323 – Prelúdio para Matar (1975)

Profondo Rosso / Deep Red

 1975 / Itália / 126 min / Direção: Dario Argento / Roteiro: Dario Argento, Bernardino Zapponi / Produção: Salvatore Argento, Claudio Argento (Produtor Executivo) / Elenco: David Hemmings, Daria Nicolodi, Gabriele Lavia, Macha Méril

 

Se pudermos de uma forma grosseira dizer que Dario Argento é o Alfred Hitchcock italiano, podemos então afirmar que Prelúdio para Matar é o seu Psicose. Considerado por muitos sua obra-prima, foi o filme que catapultou o jovem diretor ao estrelato em seu país natal e o tornou conhecido no resto do mundo. É um trabalho único que mostra todo o potencial do italiano.

Argento aqui apresenta uma grande evolução técnica e criativa com relação aos seus filmes anteriores da trilogia dos animais: O Pássaro das Plumas de Cristal, O Gato de Nove Caudas e Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza, fazendo dele o giallo definitivo. Todo mundo aqui já está careca de saber (quer dizer, se você é leitor do blog) que o giallo é um subgênero do cinema italiano, composto pro thrillers ultraviolentos que envolve assassinatos e sadismo. O termo giallo, que significa “amarelo”, remete aos livros de mistério e detetive que eram publicados na Itália, todos eles com capa amarela.

Prelúdio para Matar é a quintessência do giallo, já que a história envolve toda a narrativa básica comum nesse tipo de filme: uma testemunha ocular, uma investigação particular e um assassino que usa luvas e capa que comete seus crimes com requintes de crueldade extrema. Aqui ele é acompanhado de sádica elegância ímpar, com a Argento simplesmente dominando todos os quesitos técnicos e narrativos do filme, pontuado pela trilha sonora progressiva do Goblin (do brasileiro Claudio Simonetti – parceiros de vários filmes de Argento) e uso exagerado de cores e profusão de sangue (dos mais falsos que o cinema já viu).

É atmosfera pura! Argento envolve o seu espectador de todas as formas possíveis transformando a violência estilizada em algo sublime, se é que isso algum dia pode ser possível. Abusa da sistemática capacidade de mexer com os nervos daquele incauto sujeito que está do outro lado da tela, deixando-o estupefato, com a respiração contida, incrédulo no que acabara de ver, mesmo que no fundo, seja mais uma história ao moldes do whodunit? e com uma reviravolta final extremamente psicológica que nem toda terapia do mundo conseguiria explicar. É o horror na sua essência pervertida e psicótica.

Ops, olhe o que eu achei no chão

Veja só: Marcus Daly (David Hemmings, de Blow Up – Depois Daquele Beijo) é um pianista de jazz (obcecado, diga-se de passagem) que dá aulas no conservatório de Roma e é a testemunha ocular do assassinato brutal da médium Helga Ulmann (Macha Méril). Ele começa sua investigação por conta própria (ei, é um giallo, lembra?), junto com a jornalista espevitada Gianna Brezzi (Daria Nicolodi, então esposa de Argento, com quem teve Asia Argento, futura atriz de filmes do pai e terror em geral). A intrincada trama vai levando a uma sequência de mortes, uma mais macabra (e violenta) que o outra, com os heróis sempre um passo atrás do assassino, até seu desconcertante final.

Você não precisa saber absolutamente mais nada sobre o longa. É então assistir e deixar o queixo segurado para ele não cair tantas vezes quanto Argento concebeu o filme para que ele caia. Você só terá que se deixar levar por um pianista paranoico e uma jornalista metida a besta em uma viagem infernal nas profundezas da brutalidade humana e nos labirintos escuros repleto de perversão assassina e sexual do matador, amparado por um misé-en-scéne impecável e trilha sonora desconcertante. Argento te convida a ser testemunha de tudo e te obriga a se sentir mal com isso, porém deliciando-se a cada nova experiência brutal. Esse é o pulo do gato. Prelúdio para Matar vai despertar sentimentos dúbios em você de satisfação e repulsa.

A direção é um primor, assim como sua fotografia. É uma verdadeira aula de cinema. Vê se claramente toda a influência do mestre Mario Bava em cada take de Argento, e principalmente, todo o benefício de ser oriundo de uma família de cineastas. É violência hiper-realista e exageros no vermelho profundo (tradução literal do título original do filme). A ornamentação, a mistura de elementos infantis que mistura o onírico com a realidade e a arquitetura rococó são outros elementos importantíssimos que constroem toda a aura de perfeição da fita. E Argento nos coloca sob o ponto de vista do assassino, para ver exatamente tudo que ele vê enquanto comete seus crimes. Foi o último giallo da carreira do diretor (até a frustrada volta ao tema em 2009 com a fraca produção Giallo – Reféns do Medo, com Adrien Brody), antes de enveredar pelo caminho do fantástico e sobrenatural nos seus próximos longas, como por exemplo a trilogia das mães.

