335 – O Incrível Show de Torturas (1976)

BLOODSUCKING FREAKS aka THE INCREDIBLE TORTURE SHOW-1976 POSTER

The Incredible Torture Show / Bloodsucking Freaks

1976 / EUA / 91 min / Direção: Joel M. Reed / Roteiro: Joel M. Reed / Produção: Alan C. Margolin / Elenco: Seamus O’Brien, Luis de Jesus, Viju Krem, Niles McMaster, Alan Dellay, Dan Fauci

 

 

“Afinal, quem pode dizer o que é arte e o que não é?”. Esse é um dos muito diálogos campy deste filme absurdíssimo. Categoricamente posso afirmar: O Incrível Show de Torturas não é arte. É até esse o intuito da brincadeira com o diálogo. É um filme grosseiro, depravado, apelativo… Um verdadeiro cult do extremo cinema exploitation, mas com um pé (ou até os dois) no humor negro.

Para ilustrar bem o que se encontra em O Incrível Show de Torturas, para começo de conversa vou citar aqui alguns dos métodos de tortura ficcionais praticados durante todo o longa: uso de parafusos; um crânio esmagado por um torno; amputação de uma mão por um serrote; amputação de dedos por um cutelo; eletrochoque nos bicos dos seios; suspensão; extração de dentes; crânio perfurado por uma furadeira seguido pelo cérebro sendo sugado por um canudo; amputação de pés por uma serra elétrica; estiramento através de um cavalete/ cruz de Santo André; espancamento; dardos atirados em um alvo pintado nas nádegas; degolação por guilhotina; chicotadas; mulheres sendo usadas como bancos, mesas e apoios para os pés; e isso sem contar algumas cenas de canibalismo.

Está bom para você? Faria O Albergue ou Jogos Mortais parecerem filmes da Disney. Mas é claro, que não há um pingo de realismo em nenhuma destas cenas. São todas feitas com a mais trash das artes de se fazer maquiagens em filmes. Ou seja, por mais gráfico e explícito, choca mais pelo seu desgosto que por qualquer pinta de realismo. Mas o pior é que o diretor Joel M. Reed, que também escreveu o roteiro (em UM DIA) consegue passear por essa violência extrema tão bem quanto nos momentos de simples absurdo nonscense e pastelão.

Milk-shake de cérebro!

Milk-shake de cérebro!

Essa “ofensa a moral e aos bons costumes” da legendaria Troma, que parece uma homenagem a Herschell Gordon Lewis em seus momentos mais alucinados, traz em seu fiapo de história Sardu (Seamus O’Brien – que lembra o Miele de Planeta dos Homens e Cocktail), mestre do Teatro Macabro, um teatro de S&M inspirado no Grand Guignol francês, que auxiliado pelo anão Ralphus (Luis de Jesus – que parece um mini Raul Seixas) e duas capangas, apresentam um grotesco show onde pobres mulheres são torturadas de verdade, porém sem que o público acredite achando que não passe de truques. O critica Creasy Silo (Alan Dellay) manga das pretensões artísticas de Sardu e acaba sendo raptado pelos nefastos no intuito que ele dê uma resenha positiva ao seu próximo espetáculo, que envolverá um número de balé, apresentado pela também sequestrada Natasha DeNatalie (Viju Krem), famosa bailarina clássica que se apresenta no Lincoln Center.

Seu desaparecimento vai chamar a atenção de seu namorado, Tom Maverick (Niles McMaster), um jogador de futebol americano, que irá contratar o corrupto sargento ítalo-americano John Tucci (Dan Fauci) para iniciar uma investigação sobre o paradeiro da moça. E é isso, tudo que tenta ilustrar 91 minutos de escabrosidades de extremo mau gosto. É a banalização da violência e da selvageria em sua forma mais simples. Tem gente que gosta, tem gente que repudia. O resto é uma direção ridícula, edição e efeitos sonoros tosquíssimo, efeitos de maquiagem vagabundos e história das mais inverossímeis.

Obviamente quem procura assistir O Incrível Show de Torturas não vai esperar nada rebuscado, nem que seja um Cidadão Kane da vida. Isso é algo que desde o começo ele nunca tenta passar. Então já que é para chutar o balde, Reed faz isso com louvor. Não podemos esquecer também de alguns detalhes também, digamos, interessantes, que é o fato de Sardu também estar envolvido com tráfico de escravas brancas (inclusive uma cena de negociata com um intermediário de um poderoso figurão do petróleo, é com o gordão escroto Alphonso DeNoble, o mesmo de Comunhão) e na criação de um bando de mulheres que são tratadas como animais, vivendo enjauladas e tendo regredido a um estado bestial, se alimentando de carne humana. E claro, não posso deixar de comentar que praticamente todas as atrizes ficam nuas o filme inteiro. Então seios, bundas e pelos pubianos são encontrados em abundância para o deleite dos mais tarados.

Prefiro ser, essa mini metamorfose ambulante...

Prefiro ser, essa mini metamorfose ambulante…

O filme, obviamente, foi efetivamente BANIDO dos cinemas americanos, nem chegando a ser classificado pelo MPAA, principalmente por conta da pressão do Woman Against Pornography, grupo de feministas extremistas que protestavam contra a pornografia no final dos anos 70 e começo dos anos 80 nos EUA. Então a Troma passou a mão na tesoura e cortou o filme para ganhar uma classificação R. Mas os excelentíssimos Lloyd Kaufman e Michael Herz mandaram a versão na íntegra para os cinemas dizendo que aquela era a tal versão editada. O embuste acabou sendo descoberto quando uma mulher reclamou que o filme havia traumatizado seu filho. O MPAA acabou processando a Troma pelo uso inapropriado da classificação R. Mas aí a sacanagem já havia sido feita.

Relançado durante os anos 80, o título original, “The Incredible Torture Show” foi modificado para “Bloodsucking Freaks”, e foi quando o filme tornou-se largamente conhecido, já que passou a maior pare do tempo até lá engavetado. Algumas curiosidades interessantes: o diretor Joel M. Reed disse ter baseado seu roteiro em um verdadeiro balé S&M que assistiu certa vez e no nazixploitation Ilsa, a Guardiã Perversa da SS; o cérebro sugado por um doutor sádico e psicopata na infame cena do canudo era na verdade feito de aveia; e o ator Seamus O’Brien, que interpreta o Mestre Sardu, foi morto esfaqueado pouco tempo depois do término das filmagens, tentando reagir a um assalto em seu apartamento.

Bom, pelo que você pode perceber, O Incrível Show de Torturas é apenas para aqueles de estômago forte e baixo nível de sensibilidade, porque só assim mesmo para assistir (e até apreciar, por que não?) uma obra tão grotesca, mórbida, gráfica e extremista, e ainda conseguir dar risada das situações absurdas e cômicas que também são encontradas nessa película.

Jantar servido

Jogo de (muito) azar

Serviço de utilidade pública:

O DVD de O Incrível Show de Torturas não foi lançado no Brasil.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Sensacional! Esse vou reservar pra uma noite especial. Diabos, acho que vou até chamar a patroa pra ver comigo! Muito bom! 8)

  2. Allan disse:

    Roteiro escrito em um dia? Tá explicado o motivo de eu ter achado tão chato esse filme, ehehe.
    Mas teria que revê-lo, apesar de não ter muita vontade de fazer isto.

  3. […] um rápido ciclo, contendo Night of the Zombies, de Joel M. Reed (o mesmo diretor maluco de O Incrível Show de Torturas), de 1980, e duas produções trash ao extremo da Eurociné, uma assinada por Jean Rollin, O Lago […]

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