mais ferrando com o meio ambiente e que estamos sendo envenenados com o progresso, como ele mesmo atribuiu durante o lançamento do filme. O segundo é que vivemos passivos em uma sociedade já moribunda, esperando apenas o iminente desastre acontecer. Até o próprio ritmo do filme implica que todos ali são seres vivos, mas autômatos (como os funcionários do Ministério da Agricultura, a polícia omissa e o casal Katie e Martin, em crise conjugal, uma dependente química e o outro sem mais propósito para lutar contra isso), em um mundo devagar quase parando, cínico, sem forças para reagir. É a destruição deliberada da ordem social e do governo em forma de cinema zumbi, tal qual Romero já havia mostrado o caminho anteriormente.

Outro ponto interessantíssimo em Zumbi 3 é a polícia fascista e corrupta, encarnada pela figura do Inspetor McCormick. Obviamente, uma crítica velada ao abuso de poder do governo Franco e ao conservadorismo reacionário. São as autoridades burras, inúteis e truculentas, sem visão e apenas determinadas a usar a força para acabar com a corja. George é a antítese a esse sistema totalitário, e será caçado, julgado e servirá de exemplo para os demais, desejo ardente demonstrado sem o menor rodeio por McCormick. ALERTA DE SPOILER. Pule para o próximo parágrafo ou leia por sua conta e risco. O final do filme e o epílogo é a resposta de Grau a esse sistema. Após o ataque zumbi ao hospital, George é sumariamente executado por um descontrolado McCormick, que baba nervosamente “queria mesmo que os mortos voltassem à vida, seu filho da puta, pra eu poder te matar de novo”. Eis que George voltará a vida e dará uma lição no policial, para deleite do espectador que já tinha perdido suas esperanças na humanidade.

Obscuro e pouco conhecido, principalmente perto de seus contemporâneos famosos e as gemas splatter italianas vindouras, Zumbi 3 (de onde saiu esse “três” hein?) é um filme que não pode faltar na lista de melhores filmes de zumbi de todos os tempos.

Sangue no rosto

Sangue no rosto

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Zumbi 3 não foi lançado no Brasil.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] que acaba transformando a todos que tomaram aquele vinho em zumbis (algo que me lembra a trama de Zumbi 3 de Jorge Grau). Mas não são aqueles zumbis no sentido bíblico de mortos-vivos sedentos por carne […]

  2. Paulo Pedro disse:

    qual é maninho a legenda num ta sincronizada não

  3. Guilherme Souza disse:

    O torrent parou em 35%, que sacanagem… e eu ansioso para ver esse filme, e agora? =/

  4. Depois de duas semanas consegui baixar, agora outro problema: a sincronia da legenda. Vamos lá mais uma vez rs…

  5. O título desse filme sempre me confundiu pois na locadora em que trabalhei o tinha em VHS como A Revanche dos Mortos Vivos II, e eu sempre me perguntei por onde andava o I, mas enfim… eu vi (em VHS lá da locadora) e achava uma maravilha. Tinha aquele charme de fita velha, imagem borrada, trilha sonora estranha… adoro. Vou baixar agorinha pra nunca mais largar.

  6. guilherme disse:

    cara nem sei se o torrent tá bom ou não, to vim aqui agradecer você cara, você tá salvando meu trabalho de conclusão de modulo da faculdade, fiquei sem grupo e tive de fazer sozinho, por isso o professor me deu a colher de chá de escolher um tema livre, decidi fazer sobre terror, mas é muito dificil achar esses filmes para baixar, não tem ideia da caralhada de virus que já peguei tentando baixa-lo, o seu site tem td que eu preciso e muito mais. OBRIGADO!!!

  7. Matheus L. Carvalho disse:

    Um filme brilhante!
    Do jeito que os filmes de Terror Europeus dos anos 70-80 eram.

  8. Aarom disse:

    Só uma correção rápida. “O DVD de Zumbi 3 não foi lançado no Brasil.”
    Na verdade, o filme está no (excelente) Box “Zumbis no Cinema” da Versátil. Foi assim que descobri essa obra-prima!

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