316 – Calafrios (1975)

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Shivers / They Came From Within

 1975 / Canadá / 87 min / Direção: David Cronenberg / Roteiro: David Cronenberg / Produção: Ivan Reitman, Don Carmody (Co-produtor), John Dunning, André Link, Alfred Pariser, Peter James (Produtores Executivos) / Elenco: Paul Hampton, Joe Silver, Lynn Lowry, Alan Migicovsky, Barbara Steele

 

Em Calafrios, seu primeiro filme para o cinema, David Cronenberg já nos dá uma pista logo de cara de como se tornaria um diretor de filmes subversivos e repulsivos, mostrando onde somos vítimas do corpo e da fragilidade da carne humana, além de escravos dos nossos desejos reprimidos e um produto de uma sociedade caótica e instável.

Nessa assustadora história de zumbis humanos, o inventivo diretor canadense nos apresenta um filme depravado e nojento, que mistura pornô softcore, colocando na tela sexo, seios à mostra, mamilos duros, fetiche, strip-tease despropositados, lesbianismo à flor da pele, misturado com terror asqueroso e sangrento (uma marca registrada dos primeiros filmes de Cronenberg).

Mas não vá pensando que Calafrios só foi feito pensando no público das grindhouses. Claro que eles adoraram o filme, mas na verdade ele é uma tremenda crítica social ao status-quo, disfarçado de filme apelativo, explorando o niilismo da sociedade, a subversão dos valores e a misantropia. Feito por um Cronenberg explosivo em começo de carreira, sem um puto no bolso, tendo que viver no limite e cheio de desprezo pela carne para contar, como explorou em seus outros longas como Enraivecida na Fúria do Sexo, Videodrome – A Síndrome do Vídeo e A Mosca.

ECA!

ECA!

Logo no comecinho somos apresentados ao complexo de edifícios de luxo Starline, situado em uma ilha próxima a Toronto, que deveria ser objeto de desejo de todo canadense, ou cidadão de qualquer grande cidade do mundo. É um sonho de consumo imobiliário, afastado do caos do centro, equipados com eletrodomésticos das marcas mais modernas, TV a cabo, lavanderia à seco, quadras poliesportivas, clínica médica e dentária, mercado de conveniências e feito com tubos e conexões Tigre. Um paraíso perfeito. Porém, o vídeo de abertura é uma propaganda monocórdia que mete mais medo e te dá aquele frio na espinha de saber que alguma coisa vai dar errado ali, do que incitar o impulso consumista e empolgar.

Pois bem, logo sabemos que o Starline vai se transformar em um inferno, quando vemos uma garota seminua logo de cara, tentando impedir que um sujeito gordo e mais velho invada seu apartamento. Ela não consegue contê-lo e é assassinada estrangulada pelo sujeito, que a coloca na mesa da sala e faz nela uma pequena operação não visível ao espectador, para na sequência se suicidar abrindo sua própria garganta.

Mais para frente vamos descobrir que essa garota é uma prostituta que atende vários moradores do Starline, e que o tal sujeito era o brilhante Dr. Emmil Hobbes (Fred Doederlein), que vinha trabalhando em experiências com uma nova forma de parasita, criado para substituir órgãos danificados. Introduzidos no corpo, esses parasitas se adequariam ao seu hospedeiro e imitariam as funções vitais desses órgãos substituídos. Mas a coisa não é tão altruísta assim como você pensa.

Dissecando

Dissecando

Como um bom cientista louco, não era nada disso que Hobbes estava pretendendo criar, e utilizando a prostituta como paciente zero que infectaria os demais clientes, esse parasita, que parece mais com um cocô, na verdade possui uma qualidade afrodisíaca que ataca seus hospedeiros aumentando sua libido e reduzindo seu autocontrole a nada, transformando-os em zumbis sexuais pervertidos, enaltecendo seus instintos mais secretos e iniciando no Starline um ataque maciço e histérico de selvageria e impulso sexual devastador.

