318 – As Esposas de Stepford (1975)

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The Stepford Wives

1975 / EUA / 115 min / Direção: Bryan Forbes / Roteiro: William Goldman (baseado na obra de Ira Levin) / Produção: Edgar J. Scherick, Roger M. Rothstein (Produtor Associado), Gustave M. Berne (Produtor Executivo) / Elenco: Katherine Ross, Paulie Prentiss, Peter Masterson, Nanette Newman, Tina Louise, Patrick O’Neal

 

Interessantíssimo suspense (infinitamente menos conhecido que sua refilmagem ridícula de 2004 com Nicole Kidman), As Esposas de Stepford é um excelente exercício do horror psicológico (com toques de ficção científica) sobre a repugnante sociedade machista que a mulher era sujeitada na década de 70 (e até hoje em diversos aspectos) e sobre a perda de identidade.

Toda essa metáfora está escondida em uma trama das mais bizarras, escrita pelo roteirista William Goldman, baseado no livro de Ira Levin, o mesmo autor de O Bebê de Rosemary (e claro que isso foi amplamente abordado no marketing promocional do filme). Coube ao diretor Bryan Forbes imprimir um ritmo que vai te deixando curioso e angustiado durante todo o filme, até chegarmos ao seu desconcertante e pessimista clímax.

A trama é centrada na tal cidade de Stepford, um típico subúrbio americano, onde Joanna Eberhart (papel de Katharine Ross, que quase foi de Diane Keaton), esposa de Walter Eberhart (Peter Masterson) muda-se com seus dois filhos. Acontece que Joanna e o marido viviam em Manhattan até então, e ela tentava viver uma vida independente, almejando alçar voos em uma carreira de fotógrafa, e não queria apenas ser submissa e viver a sombra do bem sucedido marido advogado. Sair da cidade grande e mudar-se para aquele local pacato seria fatal para os seus sonhos.

Clube da Luluzinha

Clube da Lulu…zinha

Mas tudo piora quando ela descobre que misteriosamente, todas as “esposas de Stepford” parecem ter sido vítimas de uma lavagem cerebral, onde só vivem em função do bem estar de seus maridos, sempre preocupadíssimas em deixar a casa limpa, o que preparar para o jantar e serem praticamente escravas sexuais. Enquanto os poderosos de Stepford fazem parte de um clube de homens conhecido como “Associação”, as mulheres são meras subalternas, sem nenhuma voz na sociedade e em seus casamentos, que agem de forma parva, praticamente lobotomizadas.

Joanna faz amizade com Bobbie Markowe (Paula Prentiss), outra esposa liberal que também acha a situação muito estranha. Com a ajuda de outra incomodada com o comportamento de suas vizinhas, a atlética Charmaine Wimpiris (Tina Louise), resolvem questionar as outras mulheres e até montarem uma associação feminina aos moldes da masculina, mas ficam cada vez mais estarrecidas com o comportamento inócuo das demais e sua devoção desmedida em fazer compras no supermercado e satisfazer seus maridos. Pior quando Charmaine, que adorava praticar tênis, da noite para o dia, também passa agir assim como todas as demais esposas, e autoriza o marido a destruir a quadra em seu quintal para construir uma piscina aquecida, seu antigo sonho.

Intrigadas e desesperadas, considerando que elas podem ser as próximas, Bobbie até sugere que algum componente químico estivesse sendo colocado na água de Stepford, mas a ideia é refutada por um químico ex-namorado de Joanna, que ela não via desde a universidade. Paralelo a isso, Joanna está preste a conseguir uma chance de expor suas fotos em uma importante galeria de Nova York, justo quando descobre que Bobbie, que estava decidida a deixar a cidade, também tinha sido “transformada” e seu comportamento completamente alterado.

Mulheres perfeitas!

Mulheres perfeitas?