É mais um filme que vi de forma tardia, apenas quando foi lançado em DVD no Brasil, pela Editora Dark Side, que durante os anos 2000 fez um excelente trabalho relançando vários títulos no país, vendidos em bancas de jornal por um preço camarada. Prelúdio para Matar chegou para o consumidor como um excelente DVD duplo, widescreen, com um disco inteiro recheado de extras. Vale muito a pena de ter na coleção. Hoje infelizmente essa edição está fora de catálogo. Mas como existe a Internet, quem ainda não viu, merece ser agraciado por esta obra de arte.

Mortes violentas com sangue muito de mentira

Serviço de utilidade pública:

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Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] foi lançada um caprichadissima edição em DVD duplo pela Editora Dark Side (que também lançou Prelúdio para Matar, outa fita de Argento), com um disco bônus com um documentário sobre a obra do influente diretor. […]

  2. […] Argento e deu uma cópia do roteiro para ele. Como Romero também era fã das obras de Argento como Prelúdio Para Matar e Suspiria, o casamento entre eles foi perfeito. Os dois trabalharam em parceira, sempre […]

  3. […] como maquiador de vários filmes do italiano Mario Bava, e mais tarde Dario Argento, como em Prelúdio Para Matar e depois ficou famoso por criar efeitos visuais para filmes como Alien – O Oitvao Passageiro, […]

  4. rocky disse:

    Não sabia que tinha esse título no Brasil. A musiquinha é fantástica, mas os crimes são meio ensanguentados demais. A coitada da Clara Calamai naquele elevador… dá medo até lembrar.

  5. […] as pistas finais para a derradeira descoberta dos assassinos), quanto no seu giallo definitivo, Prelúdio Para Matar e sua obra-prima, […]

  6. […] se pretende transmitir. Passa longe da Trilogia dos Animais de Argento, ou mesmo de sua obra prima, Prelúdio Para Matar, mas segue à risca os passos ensinados por Mario Bava em Seis Mulheres Para o Assassino e ajuda a […]

  7. […] se pretende transmitir. Passa longe da Trilogia dos Animais de Argento, ou mesmo de sua obra prima, Prelúdio Para Matar, mas segue à risca os passos ensinados por Mario Bava em Seis Mulheres Para o Assassino e ajuda a […]

  8. Allan disse:

    Lembro de ter comprado o DVD da Dark Side, mesmo sem conhecer o filme e acabou se tornando um dos meus preferidos. O problema deste DVD é que em vários minutos, nas cenas faladas em italiano, não tem as legendas.

  9. […] disso. O auge que o italiano conseguiu alcançar, mesmo depois do quase perfeito giallo Prelúdio para Matar. Aqui ele desfila toda sua virtuose em imagem e som, misturando uma crônica de violência plena […]

  10. […] Argento e deu uma cópia do roteiro para ele. Como Romero também era fã das obras de Argento como Prelúdio Para Matar e Suspiria, o casamento entre eles foi perfeito. Os dois trabalharam em parceira, sempre […]

  11. […] em O Pássaro das Plumas de Cristal e que atingiria seu ápice na sua obra prima do gênero, Prelúdio Para Matar. Aqui o diretor deixa de lado a figura carimbada do maníaco que veste capa e luvas pretas de couro […]

  12. […] como maquiador de vários filmes do italiano Mario Bava, e mais tarde Dario Argento, como em Prelúdio Para Matar e depois ficou famoso por criar efeitos visuais para filmes como Alien – O Oitvao Passageiro, […]

  13. […] das Plumas de Cristal, O Gato de Nove Caudas e Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza, e a obra-prima Prelúdio Para Matar, Dario Argento voltou sua câmera para o sobrenatural em Suspiria e A Mansão do Inferno. Mas ele […]

  14. […] das Plumas de Cristal, O Gato de Nove Caudas e Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza, e a obra-prima Prelúdio Para Matar, Dario Argento voltou sua câmera para o sobrenatural em Suspiria e A Mansão do Inferno. Mas ele […]

  15. […] nos famigerados anos 80, e tendo deixado para trás lá na década de 70 suas duas obras primas, Prelúdio Para Matar (uma década antes) e Suspiria, Argento só derrapou. Mesmo citando que Phenomena é seu favorito […]

  16. […] você goste ou não. E mais, essa volta ao giallo que o consagrou com sua trilogia dos animais e Prelúdio Para Matar, é uma espécie de compêndio de todos os elementos cinematográficos do diretor italiano nas duas […]

  17. guilherme disse:

    não tem nehum seed, não consigo baixar ;( ainda sim ótimo site

  18. […] sua Itália natal, lançando alguns dos mais importantes filmes de terror de todos os tempos, como Prelúdio para Matar e Suspiria, sua obra prima, lá nos anos 70. E só porque Argento é o diretor que essa produção […]

  19. Daiane disse:

    Muito boa resenha, assisti esse filme no YouTube, pra quem estiver procurando, é só colocar o nome em inglês na busca “Deep Red”

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