Cabe ao Dr. Roger St. Luc (Paul Hampton), o médico residente do prédio e a enfermeira e sua amante, Forsythe (Lynn Lowry), tentar escapar com vida e impedir de ser comido, em ambos os sentidos, por todos aqueles burguesinhos alienados e metidos que se transformam em maníacos sexuais. E claro que no ínterim entre um violento e gore ataque e outro, há os mais bizarros personagens possíveis e cenas de alto teor erótico, como por exemplo a consumação do amor lésbico entre a musa dos filmes de terror Barbara Steele com a peituda Susan Petrie. A cena final da piscina, antes dos zumbis deixarem o Starline em busca de novas vítimas e novos prazeres em Toronto, demonstra claramente como aquilo tudo é uma verdadeira suruba e a literal adaptação cinematográfica da “Festa no Apê”.

Cronenberg mais tarde viria a dizer que o propósito máximo de Calafrios era “mostrar o que não podia ser mostrado e dizer o que não podia ser dito”. Isso explica todo o caráter reacionário da obra e a mente afiada do diretor. Porque no final das contas, o que fica é a ideia de um apocalipse sexual libertador, com todos os seres humanos livres dos grilhões da culpa do id para que o superego extravase, mas com isso, deixando claro o quão terrível e visceral seria se perdêssemos esse controle de verdade.

Pool party!

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] jovem cineasta, que após tomar pau da crítica puritana canadense, julgando seu filme de estreia, Calafrios, como “pornográfico” e de mau gosto, resolveu retomar ao tema, porém em uma escala superior e […]

  2. […] O enredo é uma livre interpretação do conto russo de terror escrito por Nicolaj Gogol, que mais tarde também seria adaptado aos cinemas no clássico soviético Viy – O Espírito do Mal. A bruxa Asa e a princesa Katia, ambas interpretadas por Steele, tornaram-se incônicas no cinema de terror, assim como a própria atriz inglesa, dona de uma beleza excêntrica, que trabalharia com Fellini em 8 1/2, com Roger Corman em A Mansão do Terror, com Joe Dante em Piranha e com David Cronenberg em Calafrios. […]

  3. […] Já tinha me conquistado com outros filmes anteriores dele, que também são ótimos, como Calafrios, Enraivecida na Fúria do Sexo, e Filhos do Medo. E apesar de toda a maluquice do diretor que é […]

  4. […] longas já predizia que os avanços tecnológicos (Videodrome – A Síndrome do Vídeo), sociais (Calafrios) e médicos (Filhos do Medo) poderiam ter efeitos devastadores sobre as pessoas. E A Mosca é o […]

  5. […] Cronenberg que já havia trabalhado (e muito bem) esse expediente nos anteriores (e ótimos) Calafrios e Enraivecida na Fúria do Sexo, diferente do apreço pelo exploitation nestes outros longas, aqui […]

  6. […] estilo de terror venéreo e científico que ele aplicava em suas fitas de começo de carreira (como Calafrios, Enraivecida na Fúria do Sexo, Filhos do Medo e Scanners – Sua Mente Pode Destruir). Aqui tendo […]

  7. […] Já tinha me conquistado com outros filmes anteriores dele, que também são ótimos, como Calafrios, Enraivecida na Fúria do Sexo, e Filhos do Medo. E apesar de toda a maluquice do diretor que é […]

  8. […] Já tinha me conquistado com outros filmes anteriores dele, que também são ótimos, como Calafrios, Enraivecida na Fúria do Sexo, e Filhos do Medo. E apesar de toda a maluquice do diretor que é […]

  9. […] que abordaram esse tema, de formas diferentes, mas igualmente bem sucedidos, como o apavorante Calafrios de David Croneneberg ou os divertidos A Noite dos Arrepios na década de 80 e Seres Rastejantes […]

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