Sozinha e desesperada, Joanna procura ajuda de uma psicóloga, pois obviamente após inúmeras discussões com o marido, ele começa a taxá-la como louca. Sentindo que será a próxima (diz para a psicóloga que quando ela voltar, “não haverá mais ela, mas uma cópia dela”, e a fotógrafa dentro dela estará morta) é aconselhada a deixar a cidade, mas ao voltar para casa, vê que seus filhos foram levados e ela está a um passo de descobrir o terrível segredo por trás daquelas mulheres “perfeitas”.

ALERTA DE SPOILER. Pule para o próximo parágrafo ou leia por sua conta e risco. Não sei se você já assistiu a Mulheres Perfeitas, a idiotice da versão de 2004. Nesta versão “moderna” não demora muito para descobrirmos que as mulheres são substituídas por cópias robóticas (que até produzem dinheiro…). Aqui em As Esposas de Stepford, só saberemos isso no final do terceiro ato, quando Joanna descobre que o líder da associação, Dale Coba (Patrick O’Neal), também conhecido por “Dis”, por ter trabalhado muito tempo como um executivo na Disneylandia, comanda a conspiração onde as esposas estão sendo assassinadas e trocadas por robôs. após já termos tido a primeira prévia disso quando Joanna esfaqueia a ex-amiga Bobbie, sem nenhum ferimento, apresentando apenas um movimento repetitivo de mal funcionamento, e termos começado a ligar os pontos sobre os desenhos feitos das esposas, gravações de suas vozes e a quantidade de empresas de tecnologia e robótica pela área. Mas o mais assustador de tudo, apesar do absurdo, é quando questionado do porquê, “Dis” responde fria e assustadoramente: “porque nós podemos”.

As Esposas de Stepford (que no Brasil também ganhou o título de Esposas em Conflito) escancara uma sociedade machista e patriarcal, baseada apenas nas aparências. Assim, juro que eu não entendo como aqueles homens preferem suas mulheres acéfalas e robóticas do que as mulheres de carne osso e personalidades fortes (exceto pelo fato de que alguns atributos podem crescer nas versão “melhorada”, como os seios, mas isso não vem ao caso…). Mas é perfeitamente crível a ameaça que as mulheres traziam aos homens bem sucedidos com sua independência e iniciativas profissionais. Tanto que Walter diz em certo momento odiar barulho e que não sabe lidar com crianças. Agora imagine a cabeça de um sujeito como esse, a mulher indo trabalhar e esse papel se invertendo? Ou seja, ao invés da possibilidade de assassinato e dos perigos da robótica, a mensagem que grita vem dos horrores do preconceito e do machismo (e da tal aberração da cultura do estupro, como somos obrigados a ouvir por aí nos dias de hoje ), tão arraigados na cabeça dos homens (que fazem tempestade em copo d’água por conta de aplicativos de “vingancinha social” como o Lulu, sendo que rotular e julgar as mulheres nós já  fazemos há tempos nas mesas de bar e intervalo das obras), que podem levá-los a atitudes imbecis como essa do filme, ou de muitas outras piores que vimos por aí na vida real.

Reflexo das mudanças

Reflexo das mudanças


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Paulão Geovanão disse:

    O dvd foi lançado sim. Deve estar fora de catálogo.

  2. Cross (Clausner) disse:

    Que trailer é esse? Coloca o normal que é esse aqui.

    • Caraca, Cross. QUE TRAILER ERA AQUELE????

      Tipo aqui no WordPress tem uma opção que você já procura direto o trailer do Youtube, e aquele foi o primeiro que apareceu, daí postei sem ver. AFE!

      Já substituí pelo trailer que você mandou. Valeu pelo toque.

      Abs

      Marcos

  3. Andrea disse:

    Adorei o post!! Estou louca para ler o livro e depois assistir a essa versão cinematográfica!! A de 2004 é realmente péssima! =/

  4. Pablo disse:

    Assisto umas três vezes a esse filme é digo: um ótimo exercício de suspense misturado a crítica social. Simplesmente perfeito!!
    Ótima crítica para um ótimo filme!

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