339 – Martin (1976)

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1976 / EUA / 95 min / Direção: George A. Romero / Roteiro: George A. Romero / Produção: Richard P. Rubinstein, Patricia Bernesser e Ray Schmaus (Produtores Associados) / Elenco: John Amplas, Lincoln Maazel, Christine Forrest, Elyane Nadeau, Tom Savini

 

Martin é o vampiro hipster de George Romero. E melhor ainda, é o vampiro existencialista (inédito no gênero até então), daquele que é responsável (e para alguns apenas conhecido por) criar o universo zumbi que conhecemos e cultuamos até hoje em dia.

Recheado de suas famosas metáforas de situações humanas, Martin joga luz a um vampiro (sem torrá-lo), que diferente de todas as criaturas vis que havíamos visto nos filmes de terror, luta na verdade por sua humanidade, por encaixar-se socialmente e tentar levar uma vida “normal”, enquanto combate a necessidade esporádica de se alimentar de sangue.

Na verdade, não se sabe ao certo se Martin, interpretado de forma muito coesa pelo jovem John Amplas, é de fato um vampiro. Ele não possui nenhuma das características ou poderes inerentes às crias das trevas. Ele não derrete quando exposto à luz solar (e também não brilha, graças a Deus), não possui nenhum poder hipnótico, capacidade metamórfica, agilidade e força sobre-humana, presas, e repulsa a cruz ou ao alho. Julga ter 84 anos de vida, quando na verdade parece ter seus 20. Será ele um vampiro mesmo, diferente do famoso arquétipo do sanguessuga, ou sofre de alguma patologia ou psicose?

Presas!

Presas!

Não importa na verdade. Mas mesmo assim, Romero faz uma excelente sacada de cenas traçando um paralelo aos eventos recentes da vida de Martin, com cenas em preto e branco, de um passado distante do jovem, passado no começo do século XX, com o garoto levando sua vida vampiresca e sendo caçado em determinados momentos, por homens com tochas e forcados, ou tentando ser exorcizado. E esses são os únicos momentos que nos remetem aos famosos filmes góticos de vampiro, e não a essa estilização moderna que o diretor resolveu se enveredar.

Seu primo mais velho, Tada Cuda (Lincoln Maazel) vê-se na obrigação de cuidar do jovem, já que a família é amaldiçoada com essa linhagem de vampiros, quando o mesmo se muda para Pittsburgh para tentar recomeçar. Não antes de cometer um de seus assassinatos no trem, onde conhecemos o modus operandi do vampiro: ele utiliza de agulhas e uma droga para dopar suas vítimas, fazendo sexo com as mesmas desacordadas e bebendo seu sangue. Porém há algumas regras que não devem ser quebradas, e Martin está proibido de atacar os membros da comunidade.

Mas metido nas suas roupas pretas, All Star de cano alto e óculos escuros, inevitavelmente Martin vai ter de se alimentar, assim como desenvolver relações sociais com outras pessoas que moram por ali, incluindo a amizade com a filha de seu primo Cuda, Crhistina (que namora Arthur, interpretado pelo mestre dos efeitos especiais Tom Savini, com quem Romero iniciaria uma prolífica parceria) e a Sra. Santini, uma mulher casada extremamente infeliz que possui um marido adúltero, e contrata Martin primeiramente no intuito de realizar pequenos trabalhos como zelador em sua casa, mas que na verdade quer é pular a cerca com ele. Ela será a primeira mulher que Martin fará sexo sem o artifício da droga, vencendo sua timidez crônica.

O vampiro hipster

O vampiro hipster

Martin é um jovem querendo se expressar em um mundo caótico. Esse é o cerne do drama vampírico que Romero imprime na fita. Um moleque sem traquejo social, que luta contra timidez e busca aceitação em um enredo que fala sobre preconceito e intolerância e o mais importante, é o diretor mestre na arte de incluir mensagens nas entrelinhas, mais uma vez jogar na cara do espectador o fim do american way of life e o crescente pessimismo pós Guerra do Vietnã, escândalo de Watergate, e tudo mais, mostrando a infelicidade generalizada do americano médio que vive naqueles subúrbios, absorvidos por uma vida pacata, medíocre e perigosa (com o crescimento do tráfico de drogas e delinquência juvenil, como se vê nas cenas do estacionamento do supermercado) contraposto com alguns “sortudos” que moram mais afastados do centro, com suas casas kitsch e atitudes promíscuas.

E claro que passeando por todo o liberalismo cultural tão típico dos anos 70 misturam-se algumas atitudes retrógradas e enraizadas na sociedade, simbolizadas principalmente por Cuda, que serve como um balanço em relação as atitudes modernistas de Martin ou de sua filha. Cuda evoca os preceitos do orgulho, honra e desgraça familiar, ligações fortes de sangue, acreditando em uma superstição secular e agarrado a isso, fechando os olhos para qualquer tipo de razão. Cristão fervoroso, não admite nenhum pé na modernidade, e isso fica óbvio no desconcertante jantar com o padre liberal, interpretado pelo próprio Romero.

Não por menos, Martin é um filme cult. Causou estranheza em seu lançamento e motivos não faltaram. Talvez os espectadores de meados dos anos 70 não conseguissem assimilar aquele vampiro e todas as referencias morais implícitas no longa, acostumados há anos e anos de vampiros usando capas e transformando-se em morcegos, resquícios da Era de Ouro da Universal e da Hammer. Mas não pode se negar que é um dos melhores filmes de um autoral George Romero (ele mesmo considera seu filme preferido), perdido entre súbitos os fracassos pós A Noite dos Mortos-Vivos (e este foi mais um deles, comercialmente falando) e seu retorno triunfante aos holofotes em Despertar dos Mortos.

Banho de sangue

Banho de sangue

Serviço de utilidade pública:

Compre o DVD de Martin na coleção Obras-Primas do Terror 2 aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Alexandre disse:

    É uma das obras mais profundas de Romero e um dos meus filmes prediletos. Há um filme chamado “Um Estranho Vampiro” (Vampire’s kiss), com Nicholas Cage, inspirado nesse filme de Romero, mas não chega aos pés dele.

  2. Natasha Costa disse:

    Olá! Não estou conseguindo baixar o filme. Você teria algum outro arquivo para indicar? Não consigo encontrar.

    Desde já muito obrigada!

    Natasha

    • Oi Natasha.

      Na real eu tenho uma parceria com a Versátil que acabou de lançar Martin na coleção Obras-Primas do Terror 2, então estou até tirando o arquivo do ar. Mas recomendo MUITO comprar a coleção, ou participe da promoção que está rolando na página do 101 no Facebook.

      Bjos

      Marcos

  3. Pedro Canto disse:

    Esse filme… Que roteiro genial! A história me impactou muito. Percebi nele que a habilidade do Romero de dizer mais com menos é pra além da crítica social de Despertar dos Mortos. E a fotografia do filme é a medida certa da melancolia do Martin. Daqueles filmes tão abertos à leitura que dá vontade de rever assim que acaba.

    E a coleção da Versátil que tá no link vale cada centavo.

  4. Pedro Canto disse:

    Mas, Marcos, o link tá direcionando pro Obras-primas do Terror vol. 1. E o Martin está no 2.
    Abraço

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